MONRÓVIA, 07/10/2010 – Mercy Freeman está sentada num pequeno berço num dos hospitais da Libéria olhando para o seu frágil filho, cujas órbitas escuras estão enterradas na sua cara ossuda. “Começou a ficar cada vez mais magro. Eu não sabia o que estava a acontecer e, por isso, resolvi trazê-lo ao hospital,” disse esta mãe solteira de 18 anos, com ar preocupado e confuso.
Ela tem alimentado Mark, o filho de 18 meses, com tigela após tigela de arroz, sem se aperceber que ele tinha ficado gravemente subnutrido apesar de ser alimentado com regularidade. Após duas semanas no hospital, Mark ainda está demasiado fraco para se sentar, com a pele a cair em pregas nas suas escanzeladas pernas. Só pesa metade do peso que devia ter na sua idade e para a sua altura.
“A maioria destas mães são demasiado novas (quando começam a ter filhos),” disse o Dr. Taban Dada, director clínico do Hospital da Redenção, localizado em Monróvia, capital da Libéria, um dos maiores hospitais públicos do país. “Muitas delas estão a ter muitas crianças antes de estarem preparadas. No fim de contas, não conseguem tomar conta destas crianças correctamente.”
A preparação adequada, defende Dada, inclui escolaridada, maturidade, recursos financeiros para sustentar a criança, um entendimento básico de nutrição e cuidados infantis, como higiene e a alimentação apropriada.
Mães Adolescentes
Um terço da mães liberianas têm o primeiro filho antes dos 19 anos, de acordo com as estatísticas do Ministério da Saúde para 2007, o que torna a Libéria um dos países com as taxas mais elevadas de adolescentes grávidas do mundo.
Dada assevera que estas jovens mães são responsáveis pelos elevados níveis de subnutrição do país, afirmando que eles são causados pela ignorância das mulheres sobre aquilo que deve constituir uma dieta saudável e não apenas falta de alimentos. Quase 40 por cento das crianças com menos de cinco anos de idade sofrem de subnutrição crónica, de acordo com o relatório nacional sobre política de nutrição relativo a 2008.
Os autores do relatório também constataram que ocorre no útero uma grande perturbação no desenvolvimento causada pela subnutrição, devido à carência de ferro, iodo e vitamina A da mãe, assim como nos primeiros dois anos de vida da criança. Muitas vezes isto também leva a atrofiamento e a lesões cerebrais irreversíveis.
“O QI das crianças será reduzido. Não serão bem sucedidas na escola,” diz Dada com preocupação.
Ele afirma que o Ministério da Saúde precisa de implementar as suas recomendações políticas no sentido de introduzir informação sobre nutrição nos programas escolares e instruir as grávidas sobre dietas equilibradas quando elas vão ao hospital.
Falta de conhecimentos dos pais
Nas regiões do centro e do norte da Libéria, entre pequenos campos de arroz e culturas de mandioca, Ruth Zansi, directora de um programa alimentar para 900 crianças no Centro de Esperança na Recuperação das Crianças do País em Ganta, concorda que a falta de conhecimentos e educação dos pais são responsáveis pela subnutrição. Mas isso não é necessariamente culpa da mãe.
“Durante a guerra, as pessoas dispersaram-se, e não podiam ir aos centros de saúde ou à escola,” explica Zansi, referindo-se aos 14 anos da guerra civil que causou 250.000 mortos, centenas de milhares de deslocados e comunidades destruidas.
Um relatório governamental de 2008 revela que 44 por cento das adolescentes nunca foram à escola e 62 por cento das mulheres são analfabetas, principalmente em resultado da guerra civil.
“As mães não compreendem que (os filhos) sofrem de subnutrição. Acreditam que alguém enfeitiçou as crianças. Só vêm (ao programa alimentar) porque são obrigadas a fazê-lo, mas preferem ir ao curandeiro tradicional,” explica Zansi, ela própria mãe de oito filhos.
O pessoal de Zansi explica pacientemente às mães adolescente os benefícios da amamentação e como suplementar as refeições com vitaminas acessíveis, como feijões e nozes.
Insegurança alimentar
Enquanto acaricia um rapazinho com o ventre inchado, Zansi sustenta que a pobreza e a insegurança alimentar são também factores cruciais que causam a subnutrição. A Libéria continua a ser um dos países mais pobres do mundo, de acordo com o Índice de Desenvolvimento Humano do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento relativo a 2008, e o desemprego extremamente elevado significa que muitas famílias são demasiado pobres para diversificar as suas dietas com legumes, carne e outros alimentos nutritivos.
Desde que a guerra civil terminou em 2003, a Libéria importa mais de metade dos seus alimentos e tem tido dificuldade em introduzir agricultura em larga escala de arroz, mandioca e milho.
As mães adolescentes não prejudicam os seus filhos intencionalmente, concorda Geoffrey Oyat, director do programa de protecção de crianças Save the Children: “Amam os seus bébes”. Tentam fazer o melhor. Mas no contexto em que vivem, não têm os recursos para tomar conta dos filhos.”
Oyat diz que a pobreza e o elevado nível de desemprego são acompanhados de um elevado número de gravidezes em adolescentes e gravidezes inesperadas: “[As raparigas] sustentam-se a si próprias, expõem-se, tentando vender produtos nas ruas e arranjando namorados.”
Pobreza
De volta à enfermaria pediátrica no Hospital da Redenção, crianças subnutridas com ventres inchados são alimentadas com arroz misturado com legumes verdes e uma mistura de leite rico em proteínas. Tal como Mark, a maior parte das crianças que começam a andar estão atrofiadas e têm um peso muito inferior ao recomendável. Devido ao seu fraco sistema imunitário, também são mais vulneráveis às doenças diarreicas, malária e peneumonia, por comparação a outras crianças.
Mercy Freeman, que abandonou a escola no oitavo ano, tem dificuldade em perceber as explicações do médico, mas Dada está seguro que ela conseguirá alimentar Mark e recuperar a sua saúde com o apoio do hospital. Entregou a Mercy um plano que explica como ter acesso a rações secas de papas ricas em proteínas numa clínica próxima, que irão proporcionar os nutrientes que o filho precisa para crescer.
*Este artigo foi produzido por Bonnie Allen e pela Colaboradora da New Narratives, Clara K. Mallah, da Front Page Africa. A New Narratives é um projecto que apoia as jornalistas na Libéria.

