Malawi com dificuldades na resolução do VIH pediátrico

LILONGWE, 24/11/2010 – Há 91.000 crianças a viver com VIH no Malawi. A falta de recursos significa que muitas não recebem o tratamento e os cuidados apropriados. Os Dados Actualizados sobre a Epidemia da SIDA, publicados pela ONUSIDA e pela Organização Mundial de Saúde, calcularam que havia 2.1 milhões de crianças com menos de 15 anos a viver com VIH em todo o mundo em 2007; 1.8 milhões vivem na África subsariana. A Campanha Para se Acabar com a SIDA Pediátrica (CEPA) calcula que 370.000 crianças africanas foram infectadas pela primeira vez nesse ano.

No Malawi, a ONUSIDA estima que 91.000 crianças com menos de 15 anos vivem com VIH. Entre as 27.000 crianças que têm um tipo avançado de VIH e um baixo número de células de CD4, só dois terços é que estão a receber terapia anti-retroviral.

Os observadores afirmam que estes cuidados são inadequados.

“Não tem havido tratamento pediátrico para as crianças com VIH no país, o que torna a administração dos medicamentos difícil. Têm de ingerir comprimidos para adultos, depois de serem partidos ao meio,” disse George Kayange, director executivo do Centro de Documentação e Informação dos Direitos das Crianças em Lilongwe.

Embora esta acção forneça a dose apropriada às crianças, as crianças mais pequenas em particular têm dificuldade em engolir estes medicamentos e manter um regime de tratamento eficaz. Os ARV orais podiam ser uma alternativa mas Linda Malilo, coordenadora de formação da Iniciativa Baylor de Pediatria Internacional de Combate à SIDA (BIPAI), afirma que eles sãi muito caros e escasseiam no Malawi.

A BIPAI e o Fundo Abbott apoiam um dos principais centros de cuidados pediátricos de SIDA no país, o Centro de Excelência Clínica para Crianças em Lilongwe. O director executivo do centro, o Dr. Peter Kazembe, afirma que o centro cuida de mais de 2.200 crianças, incluindo 1.535 que recebem o tratamento ART no local.

Entre as organizações que encaminham as crianças para o centro está a Associação Edzi Kumudzi. A EKAM é uma organização comunitária que presta assistência às crianças com VIH em áreas rurais perto da capital do Malawi, Lilongwe. A EKAM trabalha com mais de 2.000 orfãos de VIH, oferecendo apoio psicossocial; no entanto, a falta de recursos impede esta organização comunitária de implementar outros programas como, por exemplo, apoiar a boa nutrição de crianças seropositivas.

O director executivo da EKAM, Maxwell Mphoyo, disse à IPS que actualmente a coordenação entre organizações como a sua e o governo é fraca.

“Seria muito fácil ao governo melhorar os cuidados pediátricos e serviços de tratamento do VIH se trabalhasse com as ONG locais sempre presentes no terreno, ajudando desse modo as crianças com VIH e SIDA no Malawi,” disse Mphoyo.

Defende que a coordenação entre as ONG locais e o governo melhoraria os cuidados de saúde, visto que as organizações como a EKAM estão a levar a cabo intervenções no domínio do VIH e SIDA em áreas rurais. Isto deixaria ainda ao governo a difícil tarefa de proporcionar recursos suficientes no orçamento nacional de saúde para complementar o trabalho da sociedade civil.

A Principal Secretária na presidência e no governo responsável pelo Combate ao VIH e SIDA e pela Nutrição, Mary Shawa, disse aos orgãos de informação locais que o governo leva a sério a questão do acesso universal para o tratamento de crianças e adultos. Um passo para disponibilizar o tratamento a mais pessoas é o plano de criação de uma fábrica para a produção de medicamentos anti-retrovirais no Malawi.

“Na sequência dos regulamentos das Nações Unidas sobre o estabelecimento de uma companhia de produção de medicamentos ARV, é necessário dar uma série de passos. Acreditamos que a companhia estará pronta dentro de dois anos,” disse Shawa.

A EKAM afirma que o governo precisa de garantir que essa fábrica também produza medicamentos anti-retrovirais especificamente para crianças.

“A fábrica vai ser muito importante para as crianças que vivem com VIH e SIDA, visto que o tratamento deixará de constituir um problema,” disse Mphoyo. Além disso, sublinhou a necessidade de se formar um maior número de especialistas de saúde na área do VIH pediátrico e a construção de mais estabelecimentos de saúde em todo o país para se prestar assistência às crianças que vivem com VIH e SIDA.

A Campanha Para Se Acabar Com a SIDA Pediátrica (CEPA) apelou aos governos africanos que apoiem os seus próprios compromissos quanto à questão do acesso universal a tratamento médico para adultos e crianças, aumentando as dotações orçamentais para a área da saúde. Os governos africanos comprometeram-se a dedicar 15 por cento do total dos seus orçamentos para a saúde numa reunião da União Africana em Abuja na Nigéria em 2001.

No entanto, o Malawi foi um dos poucos países africanos que atingiu este nível de despesa na área da saúde em 2006, antes de retroceder novamente: as dotações atribuídas ao sector da saúde neste momento são inferiores a 13 por cento.

Dingaan Mithi

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