UGANDA: O lado obscuro das TIC

Kampala, Uganda, 29/11/2010 – O rápido crescimento do mercado das tecnologias da informação e da comunicação (TIC) em Uganda é visto com bons olhos porque permite impulsionar o desenvolvimento do país, embora sua expansão não considere o aumento da violência de gênero que traz consigo.

Mulheres em um treinamento sobre TIC em Namaingo, no Leste de Uganda. - Susan Kinzi/IPS.

Mulheres em um treinamento sobre TIC em Namaingo, no Leste de Uganda. - Susan Kinzi/IPS.

Este país tem um dos mercados de TIC de maior crescimento da África oriental.

O uso de telefone celular aumenta rapidamente. Em 2009, eram 10,7 milhões de clientes, podendo ser 20,9 milhões em 2015, segundo um informe da Pyramid Research. Presume-se que, com o aumento de celulares, cresça a conectividade. No momento, apenas um em cada dez ugandenses tem acesso à Internet. Com o crescimento do uso de telefonia móvel, foi registrada uma nova forma de invasão da privacidade mediante mensagens de texto.

A maioria dos usuários das TIC entrevistados para uma pesquisa do departamento de estudos de gênero e da mulher, da Universidade Makere, teve problemas familiares. Dos entrevistados, 46% disseram que tiveram problemas com seu cônjuge pelo uso do celular e 16% por causa dos computadores, diz a pesquisa de Aramanzan Madanda. Os conflitos surgem por questões ligadas à liberdade e ao controle.

A maioria das vítimas de violência é de mulheres, segundo o estudo feito em dois distritos de Iganga e Mayuge, entre 2007 e este ano. “As mulheres denunciaram ter sofrido episódios de violência física, e os homens violência psicológica”, contou Aramanzan, que também integra a Rede de Mulheres de Uganda (Wougnet). “Na localidade de Busoga, as mulheres costumam ter de pedir aprovação do marido para ir a qualquer lugar, desde visitar um parente até fazer compras”, acrescentou.

“Agora, elas contatam seus familiares e outras pessoas sem este consentimento. A perda de controle sobre a esposa, em muitos casos, derivou em episódios de violência”, afirmou a pesquisadora. “Como as mulheres costumam ser analfabetas, só sabem como fazer chamadas. A maioria desconhece as medidas de segurança de seus telefones e não sabem que seus companheiros podem ver os números discados ou ler as mensagens. Não usam códigos de segurança”, diz o informe.

Em algumas famílias, as mulheres costumam ser obrigadas a utilizar o viva-voz para que todos saibam com quem falam. A invasão de privacidade das mulheres com a TIC se exacerba pela dependência econômica que têm em relação aos homens. A maioria dos compradores de celular é homem, diz o estudo. “A liberdade reside no poder de compra”, explicou Aramanzan.

A Lei de Violência Doméstica, aprovada em abril em Uganda, reconhece pela primeira vez a relação entre as TIC e a problemática. O envio repetido de mensagens insultantes e das chamadas para outra pessoa é um crime que pode ser punido com dois anos de prisão. Por outro lado, a legislação sobre crimes cibernéticos não dá muita atenção a questões de gênero e nenhuma a episódios de violência. “Só o projeto sobre Firmas Eletrônicas contém uma referência direta às mulheres no artigo 86, no tocante a uma ordem judicial contra os suspeitos”, diz um estudo da Wougnet, feito por Goretti Zavuga Amuriat.

A legislação sobre as TIC se concentra no governo, no comércio eletrônico e na proteção de dados, mas omite questões sociais e de gênero, diz o informe de Goretti. “A maioria dos atores na indústria das TIC se preocupa pela expansão e por aumentar os ganhos sem considerar as consequências que implica em matéria de violência de gênero”, explicou Aramanzan. Wougnet oferece capacitação sobre as TIC para mulheres e sobre como minimizar as consequências negativas.

“Houve êxitos”, disse Maureen Agena, da Wougnet. “As mulheres capacitadas agora usam telefones celulares para denunciar casos de violência doméstica e de outro tipo”, acrescentou. A organização participa da campanha “Dominemos a Tecnologia”, no contexto da qual difunde o problema da violência contra as mulheres em Uganda por meio de mensagens de texto. As TIC contribuem para a criação de emprego, diminuem o isolamento das mulheres, mas ainda impõem restrições ao poder das mulheres, concluiu Aramanzan. Envolverde/IPS

Rosebell Kagumire

Rosebell Kagumire has been a multimedia journalist since 2003 with extensive experience using new media tools. She covers conflict in Africa’s Great Lakes region. Rosebell’s blog won the first African journalist blogging award from Panos Institute West Africa and Global Voices. Her blog—which covers Uganda politics, development issues in Africa, post-conflict concerns and women’s right—has been quoted by major international media outlets Rosebell is an Internet Freedom Fellow with the U.S. Department of State and in early 2011 she completed a fellowship with the World Health Organisation reporting on the health workforce crisis. She has also worked with international media and campaign groups on several human rights issues in Uganda and the region. She holds a master’s degree in media, peace and conflict studies from the United Nations-mandated University for Peace in Costa Rica.

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