Bulawayo, Zimbábue, 22/12/2010 – Trabalhadoras não qualificadas na indústria têxtil do Zimbábue afirmam que são discriminadas em relação aos homens por serem as primeiras demitidas em casos de reestrutura empresarial. Isto ocorre apesar dos crescentes chamados, após a formação do governo de unidade neste país da África austral, para potencializar economicamente as mulheres e fazê-las partes ativas dos esforços para alcançar os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio.
A indústria têxtil do país é uma das muitas que sofrem a crise das últimas duas décadas. Apesar de a Edgars, uma empresa fabricante no atacado, informar ganhos pela primeira vez este ano, houve demissões em massa nas fábricas do setor. As importações, mais baratas, encontram rapidamente um mercado entre os zimbabuenses, cujos bolsos foram duramente afetados pela crise, obrigando muitas indústrias locais a reduzirem suas atividades ou fecharem.
Para agravar a situação, o projetado orçamento nacional para 2011 inclui uma redução das tarifas sobre a importação de roupas dos atuais 40% mais US$ 2,50 por quilo para 40% mais US$ 1,50 por quilo. Reconhecendo que isto seria uma pressão extra sobre os fabricantes locais, o Ministério das Finanças justificou esta redução dizendo que serviria para deter o contrabando.
Para Theodora Ndlovu, este foi um ano particularmente ruim, já que foi demitida com outras centenas de colegas mulheres de uma das poucas firmas têxteis em Bulawayo, a segunda cidade mais importante do país. Ainda está indignada porque as mulheres foram as mais afetadas pela reestruturação, e está convencida de que isso foi deliberado. “Todos falavam disso, mas nem mesmo o conselho de trabalhadores podia fazer algo, já que estavam preocupados com a possibilidade deles mesmos perderem o emprego”, disse Theodora.
Sua colega Thembi Nqukula concordou: “Foi duro para nós, mas não estamos em posição de negociar, já que nos foi prometido que poderíamos reclamar nossos empregos logo que o negócio melhorar”. As perguntas dos trabalhadores aos empregadores sobre o critério para decidir as demissões sempre foram ignoradas. Um empresário disse à IPS que é política da companhia não discutir como contrata e demite funcionários.
“Esta é uma mancha para um país que assumiu compromissos multilaterais para aumentar a participação feminina na economia”, disse Susan Mbewe, da Associação de Empresárias Aborígines do Zimbábue (Ibwaz). “Durante anos pressionamos pela potencialização das mulheres, inclusive em nossas próprias empresas (da Ibwaz), tomando decisões deliberadas para empregar mais. É tão difícil a empresários individuais fazerem o mesmo, especialmente com mulheres sem alguma capacitação?”, perguntou Susan.
Os esforços para aumentar a representação feminina na indústria e no comércio do Zimbábue concentram-se especialmente nos altos postos corporativos, enquanto as trabalhadoras não qualificadas são ignoradas. Segundo o Instituto de Amsterdã para Estudos Trabalhistas Avançados, cerca de 60% das mulheres no setor trabalhista zimbabuense carecem de capacitação.
“Mulheres não qualificadas precisam de contratos de emprego que respeitem seus direitos, mas está demonstrou que isto é difícil de aplicar, já que as empresas que demitem arbitrariamente afirmam que é sua resposta a fatores econômicos hostis que ameaçavam sua sobrevivência”, disse Zuzile Nyoni, conselheiro trabalhista que trabalhou para o Congresso de Sindicatos do Zimbábue.
Muitas mulheres contribuíam para o sustento de suas famílias, mas agora passaram a depender do salário dos maridos. “Que outra coisa podemos fazer sem cruzar a fronteira em busca de empregos fora do país? Não posso ficar sentada quando estava acostumada a ganhar a vida trabalhando na fábrica”, disse Theodora, mãe solteira de duas crianças. “É preciso pensar nos filhos”, acrescentou.
A Organização Internacional do Trabalho afirmou que as demissões obrigaram muitas mulheres a irem para o setor informal. “Tornou-se um círculo vicioso para as mulheres, e suas alternativas são dedicar-se a cuidar da casa ou viver sob a ameaça diária de demissão”, disse Zuzile. Enquanto isso, para as que foram demitidas, como Theodora, a busca por um emprego qualquer fica mais difícil em meio aos sinais de que a crise no Zimbábue não tem saída no curto prazo. “Talvez busque trabalho como guarda de segurança. Parece que é o único emprego que tem hoje em dia”, afirmou. Envolverde/IPS

