Cidade do Cabo, África do Sul, 02/12/2010 – Muitos países da África estão expostos a um novo aumento de preços dos alimentos, como ocorreu no começo da crise de 2007-2008, o que, por sua vez, agravaria o problema da aids (síndrome da deficiência imunológica adquirida).
“Estamos em uma situação em que, em geral, os preços dos alimentos caíram, mas, conforme se concretiza a recuperação mundial, poderemos vê-los aumentar de novo”, disse Scott Drimie, do Instituto Internacional de Pesquisa sobre Políticas Alimentícias (IFPRI). Segundo o Programa Mundial de Alimentos, 22 dos 30 países em alto risco na África subsaariana vão precisar de ajuda alimentar externa, muitos dos quais sofrem uma séria propagação do HIV (vírus da deficiência humana adquirida), causador da aids.
“Quando os preços afastam os alimentos nutritivos das pessoas com HIV e aids, desata uma crise imediata”, disse Scott. A epidemia de aids afeta na África indivíduos e lares, com múltiplas pressões sociais, econômicas, ambientais e de saúde. Durante dez anos, a Rede Regional do IFPRI sobre Aids, Sustento e Segurança Alimentar (Renewal) estudou a vulnerabilidade das pessoas com HIV/aids na África oriental e austral.
O coordenador da rede em Malaui, Sam Bota, disse que o primeiro impacto da aids é uma perda direta de mão-de-obra. “Um censo nacional (no Malaui) claramente mostra que uma alta porcentagem de agricultores dedica grande parte de seu tempo ao atendimento de familiares doentes”, afirmou. “E, depois que morrem, perdem muito tempo no funeral, às vezes até 20 horas, tudo isso tempo produtivo”, acrescentou.
Como se não bastasse, a mudança climática também pressiona os lares de todo o continente, gerando incertezas sobre o tempo e a frequência das chuvas, às vezes reduzindo os campos ou obrigando os camponeses a optarem por outros tipos de cultivos, aos quais não estão acostumados. A aids mata pessoas que poderiam contribuir para facilitar estas transições e cobrir a escassez de mão-de-obra especializada.
Estudos feitos em Malaui e no vizinho Zâmbia mostram como os serviços de extensão agrícola (destinados a promover a inovação tecnológica e dar assessoria aos camponeses) foram impactados negativamente pelo HIV, o que pode contribuir para a insegurança alimentar. No Malaui, há uma taxa de vagas de 46% nos serviços de extensão agrícola devido às mortes por aids. A perda dessas pessoas capacitadas causa graves consequências na produtividade, disse Sam.
As famílias ameaçadas pela insegurança alimentar correm risco de entrar em um ciclo perigoso. “O surpreendente aumento da insegurança alimentar pode desencadear uma angustiante emigração, já que as pessoas irão em busca de alimentos e trabalho”, escreveu o diretor da Renewal, Struart Gillespie, durante a crise alimentar de 2008. “E a mobilidade das pessoas aumenta os riscos da exposição ao HIV, tanto para os que se deslocam quanto para os adultos que permanecem em suas casas”, acrescentou.
É possível que meninos e meninas abandonem as aulas, ficando mais expostos ao HIV no mundo do trabalho e perdendo educação que, por sua vez, reduz as probabilidades de contraírem aids. A insegurança alimentar também está vinculada a altos níveis de sexo por dinheiro sem proteção entre as mulheres pobres. Especialistas recomendam ir além da ajuda alimentar no curto prazo e traçar conexões entre os setores agrícola e o de saúde.
“Temos pessoas sem acesso a recursos para produzir comida”, disse Robert Ochai, da Organização de Apoio contra a Aids de Uganda. “Não se deveria deixar que essas pessoas sofressem. Temos que lhes dar acesso a terras e a créditos para mudarem suas vidas”. Envolverde/IPS


