Madri, Espanha, 10/12/2010 – A Amazônia, esquecida, esse imenso território da América do Sul, está presente na Espanha esta semana, com a apresentação do livro “Rua Amazonas, de Manaus a Belém, pelo Brasil Esquecido”, do jornalista e fotógrafo Bernardo Gutiérrez.
O inglês, residente por longos anos em Portugal e famoso por seus relatos juvenis, escreveu: “Espero que a história de minhas aventuras anime os missionários a empreenderem a viagem pelo Amazonas e suas ribeiras, para difundir a verdadeira fé entre seus selvagens moradores”. Gutiérrez relata seu encontro com D. Casaldáliga, o “padre vermelho” de origem espanhola, missionário no Brasil desde 1968, e como soube por outros que “seguir ao pé-da-letra o Evangelho fez o bispo de 82 anos pagar um preço muito alto”. D. Casaldáliga sofreu “dezenas de ameaças de morte”, cinco processos para ser deportado e oito malárias, além dos ataques da hierarquia católica.
Gutiérrez, que trabalhou para órgãos de comunicação da Espanha, França, México, Itália e Portugal, entre outros, morou no Brasil de janeiro de 2004 até o final de 2008, quando percorreu de ponta a ponta a Amazônia, uma terra que define como “de duplo fio” e “ao mesmo tempo céu e inferno verde”. O autor, de 35 anos, explicou à IPS que decidiu escrever mais um livro sobre uma região que conta com abundante bibliografia porque na medida em que adentrava nela se encontrava com novos fatos, contradições desconhecidas e, em especial, um choque brutal entre o passado ancestral da selva e seu presente.
Por isso, sem deixar de lado a leitura de artigos e livros sobre a Amazônia, que começou em sua adolescência, viajou bastante pela região e recolheu testemunhos diretos, especialmente dos povos indígenas e dos descendentes dos escravos negros, contou. No livro há um deixar-se levar por pessoas e vivências, como um antigo morador da cidade de São Paulo que encontrou nas margens de um lago, no Estado do Amazonas, que, farto da desumanização capitalista, foi viver na região.
Ele lhe apresentou, na vizinha Vila Samaúma, a dois homens que esperavam por um grupo de norte-americanos, “sua única fonte de renda”. Estes lhe contaram que o grupo que esperavam vinha pescar espécies em risco de extinção pagando por isso “uma quantidade descomunal às autoridades ambientais do Estado para poderem fazer isso legalmente”, e depois “passavam dias navegando, pescando e bebendo enorme quantidade de cerveja”.
De suas leituras recorda, como uma que o marcou especialmente, uma reportagem publicada em 1969 no Sunday Times, ilustrada com a foto de um menino pobre que tinha como legenda uma frase contundente: “Com o fogo, a espada, o arsênico e as balas, a civilização levou seis milhões de indígenas à extinção”. Atualmente, destaca o autor, há muitos exemplos da exploração, como a produção do guaraná, planta de usos ancestrais, cujos extratos empresas transnacionais transformam em bebida estimulante, que inclusive já exportam para a Europa, como a da marca Antárctica, produzida em parceria com a Pepsi-Cola.
Ali também se encontrou com Pedro Patacho, “um indígena de 66 anos”, que produz 500 quilos anuais de guaraná e se nega a receber sementes clonadas porque “mesmo sendo mais baratas te fazem depender de pesticidas que é preciso comprar”. Nessa selva, disse Gutiérrez, a partir do Século 16 se formaram os quilombos, que abrigava os escravos libertados ou fugitivos, dos quais persistem oficialmente cerca de 1.400 reconhecidos pelo Estado como comunidades autogestoras. O autor visitou os que estão organizados na Associação de Quilombos do Município Oriximiná.
Nessa localidade do Estado do Pará, um morador, Francisco Hugo de Souza, lhe contou que o primeiro título de terra de um quilombo foi conseguido em 1994. Nilda, sua mulher, lhe recitou alguns versos anônimos “simples, mas de uma força brutal”. “Estamos chegando ao fundo da terra/estamos chegando do ventre da noite/do açoite/viemos recordar/estamos chegando da morte dos mares/estamos chegando dos escuros sótãos/herdeiros da benção somos/viemos para chorar”, dizem.
São frases, afirmou Gutiérrez, para entender séculos de pesadelos. “Os próprios habitantes desconhecem sua origem. As lembranças são confusas, obscurecidas. Imagens que o tempo se encarregou de guardar como se estivessem em um filme em preto e branco”, explicou. São “lembranças obscuras, dores latentes, acrescentou. Medo endêmico do branco, do disparo certeiro, do sequestro”. Nilda contou que em sua juventude, quando alguém via chegar uma lancha ou via homens brancos, “saía correndo para avisar a comunidade”.
Os habitantes da maioria dos quilombos no Pará acabaram expulsos após a declaração da Reserva Biológica do Rio Trombetas, em 1979, e a instituição do Parque Nacional de Saracá Taquera, dez anos depois, quando foi proibida nessas áreas protegidas toda atividade humana. Em seu subsolo repousa uma das maiores reservas de bauxita do mundo, o que aumenta a pressão das empresas multinacionais sobre ela.
Em outra parte, por uma estrada paralela à Transamazônica, Gutiérrez chegou ao sul do Pará. A estrada é conhecida como Expresso da Escravidão, porque por ela chegam, a esta parte de selva, trabalhadores de todo o país. Contou que “dormem em lonas, barracas de palha, envoltos por mosquitos. Em propriedades isoladas, em meio à selva. Sem banheiro, nem água potável. Quase sem possibilidade de fuga, à mercê da desnutrição e da malária”.
Também acontece uma forte urbanização, que produziu pelo menos 95.355 quilômetros de estradas não oficiais, dez vezes mais do que as oficiais. Por isso e por seus relatos pessoas, disse o autor à IPS, seu livro “é uma viagem pela Amazônia urbana, contemporânea, onde há redes sociais, fábricas, chips, além de indígenas”. Em suma, a vida através dos mais de seis mil quilômetros do Rio Amazonas e dos seus demais afluentes ou rios paralelos, que em mais de uma ocasião o abastecem, nesta mítica bacia que, ontem como hoje, preserva o planeta. Envolverde/IPS


