Economia brasileira cresce, mas retrocede

Rio de Janeiro, Brasil, 06/12/2010 – A economia do Brasil se destaca como uma das que mais crescem no ocidente, mas o país vive o momento como um doente sem acesso fácil a medicamentos. A desindustrialização cristalizou em uma ameaça concreta de retrocesso e não vê saída no curto prazo. Esta tendência se reflete no comércio exterior. A China se converteu no principal sócio do Brasil, com uma balança onde a nação asiática importa quase exclusivamente produtos primários e exporta manufaturas.

Os Estados Unidos, que perderam o primeiro lugar, compram mais produtos industriais, inclusive porque os dois países são competidores no setor agrícola. No intercâmbio com a China há um crescente superávit brasileiro, que alcançou US$ 5,107 bilhões nos dez primeiros meses do ano. Quanto aos Estados Unidos, a balança se inverteu desde 2009, após o superávit recorde de US$ 9,867 bilhões em 2006, e no período janeiro-outubro o déficit somou US$ 6,813 bilhões.

Ainda assim, vários indicadores servem aos que diminuem a gravidade da acelerada perda de peso relativo da indústria de transformação no produto interno bruto. A economia cresceu mais de 7% este ano e as exportações de janeiro a novembro aumentaram 30,7%, em relação a igual período de 2009. Mas as importações aumentam em ritmo muito mais rápido, de 43,9% neste ano, em uma tendência sustentada desde 2007.

Um ano antes, o Brasil registrou superávit comercial de US$ 46,077 bilhões, que diminui ano a ano desde então. Até novembro, o saldo favorável somava US$ 14,933 bilhões. O superávit se mantém, além disso, por produtos primários, agrícolas e mineração. A indústria de transformação tem uma balança negativa, que neste ano chegará a cerca de US$ 35 bilhões, para multiplicar por cinco em dois anos, destacou à IPS Rogério Souza, economista-chefe do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial.

Em 2009, o setor foi o que sofreu mais intensamente no Brasil a crise financeira global surgida um ano antes e seu produto retrocedeu em 7%. Após uma recuperação iniciada este ano, houve uma queda no segundo trimestre e uma paralisação nos meses seguintes, o que ativou o alerta vermelho entre os empresários. A produção industrial paralisou dentro de uma economia de forte crescimento. Isto agrava a queda de sua participação no PIB, que já é 6% inferior à de 1970, quando o Brasil vivia um nascente processo de industrialização e exportava principalmente café, disse Rogério.

Todo o setor rendeu 25,4% do PIB em 2009 e a indústria de transformação representou apenas 15,5% dentro desse total. Enquanto isso, os serviços subiram para 68,5% do PIB. Este enorme predomínio do setor terciário é normal em países de alta renda, não no Brasil, onde “consolidar a indústria ainda é necessário para elevar a renda”, que ainda está em um nível médio, afirmou o economista.

Para Rogério, esta mudança é “o fator mais evidente” atualmente e afeta a competitividade da indústria brasileira, provocando uma “avalanche de importações” que supera o nível justificável pelo auge econômico brasileiro. A isso somam-se outros fatores de velha data, como a insuficiente infraestrutura logística, o elevado custo do dinheiro, a enorme carga tributária e o alto preço da energia, que encarecem a produção industrial brasileira. Estes custos exigiram longo tempo para sua redução, por isso é uma emergência atuar sobre o cambio.

Com o yuan chinês muito depreciado e o real supervalorizado em 42% com relação ao dólar, competir se torna impossível, já que ninguém conseguiria reduzir seus custos à metade, argumentou, no dia 30 de novembro, Paulo Francini, diretor de Pesquisas da Federação das Indústrias de São Paulo. Na ocasião, foi lançado um estudo que revela a crescente substituição de insumos e produtos nacionais por importados nas fábricas do coração industrial brasileiro. O governo central deve usar todos os instrumentos em seu poder para conter a supervalorização do real, incluída a restrição da entrada de capitais especulativos, atraídos pelas altas taxas de juros brasileiras, disse Rogério.

Outro exemplo da situação é o da indústria têxtil, que tinha saldos favoráveis entre US$ 400 milhões e US$ 500 milhões, há cinco ou seis anos. Em 2010, no entanto, projeta-se um déficit de US$ 3,5 bilhões com importações de US$ 5 bilhões, disse Fernando Pimentel, diretor-superintendente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil. O setor redobra esforços, com elevados investimentos em novos equipamentos e tecnologia, mas são muitos fatores adversos, como impostos e juros altos, má infraestrutura e escassa inovação tecnológica, assegurou Fernando. “O câmbio deixa tudo mais dramático, não estaríamos vivos se não fôssemos criativos”, ressaltou.

A indústria têxtil cresce no Brasil, incluindo o setor da confecção, mas o faz em ritmo inferior ao geral da economia por causa da “torrente de importações” que tira uma grande parte da expansão do mercado interno, queixou-se o líder empresarial. Para Fernando, a indústria brasileira sofre pelo que acontece no país, mais “o que fazem fora”, como manipulação cambial, taxas de juros zero e subsídios, o que a seu ver configura uma competição “ilegítima”.

O mundo vive “uma guerra por empregos” e a indústria têxtil, com alta capacidade em gerá-los, sofre mais diretamente a batalha, acrescentou Fernando, lembrando que no Brasil cerca de oito milhões de pessoas obtêm sua renda do setor têxtil, se aos 1,7 milhão de empregos diretos somarmos os indiretos e dependentes da atividade.

No Brasil os contratos de trabalho são rígidos e uniformes em todo o país, sem reduções tributárias para setores de uso intensivo de mão-de-obra, ao contrário de outros países, o que diminui a competitividade da indústria têxtil brasileira, lamentou. Um estudo da Confederação Nacional da Indústria, divulgado na semana passada, mostra que o salário brasileiro (somando salário, previdência social e outros benefícios trabalhistas) equivale a quatro vezes o da China e dez vezes o da Índia. Envolverde/IPS

Mario Osava

El premiado Chizuo Osava, más conocido como Mario Osava, es corresponsal de IPS desde 1978 y encargado de la corresponsalía en Brasil desde 1980. Cubrió hechos y procesos en todas partes de ese país y últimamente se dedica a rastrear los efectos de los grandes proyectos de infraestructura que reflejan opciones de desarrollo y de integración en América Latina. Es miembro de consejos o asambleas de socios de varias organizaciones no gubernamentales, como el Instituto Brasileño de Análisis Sociales y Económicos (Ibase), el Instituto Fazer Brasil y la Agencia de Noticias de los Derechos de la Infancia (ANDI). Aunque tomó algunos cursos de periodismo en 1964 y 1965, y de filosofía en 1967, él se considera un autodidacto formado a través de lecturas, militancia política y la experiencia de haber residido en varios países de diferentes continentes. Empezó a trabajar en IPS en 1978, en Lisboa, donde escribió también para la edición portuguesa de Cuadernos del Tercer Mundo. De vuelta en Brasil, estuvo algunos meses en el diario O Globo, de Río de Janeiro, en 1980, antes de asumir la corresponsalía de IPS. También se desempeñó como bancario, promotor de desarrollo comunitario en "favelas" (tugurios) de São Paulo, docente de cursos para el ingreso a la universidad en su país, asistente de producción de filmes en Portugal y asesor partidario en Angola. Síguelo en Twitter.

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