Nova York, Estados Unidos, 11/01/2011 – Enquanto a crise política na Costa do Marfim continua e ameaça derivar para uma guerra civil, a Organização das Nações Unidas adota uma postura cada vez mais agressiva: o secretário-geral, Ban Ki-moon, vai propor um aumento das tropas internacionais nesse país africano Ban, que rotineiramente opta pela diplomacia discreta em lugares problemáticos como Coreia do Norte, Sudão, Palestina e Birmânia, condenou de forma dura e aberta o presidente marfinense, Laurent Gbagbo, que se nega a deixar o cargo depois de perder as eleições de 28 de novembro.
“Os esforços de Gbagbo e seus partidários para manter o poder e desprezar o público não podem ser permitidos”, disse Ban a jornalistas há alguns dias. “O chamo a renunciar e permitir que seu sucessor eleito assuma o cargo rapidamente”, afirmou. O vencedor das eleições presidenciais, Alassane Ouattara, permanece isolado em um hotel, protegido por uma força internacional da ONU formada por nove mil soldados.
Ban pôde fazer declarações tão duras este mês porque contava com o apoio do Conselho de Segurança, da União Africana, da Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (Ecowas) e da União Europeia. Os quatro organismos apoiam Ouattarta e reconhecem sua vitória nas eleições, certificadas pelas Nações Unidas.
“Este é um dos raros momentos em que existe consenso na comunidade internacional de que os resultados estão sendo ignorados e que devem ser realizadas ações”, disse à IPS Bill Fletcher Jr., membro da junta editorial da revista semana na Internet BlackCommentator.com. Uma ação militar internacional, entretanto, seria uma medida drástica, à luz das ramificações da crise, não só para o povo da Costa do Marfim, como também para os países vizinhos contagiados pela violência, alertou.
“O que está em jogo neste momento não é o caráter político dos indivíduos específicos em questão, Outtara versus Gbagbo, mas se os resultados de uma eleição que a maioria dos observadores considerou justas devem ser reconhecidos”, disse Bill. “Deixem-me dizer clara e diretamente: qualquer tentativa de obstruir as operações das Nações Unidas ou de bloquear o Golf Hotel será totalmente inaceitável”, afirmou Ban há alguns dias. E acrescentou que qualquer ataque contra as forças da ONU seria considerado uma agressão à comunidade internacional.
No entanto, o secretário-geral se manteve em silêncio sobre as especulações de que a Ecowas interviria militarmente para derrubar Gbagbo e colocar Ouattara no poder. Uma ação assim poderia desencadear uma guerra civil em um país que já sofreu um conflito semelhante em 2002. Consultado sobre este tema, o porta-voz da ONU, Martin Nesirky, disse à IPS que a Ecowas e a União Africana trabalhavam estreitamente em busca de uma resolução para a crise.
“O primeiro objetivo é resolver isto pacificamente, e que o senhor Gbagbo deixe o poder, em linha com a vontade do povo da Costa do Marfim que claramente votou em Ouattara”, afirmou. “Neste momento, o que estamos dizendo é que nossa atenção está voltada para os esforços feitos por Ecowas e pela União Africana para buscar uma solução pacífica”, acrescentou Martin.
Ban Ki-moon apresentará esta semana um pedido ao Conselho de Segurança da ONU para enviar mais dois mil soldados para a operação na Costa do Marfim. Em uma declaração feita no dia 6, a ONU disse que as novas tropas preencheriam o vazio atualmente ocupado pela missão na Libéria, a Unmil, enviada temporariamente para as eleições presidenciais marfinenses. Gbagbo, por outro lado, exigiu publicamente a retirada das forças das Nações Unidas. Envolverde/IPS

