BIODIVERSIDADE-EGITO: Incerto renascimento da palmeira faraônica

Asuan, Egito, 11/01/2011 – Ambientalistas reclamam mais reforços para proteger a palmeira conhecida como Medemia argun, uma rara espécie desértica muito apreciada pelos antigos egípcios e que agora está à beira da extinção. Menos de 400 exemplares existem em remotas regiões desérticas do Egito e Sudão. Os ambientalistas afirmam que é necessária uma ação urgente para proteger esta palmeira, classificada com em perigo crítico pela Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN).

“Estas palmeiras podem ser remanescentes da vegetação que cobriu o Saara há cerca de dez mil anos, quando a área era muito mais úmida do que atualmente”, disse o ecologista Haitham Ibrahim, da Agência Egípcia de Assuntos Ambientais, ramo executivo do Ministério do Meio Ambiente. Agora, estão seriamente ameaçadas devido à “mudança climática e à atividade humana”, ressaltou.

Os arqueólogos souberam da existência desta palmeira por meio de antigos textos egípcios. Seus frutos secos eram encontrados com freqüência entre as oferendas e o ouro que recobria os túmulos faraônicos. Contudo, por muito tempo se presumiu que a valiosa palmeira havia desaparecido junto com os faraós.

Em 1837, o príncipe alemão Paul Wilhelm Von Württemberg, naturalista e explorador, encontrou uma espécie de palmeira não identificada no norte do Sudão. Os biólogos reconheceram essa misteriosa árvore como a mesma cujo fruto fora encontrado nos túmulos dos faraós, e se deram conta de que a Medemia argun sobrevivera à passagem dos séculos. No entanto, o futuro desta espécie era totalmente incerto.

Embora logo tenham sido descobertas mais destas palmeiras enigmáticas no norte do Sudão, no começo de 1900 voltaram a desaparecer. Apenas em 1963 a espécie foi avistada novamente, desta vez no árido sul egípcio. Nas últimas décadas, estudos exaustivos revelaram a existência de 30 destas palmeiras no Egito e de várias centenas no norte do Sudão.

“A espécie sobrevive, mas sua população está submetida a uma forte pressão”, disse Irina Springuel, professora de ecologia botânica. “A menos que seja protegida, pode desaparecer, e completamente”, acrescentou. Segundo Irina, a principal população de Mademia argun do Sudão está em risco pela superexploração realizada pelas tribos locais, que usam a folhagem para fazer corda, colchão e cestas. No Egito, a espécie está ameaçada pela seca e pelo aumento da atividade humana.

No Oásis Dungul, onde 25 palmeiras constituem o único local silvestre produtivo no Egito, a desertificação fez estragos. “Havia 34 palmeiras Medemia argun ali quando comecei a estudar a espécie, em 2000, e perdemos nove delas nos últimos dez anos”, disse Haitham. “Essas nove eram arbustos que não puderam sobreviver. Suas raízes nunca encontraram água”, explicou. Uma ameaça mais insidiosa é o constante aumento da atividade humana no pequeno oásis, 220 quilômetros a sudoeste de Asuan.

Durante uma visita, há dois anos, Haitham descobriu que um incêndio arrasara a vegetação no extremo oriente do oásis. O fogo, supostamente iniciado por caçadores imprudentes, chegou a um quilômetro do grupo de palmeiras, entre as quais figuravam as únicas duas que davam frutos no país. Todas estas árvores “crescem em uma área com menos de cem metros quadrados. Um incêndio bastaria para destruir todas elas”, explicou Haitham.

A Agência Egípcia de Assuntos estuda uma proposta para incluir a principal população de Medemia argun em uma área natural protegida. Se for aceita, esse regime incluirá entre seis mil e oito mil quilômetros quadrados, acompanhando o Oásis Dungul e também o de Kurkur, que fica próximo. Este afastado e desabitado setor do deserto é um refúgio para a ameaçada palmeira, bem como para várias espécies de animais em perigo, entre eles gazelas-dorcas, avestruzes e, possivelmente, pequenas manadas de íbices de Nubia.

Mahmoud Hasseb, diretor da Protetorados da Área Sul na Agência, disse que a decisão de conseguir o status de área protegida ganhou força pelo aumento de atividades humanas em um ecossistema vulnerável. “Por vários anos, vemos evidências de que turistas e caçadores visitam a área. Quando a visitamos, em 2009, coletamos ossos de gazelas mortas e descobrimos que foram incendiadas dezenas de palmeiras. Ficou claro que este ecossistema estava em risco”, disse à IPS.

Também há um esforço no sentido de conservar a palmeira por meio de programa de viveiros criado em 2003. Pesquisadores ambientais da South Valley University cultivaram com sucesso 21 exemplares jovens no horto de conservação da universidade, perto de Asuan. Espera-se que estas árvores se reproduzam e que a nova geração de palmeiras possa ser levada aos vários locais desérticos onde historicamente cresceu a Medemia argun. “Quando os arbustos estiverem suficientemente fortes, tentaremos reintroduzi-los” em seu hábitat, disse Haitham. Envolverde/IPS

Cam McGrath

Cam McGrath is a Cairo-based correspondent. He joined IPS in 2001 and reports on politics, human rights and environmental issues in Egypt and the Arab world.

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