Bamako, Mali,, 26/01/2011 – Agricultores de Mali realizam um boicote contra o algodão, plantando cereais em seu lugar. Porém, analistas alertam que a mudança pode enfraquecer a segurança alimentar deste país africano. Desanimados pelos cada vez menores preços do produto e da má administração da estatal Companhia Têxtil de Mali (CDMT), muitos camponeses malineses reduzem as áreas destinadas ao algodão em suas terras, ou abandonam por completo seu cultivo.
Na aldeia de Sanakoroba, a 30 quilômetros da capital do país, Bamako, o presidente da associação local de agricultores, Abdoulaye Sériba Traoré, é um dos poucos que ainda cultivam algodão. “Boicotam o algodão porque não recebem seu dinheiro em tempo, e só recebi o pagamento pela minha colheita de 2009 no final de 2010. Fiquei muito desiludido, a ponto de não querer plantar em minhas terras”, disse à IPS.
A CDMT compra grande parte do algodão sem refinar dos camponeses, mas sistematicamente demora em lhes pagar. Entretanto, Abdoulaye segue adiante. “Naturalmente, devido às dificuldades para a venda, tive de reduzir o espaço dedicado ao algodão”, afirmou. Este é um importante produto para os agricultores da região de 130 mil quilômetros quadrados, que vai do sul do Rio Níger até o oeste do país. Cerca de um quarto da população malinesa vive nessa região.
Os camponeses plantam algodão junto com milho, sorgo e arroz, bem como amendoim e feijão preto, conhecidos localmente como “niébé”. Agricultores dizem que plantar algodão os ajuda a aumentar sua produção de outros cultivos. “Plantar algodão enriquece o solo, porque quando é cultivado, podem ser obtidos créditos para fertilizantes e outros insumos agrícolas. Graças à rotação de cultivos, os cereais também se beneficiam”, explicou Sail Samaké, agricultor da aldeia de Djitoumou Tamala.
Os bancos não estão interessados em conceder empréstimos para o plantio de cereais. Tudo isto vincula a alimentação à produção de um cultivo não comestível, o algodão. Os preços do produto entre 2003 e 2006 foram bons para os agricultores, e as colheitas aumentaram. Além disso, cerca de 1,4 milhão de toneladas de cereais foram colhidas na região.
Os ganhos pelo algodão também permitiram o gradual acúmulo de animais por parte dos camponeses da região, que agora possuem um total de 2,2 milhões de cabeças de gado. Contudo, quando os preços começaram a cair – devido aos subsídios dos Estados Unidos aos seus produtores, segundo o analista Mohamed Tabouré –, Mali começou a sofrer uma queda na produção interna.
A produção nacional de algodão caiu drasticamente, de 620 mil toneladas em 2003-2004, para 200 mil toneladas na temporada encerrada em 2009. “Devemos ter presente que a redução da produção está ligada tanto à queda do valor do dólar em relação ao euro como à do franco CFA (moeda comum em 14 países africanos) e ao crescente fenômeno da degradação do solo e à perda de fertilidade”, disse Mohamed à IPS.
Como os agricultores resistem em plantar algodão, suas fontes de crédito são limitadas e, portanto, a segurança alimentar está em risco. Para evitar isto, o governo de Mali introduziu subsídios para os insumos agrícolas. O preço do algodão se recuperou no ano passado. Se continuar a tendência, os agricultores poderão sentir-se estimulados a voltar ao seu cultivo. Uma melhor administração da CDMT seria vital para que o país recupere o nível de produção que teve na primeira parte da década passada e fortaleceria, assim, a segurança alimentar. Envolverde/IPS

