Quando os ratos ganham a batalha

Bangcoc, Tailândia, 26/01/2011 – Inundações e secas ocuparam as manchetes dos meios de comunicação na hora de explicar a devastação da produção mundial de arroz. Entretanto, outros culpados menos conhecidos conseguiram escapar inadvertidamente: os ratos. Estes roedores devoram “milhões de toneladas de arroz por ano” nas perdas prévias à colheita em toda a Ásia. “Os ratos são a peste arrozeira número um na época que antecede a colheita na Indonésia, e a terceira mais importante no Vietnã’, disse à IPS o especialista em roedores Grant Singleton, do Instituto Internacional de Pesquisas sobre o Arroz (Irri), com sede em Manila.

Com o objetivo de salvar mais arroz para os famintos da região, os pesquisadores internacionais capacitam agricultores na Indonésia, no Vietnã e nas Filipinas para combater este habitual destruidor de grão. Especialistas agrícolas consideram que a mensagem sobre fazer um manejo ecológico destes animais é uma alternativa eficiente e segura para o uso que anteriormente se vazia dos venenos. A ideia ganha força nas pequenas propriedades dedicadas ao cultivo de arroz.

“Esta é a primeira vez que é promovido um manejo ecológico dos roedores desde a introdução de produtos químicos para matá-los nos anos 1950”, disse Grant. “Agora, sabemos bem quando, onde e como realizar o controle das principais espécies de roedores em dois dos maiores produtores de arroz da região”, acrescentou. Cerca de 200 mil produtores de arroz da Indonésia e do Vietnã participam de uma campanha para armar os agricultores com métodos amigáveis com o meio ambiente que permita proteger seus cultivos dos ratos.

Segundo o Irri, as perdas de cultivos deste alimento básico na Ásia oscilam entre 5% na Malásia e 17% na Indonésia. Uma perda de 6% na Ásia “equivale a arroz suficiente para alimentar 225 milhões de pessoas – quase a população da Indonésia – por 12 meses”, afirma o Instituto. A campanha para combater os roedores acontece devido ao desafio que enfrentam os centros de pesquisa agrícola da região de produzir arroz suficiente para alimentar quase 570 milhões de desnutridos da região Ásia-Pacífico. A Ásia produz 90% do arroz do mundo, que chegou a 679,9 milhões de toneladas ao ano em grão sem processar, segundo a Organização das Nações Unidas. Os principais produtores da região, onde há 250 estabelecimentos dedicados a este cultivo – são China, Índia, Indonésia, Paquistão, Bangladesh, Vietnã, Tailândia, Filipinas e Birmânia.

O novo esforço liderado pelo Irri dá mais ênfase na cooperação e no manejo comunitário, o que inclui a simples mensagem de que os produtores plantem com diferença de duas semanas. Já está recebendo elogios de agricultores que seguiram esta solução verde. “Agora sei como lidar melhor com os ratos, trabalhando com minha comunidade para que haja menos em nossos cultivos e para que seja menor o dano que causarem”, disse o produtor filipino Esmeraldo Joson Jr., após deixar de lado os venenos para roedores, em um comunicado de imprensa do Irri.

Esta é a única tentativa na região de impedir que os ratos privem a população deste componente básico de sua dieta. A Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO) ajuda as comunidades agrícolas de Timor Leste e Camboja a salvarem suas colheitas de arroz guardando-o em pequenos silos de metal, considerados os mais confiáveis e à prova de roedores do que as tradicionais cestas e recipientes de barro que os agricultores usaram deste tempos ancestrais.

“Estas são pequenas armas contra as perdas posteriores à colheita”, disse Rosa Rolle, do escritório da FAO para a região Ásia-Pacífico. “Oferecem soluções de longo prazo e barata para proteger o arroz contra os ratos”, acrescentou. Os esforços para combater as perdas de grãos para os roedores ganharam força após a crise mundial de alimentos em 2008, quando os preços do arroz dispararam em níveis alarmantes e geraram preocupação diante dos milhões de afetados pelas perdas deste alimento básico.

Outra tentativa surgiu do temor diante da fome, que se propagou por parte da Índia, Bangladesh, Birmânia e Laos desde o final de 2006, quando uma praga de ratos devastou os arrozais e os grãos armazenados. “Os ratos foram terríveis. Os agricultores nada puderam fazer”, disse Cheery Zahau, ativista pelos direitos humanos pertencente à minoria birmanesa chin, que entre final de 2006 e 2008 sofreu as piores consequências dessa devastação.

As famílias chin normalmente fazem duas refeições diárias, mas durante a explosão da população de roedores passaram a fazer apenas uma, disse Cheery à IPS. “As consequências dessa crise alimentar foram muito sérias”, acrescentou. Já havia a previsão de que esse aumento da população de ratos ocorreria a cada cerca de 50 anos, quando uma espécie local de bambu começasse a florescer. Seus frutos ricos em proteínas atraem os ratos, que depois se multiplicam rapidamente devido às mudanças hormonais que sua ingestão provoca.

Os ratos arrasaram com todo grão que encontraram pela frente, o que levou alguns agricultores do montanhoso Estado de Chin, perto da Índia e de Bangladesh, a deixar de cultivar arroz em 2008. “Viram que era inútil. Os ratos venceram”, disse Cheery. Envolverde/IPS

Marwaan Macan-Markar

Marwaan Macan-Markar is a Sri Lankan journalist who covered the South Asian nation's ethnic conflict for local newspapers before joining IPS in 1999. He was first posted as a correspondent at the agency's world desk in Mexico City and has since been based in Bangkok, covering Southeast Asia. He has reported from over 15 countries, writing from the frontlines of insurgencies, political upheavals, human rights violations, peace talks, natural disasters, climate change, economic development, new diseases such as bird flu and emerging trends in Islam, among other current issues.

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