PESCA-ZIMBÁBUE: Salvem as kapentas

Binga, Zimbábue, 14/01/2011 – “Os peixes estão desaparecendo”, disse o zimbabuense Tjilo Tjilo, de 67 anos, que vive no povoado de Binga, às margens do Rio Zambezi.

Peixes capturados no Rio Zambezi são colocados para secar. - Elizabeth Clear/Flickr

Peixes capturados no Rio Zambezi são colocados para secar. - Elizabeth Clear/Flickr

Passou sua vida pescando espécies como pargo e sardinhas de água doce, conhecidas localmente como peixes kapenta, que agora escasseiam. Secos ou defumados, os kapentas são uma fonte importante e barata de proteínas na região.

Ao pôr do sol, Tjilo une-se a um grupo de homens, que conheceu há décadas perto da costa, para realizar um trabalho noturno: pescar kapentas com a ajuda de uma lanterna, que atrai cardumes para a superfície, onde são capturados com uma grande rede. “Os peixes estão desaparecendo”, repete, preparando o papel para fazer um cigarro. O faz em parte por prazer e em parte para se proteger dos mosquitos. “Embora ao longo dos anos tenhamos embarcado na criação de peixes como parte de nossos esforços para sobrevivermos apesar da pesca excessiva, os estrangeiros entram em nossas águas e estamos preocupados com nosso futuro”, disse Tjilo.

O Zambezi flui através de seis países em seu caminho desde águas zambianas até o Oceano Índico, em Moçambique. Binga fica na costa sudoeste do imenso Lago Kariba, que é artificial e foi criado em 1959, quando se instalou uma represa no rio. A aldeia foi construída para reassentar os tongas, cujas terras ficaram submersas pelo reservatório do Kariba.

Os estrangeiros de que fala Tjilo e seus colegas são pescadores do lado zambiano do Lago. Os homens de Binga dizem que estes buscam kapentas em particular nas águas do Zimbábue e usando potentes embarcações. Já existe um mercado para esta variedade nos povoados em torno do Lago e cidades tão distantes como Bulawayo. A pesca de kapentas é uma importante fonte de emprego nos dois lados da fronteira.

A regulamentação da frota pesqueira é um problema. Johann Jordan, diretor da empresa zambiana de pesca comercial Maaze Holdings, foi um dos que deram o alarme em 2010. Johann disse ao jornal Lusaka Times que as autoridades de Zâmbia emitiram mais de 700 licenças, mas que acreditava que pelo menos mil embarcações pescavam no Lago. “Na indústria dos kapentas não há controles, se pesca nas áreas de reprodução e não há nada que detenha os roubos”, acrescentou.

Em Binga, os pescadores dizem que criam kapenta, pargo e peixe-tigre há muitos anos para estimular as existências destas variedades. Seus esforços receberão um impulso este ano, depois que o Programa sobre o Homem e a Biosfera da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) declarar reserva o lado zimbabuense do Vale do Zambezi. Este programa busca apoiar o manejo sustentável dos recursos terrestres, costeiros, marinhos e de água doce, com a ativa participação das comunidades locais.

“Sempre tentamos fazer algo para não destruir nossos próprios meios de sustento, mas é importante fazer outras pessoas se darem conta de que precisamos trabalhar juntos para salvar os peixes, porque teremos ajuda de quem sabe do que fala”, disse o pescador Justin Modhlari, que trabalha junto com Tjilo em sua cooperativa de seis membros.

“O manejo da pesca deveria ser complementado com o desenvolvimento de uma indústria pesqueira sustentável e moderna, mas baseada na comunidade, o que incluiria captura, criação, coleta, processamento, preservação, armazenamento e comercialização de produtos pesqueiros”, diz o pesquisador Sobona Mtisi, do Programa de Políticas Hídricas, do britânico Instituto de Desenvolvimento de Ultramar. Em lugar de dependerem unicamente da pesca, os pescadores locais podem participar de vários aspectos do turismo relacionado com a água na bacia do Zambezi.

Esta bacia constitui uma reserva de biodiversidade. Além de melhorar seu manejo das existências de kapentas, comunidades como a de Binga tentarão desenvolver a pesca recreativa e as trilhas pelo entorno natural. Também há potencial – caso possa ser construída infraestrutura de irrigação – para promover a agricultura como parte de um meio de sustento combinado para pessoas como Tjilo, que agora dependem exclusivamente da pesca para viver. Envolverde/IPS

Ignatius Banda

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