Washington, Estados Unidos, 27/01/2011 – A divulgação de atas da Autoridade Nacional Palestina (ANP) registradas ao longo de uma década de negociações de paz com Israel pode desferir um golpe letal na credibilidade dos Estados Unidos no processo de paz do Oriente Médio, segundo especialistas de Washington. Trata-se de uma pesquisa feita pela rede de televisão Al Jazeera e também divulgada pelo jornal britânico The Guardian. Sua publicação começou no domingo e terminou ontem.
Ao revelar as enormes concessões que a ANP estava disposta a fazer em troca de um Estado independente, os mais de 1.600 documentos agora divulgados provavelmente prejudiquem mais a já enfraquecida imagem do presidente Mahmoud Abbas perante os próprios palestinos.
“É provável que isto represente um golpe mortal a um processo de paz liderado pelos Estados Unidos, que já respirava artificialmente, e acelere o fim da ANP, criada pelos acordos de Oslo em 1993”, escreveu Nadia Hijab, do Instituto para os Estudos Palestinos em Washington, na edição de segunda-feira do Financial Times. “É uma casca cada vez mais frágil, que logo poderá desaparecer com um sopro. Os ventos chegam desde Tunis”, continuou, em referência à derrubada, este mês, do presidente Zine El Abidine Bem Ali, que estava no poder desde 1987. “A Palestina pode ser a próxima”, acrescentou.
Embora os funcionários norte-americanos tenham afirmado que não pensavam que estivesse por colapsar a ANP, admitiram que o vazamento maciço marca um sério retrocesso para o cumprimento de seu objetivo de fazer Abbas e o primeiro-ministro de Israel, Benajamin Netanyahu, reiniciarem as negociações diretas. A ANP tentou semear dúvidas sobre a autenticidade dos documentos.
Os altos funcionários dos Estados Unidos também se preocupam com a possibilidade de as revelações tornarem mais difícil Washington persuadir Abbas e a Organização para a Libertação da Palestina (OLP) de retirar ou emendar uma resolução pendente no Conselho de Segurança da ONU que condena os assentamentos israelenses na Cisjordânia e em Jerusalém oriental, dizendo que violam as Convenções de Genebra.
O governo do presidente Barack Obama insinuou que vetará a resolução apesar de seu conteúdo ser consistente com as políticas da Casa Branca e com sua última posição oficialmente declarada sobre a ilegalidade das colônias. Os patrocinadores da resolução esperam que esta seja apresenta no Conselho de Segurança pouco depois de uma reunião que no dia 6 será mantida pelo quarteto para o Oriente Médio, integrado por Estados Unidos, União Europeia, Rússia e ONU.
“Depois das revelações, temo que Abbas não tenha outra opção a não ser adotar uma linha dura para preservar seu apoio interno. Ele não pode ficar atrás nisto, embora queira”, disse à IPS um funcionário do governo que pediu para não ser identificado.
Os documentos palestinos, divulgados em meio às contínuas repercussões do vazamento do site Wikileaks, indicam, entre outras coisas, que a ANP estava disposta a permitir a Israel anexar praticamente todos os assentamentos judeus criados em Jerusalém oriental desde a guerra de 1967. Um documento cita o negociador palestino Saeb Erekat dizendo que seu povo está preparado para dar a Israel “a maior Ierushalaim da história judia”. Ierushalaim é a palavra hebreia que designa Jerusalém.
Esse texto também detalha uma suposta proposta palestina para criar um comitê conjunto com Israel para assumir a custodia de Haram al-Sharif, um dos locais sagrados do Islã, localizado na parte antiga de Jerusalém. Trata-se de uma concessão que o então presidente da ANP, Yasser Arafat (1994-2004), rechaçou durante as infrutuosas conversações de paz de 2000 em Camp David.
Os documentos divulgados também sugerem que a ANP está disposta a abandonar suas reclamações sobre os principais assentamentos israelenses na Cisjordânia e, inclusive, aceitar um desigual acordo de transferência de terras com Israel. Além disso, assinala-se que diante das reticências quanto às reclamações israelenses sobre duas colônias-chave (Ma’ale Adumim e Ariel) em troca de terras, a ex-secretária de Estado norte-americana Condoleezza Rice alertou os negociadores palestinos: “Vocês não terão um Estado”.
Embora os documentos cubram o período de Camp David até próximo do atual impasse em torno dos esforços dos Estados Unidos para convencer os palestinos a reiniciarem as conversações diretas sem exigir um congelamento das atividades dos assentamentos judeus, muitos se concentram no último ano do governo de Geroge W. Bush (2001-2009), quando Abbas estava diretamente comprometido com o então primeiro-ministro israelense Ehud Olmert (2006-2009).
Também sugerem que os palestinos estavam muito mais inclinados a transigir do que os israelenses, e que Washington – seja nos governo de Clinton, Bush ou Obama – pressionam invariavelmente os palestinos de maneira mais dura do que o fazem com os israelenses.
“Os documentos mostram que o inquestionável apoio dos Estados Unidos a Israel, principalmente, deu confiança aos israelenses para que continuassem esperando e recebendo ainda mais concessões dos palestinos, ao mesmo tempo os absolvendo de toda pressão real para fazer um acordo de fato”, disse Mathew Duss, especialista em Oriente Médio do Center for American Progress. Para ele, a divulgação das atas palestinas expôs a última década de esforços como “pouco mais que um processo de rendição”.
Americans for Peace Now e J Street, duas organizações pacifistas judeu-norte-americanas, aplaudiram na segunda-feira a divulgação destes documentos, considerando-os uma nova evidência de que, contrariamente ao que afirma Israel, os palestinos estão mais dispostos a fazer a paz. Envolverde/IPS

