Pequim, China, 06/01/2011 – Apesar de as autoridades chinesas se manifestarem satisfeitas cm sua ofensiva para erradicar a prostituição, o comércio sexual continua em franco crescimento, sem que as mulheres tenham acesso a serviços de saúde ou não caiam nas redes do crime organizado. O Ministério da Segurança Pública lançou a campanha “Golpe Duro” em junho, após realizar com sucesso blitze em clubes de Pequim e outras cidades.
Nessas ocasiões, deteve 557 mulheres e suspendeu a atividade de quatro clubes durante seis meses. Trata-se da sanção mais severa imposta na China para o serviço de acompanhantes sexuais, informou o Ministério. Em maio, a polícia de Dongguan, conhecida por ser uma área onde há grande trabalho sexual, investigou 30 centros de lazer e deteve 1.100 suspeitos. No dia 8 de julho, as autoridades de Chengdu, capital da província de Sichuan, investigaram 97 clubes e detiveram 279 suspeitos.
A campanha nacional tomou como objetivo 26 cidades ao longo de seis meses. Em uma só noite de julho, dez equipes de controle prenderam 370 suspeitos em oito cidades de seis províncias, entre eles Jilin (nordeste), Xangai (leste) e Hainan (sul). O Ministério informou, em outubro, que os casos penais envolvendo trabalhos sexuais caíram 18,4% ao ano. E o Pequim Morning Post noticiou, em novembro, que nos seis meses anteriores 30% das trabalhadoras sexuais abandonaram a prostituição.
No entanto, especialistas afirmam que, apesar de maior em escala e mais efetiva do que as anteriores, a campanha aborda apenas superficialmente a vasta prostituição informal que há no país. Afirmam que o governo precisa combinar blitze contra casas de banhos e clubes de karaokê – conhecidos na China por serem locais de prostituição – com melhor educação e capacitação profissional para as mulheres pobres que ali trabalham. Inclusive, alguns sugerem que o governo legalize distritos de prostíbulos em uma tentativa de controlar uma indústria que emprega milhões de mulheres jovens.
“A prostituição tem um grande mercado na China”, disse Sun Wenguang, professor do Instituto de Administração de Empresas da Universidade de Shandong, que investiga o trabalho sexual no país. Sun afirmou que a prostituição na China tem suas raízes em dois fatores principais, a pobreza e a demanda. A vasta maioria das trabalhadoras é de jovens das áreas rurais, com escassa educação e que têm dificuldade para encontrar trabalho decente. A demanda principal é por trabalhadoras migrantes, que passam meses e anos separadas de suas famílias, trabalhando longas jornadas em péssimas condições.
Segundo Sun, o governo lança campanhas quase todos os anos, mas estas são apenas “cosméticas”, para demonstrar que cuida do tema. As blitze “não abordam os problemas práticos. O governo não conhece as causas básicas deste problema. Nunca prevê o que podem fazer as prostitutas para ganhar a vida após deixarem seus trabalhos”, acrescentou. Embora existam algumas organizações não governamentais que trabalham com prostitutas, recebem pouco apoio financeiro e político, afirmou Sun.
Qiao Xinsheng, diretor do Centro para as Pesquisas sobre Desenvolvimento Social da Universidade de Zhongnan, disse que os governos locais corruptos, profundamente ligados ao crime organizado, agem, às vezes, como “escudos” para a indústria da prostituição. “Os funcionários se aproveitam de seus poderes para conseguir benefícios pessoais”, explicou à IPS.
O Ministério da Segurança Pública afirmou, em documento divulgado no mês passado, que as blitze mais recentes também tiveram por alvo os que protegem o comércio sexual, entre eles funcionários de governos locais. Segundo Qiao, a única maneira de lidar efetivamente com o trabalho sexual na China é legalizar e controlar os distritos onde se exerce a prostituição.
A maioria das autoridades locais percebeu que esta atividade é tão dominante que muitos já mudaram seu objetivo para tentar conter a propagação de doenças sexualmente transmissíveis, em lugar de buscar erradicar a prostituição. Muitos especialistas coincidem em afirmar que a legalização é a melhor solução, embora poucos acreditem que o governo siga este caminho. “Sempre haverá demanda por sexo fora do casamento. Para minimizar o surgimento de doenças sexualmente transmissíveis e crimes ligados ao sexo, penso que é melhor legalizar a prostituição”, disse Sun à IPS.
Em uma entrevista ao Global People Magazine, Li Yinhe, socióloga e feminista, disse que as ofensivas tradicionais fazem com que as mulheres pratiquem a prostituição de uma maneira ainda mais informal, normalmente sob controle das redes do crime organizado. Segundo ela, o governo deveria abrir “escolas de mulheres”, onde as trabalhadoras sexuais pudessem aprender diferentes habilidades enquanto a atividade é legalizada. “Deveríamos mudar nossas atitudes. Não podemos apenas tomar medidas enérgicas contra elas. Deveríamos ajudá-las”, disse Li à revista. Envolverde/IPS

