Washington, Estados Unidos, 26/01/2011 – Aproximadamente 40 ex-diplomatas norte-americanos e analistas políticos pedem a Barack Obama que não vete uma proposta de resolução para o Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) que, esperam, reafirme a ilegalidade dos assentamentos israelenses nos territórios palestinos ocupados. Em carta divulgada no dia 15, em Washington, ex-embaixadores dos Estados Unidos em Israel, bem como políticos que outrora se dedicaram a temas do Oriente Médio, alertaram que a “credibilidade dos Estados Unidos” na região estará em jogo quando a resolução for apresentada para votação, provavelmente no próximo mês.
“Nesta conjuntura crítica, a maneira como os Estados Unidos votarem sobre uma resolução a respeito dos assentamentos terá um efeito definitivo sobre nossa posição como mediadores na paz do Oriente Médio”, diz a carta, assinada, entre outros, pelo ex-embaixador na ONU Thomas Pickering e o ex-secretário da Defesa Frank Carlucci. “Contudo, o impacto desta votação será muito mais sentido além da arena dos acordos israelense-palestinos. Estão em jogo nossa seriedade como fiadores do direito internacional e a legitimidade internacional”, prossegue a carta.
“Está em risco a credibilidade dos Estados Unidos em uma região crucial do mundo, onde foram empregados centenas de milhares de nossos efetivos e onde enfrentamos as maiores ameaças e desafios à nossa segurança. esta é uma votação de interesse para a segurança nacional norte-americana por excelência. Pedimos que faça o correto”, conclui o texto.
A carta, assinada tanto por integrantes de governos democratas quanto republicanos, além de ex-funcionários de carreira do serviço exterior e de inteligência, é divulgada em meio ao que parece ser um caos entre as atuais políticas norte-americanas para o Oriente Médio e, após o colapso, no mês passado, de seus esforços para persuadir Israel a acordar uma moratória parcial de três meses para as atividades nas colônias da Cisjordânia.
O governo esperava que Israel concordasse – em troca de milhares de milhões de dólares em novos aviões de guerra, várias garantias de segurança e o compromisso de vetar toda resolução do Conselho de Segurança que criticasse o Estado judeu no correr do ano – e isso poderia ajudar a convencer o presidente da Autoridade Nacional Palestina (ANP), Mahmoud Abbas, a retomar as negociações de paz diretas interrompidas em setembro, quando expirou uma moratória parcial, de dez meses, para os assentamentos.
A construção de colônias na Cisjordânia e a demolição de propriedades palestinas em Jerusalém oriental aumentaram muito desde então, segundo a ONU e observadores ativistas pelos direitos humanos israelenses e palestinos. Abbas negou-se a retomar as conversações diretas, a menos que Israel congele toda atividade nos assentamentos nos territórios ocupados, entre eles Jerusalém oriental. No ano passado, o governo de Obama fez uma reclamação semelhante ao primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, mas foi rejeitada no que muitos analistas consideram um importante golpe na credibilidade de Washington em toda a região.
Enquanto o enviado especial de Obama para o Oriente Médio, George Mitchell, se esforça para manter vivas as conversações de proximidade entre as duas partes, os palestinos e seus aliados fazem circular um rascunho de resolução do Conselho de Segurança condenando os assentamentos, apontando-os como ilegais sob o direito internacional e como um obstáculo para a paz. A resolução é parte de um esforço diplomático maior, que também inclui conseguir o reconhecimento internacional formal a um Estado palestino nos territórios localizados dentro das fronteiras de 1967. Esse esforço conseguiu alguns êxitos significativos nas últimas semanas, quando vários Estados latino-americanos – entre eles Brasil e Argentina – anunciaram que reconheceriam um Estado palestino, enquanto membros importantes da União Europeia incrementaram suas relações diplomáticas com a ANP ou consideram fazê-lo.
O governo assinalou sua oposição a essas medidas, mas permitiu que a Organização para a Libertação da Palestina (OLP) hasteasse pela primeira vez a bandeira Palestina na parte externa de seu escritório em Washington. Porém, mesmo essa medida gerou duras críticas do chamado “lobby israelense” nos Estados Unidos e de seus partidários no Congresso, especialmente da nova presidente republicana do Comitê de Assuntos Exteriores da Câmara de Representantes, Ileana Ros-Lehtinen. “Hastear a bandeira no distrito de Columbia é parte do plano da direção Palestina para manipular a aceitação internacional e o reconhecimento diplomático de um Estado palestino a ser criado, negando-se, ao mesmo tempo, a negociar diretamente com Israel ou aceitar a existência de Israel como Estado judeu e democrático”, queixou-se Ileana.
O principal contribuinte da campanha de Ileana, Irving Moskowitz, financia muitos assentamentos na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental. A legisladora também condenou a resolução proposta pela ANP como “parte da mesma dirigida a obter concessões sem que se exija o cumprimento de compromissos internacionais”. Quanto a essa resolução, o governo de Obama parece estar entre a espada e a parede. Por um lado, tem a nova maioria republicana e pró-Likud na Câmara de Representantes, além da maioria dos legisladores democratas, temerosos de enfrentar o lobby israelense. E, por outro, cresce o apoio internacional – que também é dado por seus principais aliados europeus – à criação de um Estado palestino, bem como a própria credibilidade de Washington como mediador de boa fé no conflito entre Israel e Palestina.
No contexto do IV Quarto Convênio de Genebra, muitas nações consideram ilegais os assentamentos israelenses nos territórios conquistados na guerra de 1967. Embora o governo Obama mantenha a política de seus antecessores, evitando declarar-se abertamente contra os assentamentos, em discurso feito em junho de 2009 no Cairo, o presidente disse que não aceitaria a “legitimidade” das contínuas atividades dos colonos israelenses.
O fato de o governo incomodar-se por ser interrogado diretamente sobre a legalidade das colônias ficou evidente no dia 18, quando jornalistas crivaram de perguntas o porta-voz do Departamento de Estado, Philip J. Crowley, para saber se os Estados Unidos vetariam a resolução. “Nossa posição sobre os assentamentos é bem conhecida”, insistiu, mas disse que o governo se opõe a levar a resolução ao Conselho de Segurança e que “esses assuntos deveriam ser resolvidos por negociações diretas”.
Mas a carta, originalmente publicada por Steve Clemons, da New America Foundation, em seu site thewashingtonnote.com, enfatiza que o governo deveria deixar de rodeios sobre o assunto. “Usar o veto prejudicaria severamente a credibilidade e os interesses dos Estados Unidos, situando-os firmemente fora do consenso internacional e reduzindo ainda mais nossa capacidade de mediar este conflito”, afirma. Envolverde/IPS

