O olhar de toda África se volta para a Costa do Marfim

Washington, Estados Unidos, 26/01/2011 – Faltando menos de dez dias para o vencimento do prazo de dois meses para uma solução negociada da crise política na Costa do Marfim, cresce a pressão para evitar que esse país crie um mau precedente para o resto da África. “Se a Costa do Marfim não a resolver de forma adequada, então os democratas em todo o continente africano poderão ir para casa”, disse Christopher Fomunyoh, do Centro para Estudos Estratégicos Internacionais, durante um painel de discussão no dia 14, que incluiu um contato telefônico com o presidente eleito marfinense, Alassane Ouattara.

Christopher, também ligado ao Instituto Nacional Democrático, disse que se o presidente em função, Laurent Gbagbo, insistir em desconhecer os resultados das últimas eleições, criará um mau precedente para o resto do continente, que realiza cerca de 17 eleições por ano. “Os votos dos cidadãos devem valer depois de emitidos. De outra forma, a democracia não se manterá no continente”, alertou, por sua vez, o presidente nigeriano, Goodluck Jonathan, atual líder da Comunidade Econômica de Estados da África Ocidental (Ecowas).

Enquanto isso, notícias da rede pan-árabe Al Jazeera indicavam que os esforços da União Africana para mediar a situação eram barrados pela negativa de Gbagbo de levantar o bloqueio contra o Golf Hotel, onde Ouattara tem sua base de operações. O hotel é protegido por forças de paz da Organização das Nações Unidas (ONU), que nos últimos dias foram atacadas por partidários do atual presidente.

Gbagbo, no poder desde 2000, retém o controle de instituições-chave, incluindo os meios de comunicação oficiais, as empresas estatais de petróleo e cacau, a administração pública (140 mil funcionários) e as Forças Armadas (60 mil homens). Ouattara disse no painel de discussão da semana passada que Gbagbo deve ser removido do cargo por meios militares.

“Chegamos a um ponto em que, creio seriamente, a força deve ser usada para retirar Gbagbo. Sou um homem de paz, mas já se passaram seis semanas. O número de pessoas mortas é inaceitável”, afirmou o presidente eleito em seu primeiro discurso desde as eleições de 31 de outubro. Autoridades de defesa da Ecowas se reuniram em Mali no dia 18, em parte para discutir uma opção militar na Costa do Marfim.

Embora a maior parte da comunidade internacional – incluindo ONU, União Africana, Ecowas e União Europeia (UE) – considere Ouattara o legítimo ganhador das eleições em 2010, não se chegou a um consenso sobre a alternativa de tirar Gbagbo do poder pela força. “Não mudamos a postura que tomamos em nossa última cúpula”, disse Goodluck no dia 14, em referência ao último encontro da Ecowas, onde foi examinada a opção militar.

John Atta Mills, presidente de Gana e membro do grupo, se manifestou contra a intervenção e disse que se negaria a colaborar com tropas em uma eventual operação da Ecowas. O grupo de embaixadores africanos na ONU também emitiu um comunicado esta semana denunciando a alternativa militar como uma “não opção”.

Observadores esperam que o uso da força seja o último recurso, enquanto ganha força a ideia de sanções contra Gbagbo e seus seguidores por parte dos Estados Unidos, da UE e da ONU. Mas Ouattara disse ser contra sanções econômicas porque prejudicariam o povo marfinense, e afirmou que considerava outras opções para pressionar seu oponente. “Por exemplo, em nível interno, buscamos a possibilidade de realizar greves no setor de transporte, de petróleo e em outras áreas”, disse.

Embora o Conselho Constitucional da Costa do Marfim tenha anulado os resultados das eleições no começo do mês passado devido a irregularidades em distritos do norte, o enviado da ONU ao país, Choi Young-jin, os aprovou. As Nações Unidas foram questionadas por seu processo de certificação. A Rússia usou seu poder de veto para deter uma resolução do Conselho de Segurança que proclamava Ouattara o vencedor. Envolverde/IPS

Aprille Muscara

Aprille Muscara is based in Washington, D.C. and is IPS’s online content and community manager. Prior to this position, she was the deputy bureau chief in Washington, D.C., covering global issues and United States foreign policy. She joined IPS in 2010 as a United Nations correspondent in New York covering the U.N. Security Council, international development and human rights. She is also co-coordinator of IPS’s North America intern programme. Aprille’s work has been published by IPS, Al Jazeera English, Truthout, Reuters AlertNet, Asia Times, Lobelog.com and The Electronic Intifida, among other outlets and translated into multiple languages worldwide.

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