Depois da chuva, a carestia

Bogotá, Colômbia, 26/01/2011 – O preço dos alimentos aumentará na Colômbia pelo efeito combinado do alto valor nos mercados internacionais e da perda de cultivos após nove meses de devastadoras chuvas. O governo estima que em fevereiro o aumento será de 3%, enquanto os analistas privados duplicam esta previsão. “A crise mundial nos afeta muito mais do que a inundação de plantações porque o país compra 100% do consumo de cevada, lentinha, ervilha seca e grão-de-bico, 95% do trigo, 90% da soja e do sorgo, bem como 75% de milho, entre outros produtos”, disse à IPS o economista Aurelio Suárez, das não governamentais Unidade Cafeeira e Salvação Agropecuária.

Aurelio afirmou que a última temporada de chuvas, de abril a dezembro, inundou cerca de 300 mil hectares dos cinco milhões cultivados na Colômbia. Mas o Ministério de Agricultura e Desenvolvimento Rural eleva para 800 mil hectares afetados e afirma que a recuperação da terra será lenta. “A inflação dos alimentos se deve à importação muito cara”, garantiu. “Contudo, governo e sindicatos patronais tentam manipular a informação, atribuindo às chuvas a falida política de segurança e soberania alimentar”, acrescentou o economista.

A referência é a chamada Revolução Verde, que introduziu padrões de empresas multinacionais em meados do Século 20 na produção agropecuária. A isso se somou, segundo os críticos do sistema, a abertura econômica dos anos 1990, que afetou a produção local para dar lugar a extensas plantações destinadas à produção de agrocombustíveis. “Na agricultura colombiana, a produção de alimentos de consumo básico é cada vez menor, como maiores são os cultivos de palma, cana-de-açúcar e os florestais”, afirmou Aurelio.

Entre 2002 e 2009, quando o direitista Álvaro Uribe estava no governo, a Colômbia aumentou as importações de alimentos de seis milhões de toneladas para dez milhões. Ao mesmo tempo ocorreram os escândalos pelo desvio de fundos destinados à assistência de camponeses mais vulneráveis. Há denúncias de que foram concedidos empréstimos e subsídios a grandes latifundiários e a pessoas alheias ao setor agrícola, por meio do programa Agroingresso Seguro, liderado pelo então ministro da Agricultura, Andrés Felipe Arias.

Entre os principais críticos da atuação de Arias no contexto do escândalo de corrupção é Juan Camilo Restrepo, ministro de Agricultura e Desenvolvimento Rural desde agosto. Juan Camilo, que expressou as melhores intenções pela recuperação do campo, em crise há décadas, começou sua gestão em meio à pior temporada de chuvas dos últimos 50 anos, segundo especialistas.

Dados oficiais mostram que as intensas chuvas e suas consequentes inundações, que afetaram especialmente a região norte do país, deixaram 310 mortos, 62 desaparecidos e 300 feridos, além de 2,3 milhões desabrigados, 5.600 casas destruídas e 1.300 hectares alagados. O governo prevê investir US$ 7 bilhões para as tarefas de recuperação.

O quadro estatístico serviu de marco para o anúncio de importações adicionais no volume de 40 mil toneladas de arroz, efetivas a partir de fevereiro. O ministro Juan Camilo destaca que não há desabastecimento até agora de nenhum produto, mas não descarta a possibilidade de novas compras externas do grão.

Por seu lado, os produtores de arroz dos departamentos de Tolima, Huila, Meta, Casanare e Guaviare, no centro e sudeste do país, se colocaram contra a medida. “Antes de março se mobilizarão de maneira maciça para solicitar a suspensão da importação, totalmente desnecessária”, disse Aurelio. “Três em cada quatro pratos de arroz que os colombianos comem provêm da produção destes departamentos”, acrescentou, lembrando que a situação de produtores de leite e café é “muito grave”.

Com base na situação em que pareceria ocorrer uma ascendente política de importações, Aurelio deduz que 75% de cada peso de aumento no custo dos alimentos corresponde ao efeito da crise mundial, e os 25% restantes são atribuídos às inundações e às dificuldades do transporte pelo mau estado das estradas. “A crise tem origem, entre outras razões, na queda da colheita de trigo na Rússia, dificuldades na Austrália e em outros países, que têm hoje o maior índice de preços dos últimos 50 anos, segundo a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO)”, explicou Aurelio. Entretanto, também está no papel dos intermediários.

“A oferta agrícola é variada. A demanda, dispersa e constante. Para resolver a contradição, é preciso um terceiro agente para armazenar, acumular, transformar e determinar preços. Eles são os intermediários”, destacou Aurelio. “Os preços sobem quando há mais procura, como em dezembro. Em janeiro voltam a cair, mas esperamos altas em fevereiro”, disse à IPS Saulo Martínez, vendedor na central de abastecimento de Paloquemao, em Bogotá. Envolverde/IPS

Helda Martínez

Helda Martínez escribe para IPS desde Colombia, en especial sobre desarrollo y sociedad. Se graduó en 1981 como comunicadora social y periodista. Ese mismo año obtuvo el Premio Nacional de Periodismo Simón Bolívar en la categoría Mejor Trabajo Social, modalidad radio. Trabajó para medios de comunicación masivos de su país, como el periódico El Espectador y la radio Todelar. También se desempeñó como investigadora y redactora de varias publicaciones. Entre ellas se destacan "La guerra: Una amenaza para la libertad de información", editado por Medios para la Paz en 2002; "Prensa, conflicto armado y región. Aprendizajes del diplomado - Periodismo responsable en el conflicto armado" - Medios para la Paz, 2006; "Colombia y las Sentencias de la Corte Interamericana de Derechos Humanos" - IIDH, 2010.

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