Anse-à-Pitres, Haiti, 26/01/2011 – A epidemia de cólera que atinge o Haiti chegou até esta pequena localidade do sul, que sobrevivia principalmente graças ao comércio com a vizinha República Dominicana. Os três mercados na fronteira destes dois países, que compartilham a Ilha La Española, estiveram fechados a maior parte dos últimos 12 meses. Anse-à-Pitres respondia por 5% do intercâmbio bilateral.
Samuel Elouest, ativista pelos direitos humanos, caminha orgulhoso pela outrora poeirenta rua principal deste que é seu povoado natal. “As ruas foram pavimentadas por causa da Feira Binacional do ano passado”, disse à IPS. “Agora temos um grande gerador. Temos luz à noite, embora apenas na rua principal e para as igrejas, não nas casas. Mas isto mudou nossas vidas. Nossa população aumentou de 22 mil para 28 mil depois do terremoto. Porém, desde que o mercado permaneceu fechado por duas semanas, há pouco dinheiro no povoado”, acrescentou.
Whitney Alexander, médico haitiano formado em Cuba, agora atende na pequena clínica da fronteira. Não contava com pessoal até dois anos atrás e o Estado cedeu a administração do centro à organização não governamental Batey Relief Alliance. “Não podemos dizer quantos casos de cólera temos porque não temos uma confirmação de Porto Príncipe”, disse Whitney à IPS. “Todos os casos são suspeitas. Não quero dizer que não seja sério, pois há alerta nacional contra a doença”, acrescentou.
“Somos o único centro médico aqui, e atendemos mais de 50 mil pessoas nas comunidades vizinhas. Estou aqui há dois anos. Já estávamos ocupados antes do foco de cólera há dois meses, mas sem a ajuda da comunidade internacional”, informou Whitney. Atrás da clínica, há três grandes barracas de campanha para o tratamento do cólera, onde seus portadores são isolados dos demais pacientes.
As barracas são administradas por profissionais da organização Médicos Sem Fronteiras, com a colaboração da Cruz Vermelha do Haiti. Ao entrar nas barracas, todos devem lavar as mãos e se desinfetar. Das 12 camas disponíveis, apenas uma está ocupada, por um homem magro e idoso que recebe medicamento intravenoso por meio de soro.
Enquanto no Haiti são constatados mais de 150 mil contágios e mais de 3.700 mortes por cólera, na República Dominicana foram detectados somente 145 casos não fatais. Perto da fronteira, no lado dominicano, há um novo edifício do Departamento de Saúde com quatro lavabos, cada um com sabão. Cartazes em creole e espanhol explicam em poucas palavras como o cólera é transmitido e como evitá-lo. O governo dominicano, pressionado por vários setores, anunciou na semana passada que reiniciaria as repatriações de haitianos sem documentos, suspensas após o terremoto ocorrido há um ano.
Moradores de uma seção de Santiago, a segunda maior cidade da República Dominicana, a apenas duas horas da fronteira norte com o Haiti, ameaçaram expulsar imigrantes haitianos. Manifestantes disseram que os imigrantes viviam em condições insalubres, defecando em sacos plásticos que depois jogavam na rua. A polícia dessa cidade pediu que os moradores mantivessem a calma e iniciou o repatriamento.
Mais de 900 haitianos já foram repatriados este ano, o que gerou um protesto da organização humanitária Anistia Internacional. O governo dominicano explicou que se tratava de renovados esforços para deter a imigração ilegal. Reconheceu que buscava muitos detentos que escaparam das prisões haitianas após o terremoto e anunciou que mais de cem já estavam em mãos das autoridades em Porto Príncipe.
O Departamento de Estado dos Estados Unidos ameaçou Santo Domingo com sanções se não fizer mais para impedir o tráfico de crianças haitianas através da fronteira. Segundo funcionários do governo e grupos defensores dos direitos humanos, estes menores são vendidos a redes de prostituição ou a grupos organizados de mendigos. O Departamento de Estado queixou-se de que as autoridades dominicanas não apresentaram nenhuma acusação contra os traficantes de crianças.
Entre as sanções que Washington poderia aplicar à República Dominicana estão a suspensão da ajuda econômica e militar, o bloqueio das exportações para o mercado norte-americano e a oposição aos votos dominicanos em organismos internacionais como Banco Mundial e Fundo Monetário Internacional.
No final da principal rua de Anse-à-Pitre, sobre a pequena praia rochosa, há quatro barcos ancorados. Um policial sai do quartel e faz soar um apito. O pequeno grupo de pescadores e comerciantes para, em silêncio, enquanto é hasteada a bandeira haitiana. Jesner Amboise observa enquanto carrega seu barco com sacas de farinha. Pretende viajar para a localidade de Marigot à noite. “Faz muito calor para navegar durante o dia. O Sol está muito forte e não há abrigo, por isso viajamos à noite”, disse.
“Costumava navegar com o barco cheio de gente, mas o fechamento do mercado foi um duro golpe para nós”, acrescentou. “Ganhava 15 mil gourdes em cada viagem duas vezes por semana graças às pessoas que vinham comercializar no mercado. Agora, só transporto alguns produtos. Tenho sorte quanto tiro cinco mil gourdes depois de pagar o combustível”, contou. Envolverde/IPS

