Ramalá, Cisjordânia, 04/01/2011 – Vários episódios de discriminação contra a minoria palestina em Israel levaram o parlamento (Knesset) do país a debater sobre o aumento do racismo em seu território. “A democracia no Estado judeu corre perigo porque um crescente elemento racista levanta sua cabeça coletiva”, disse Ronit Sela, da Associação de Direitos Civis em Israel. “Os casos de discriminação ocorrem em um clima propício ao racismo. Isto não teria acontecido antes do atual governo direitista”, disse à IPS.
A organização Judeus por um Bat Yam Judeu, em referência a uma localidade próxima de Tel Aviv, fez uma manifestação contra a “o relacionamento de jovens judias com árabes residentes na cidade ou na vizinha Jaffa”. Trata-se de “uma organização de moradores de Bat Yam cansada de ver tantos árabes saírem com jovens judias. Além do protesto, distribuiremos panfletos explicando a situação”, disse Bentzi Gufstein.
O medo de “se ver inundado por árabes” fez com que as interações sociais e políticas entre a maioria judia de Israel e a minoria palestina permaneçam restritas. As relações entre as duas comunidades estão em grande parte influenciadas pela interação social e econômica, disse o professor Shlomo Hasson, da Universidade Hebreia de Jerusalém. “Há muito pouca integração entre cidadãos árabes e judeus em Israel. Há muito mais desempregados entre os primeiros do que entre os segundos”, afirmou Orna Cohen, do Adalah, Centro Legal para os Direitos da Minoria Árabe em Israel.
“No setor público, os árabes trabalham basicamente na saúde e educação, onde atuam como membros de sua comunidade. No setor privado, a integração é um pouco maior”, disse Orna à IPS. “Também há cidades mistas como Haifa, onde as duas comunidades se misturam. E há muitas outras onde só há judeus e os árabes não têm direito de viver nem comprar terras”, acrescentou.
Há duas semanas, houve um acalorado debate no Knesset devido a uma diretriz religiosa de rabinos influentes que proibiu o aluguel de casas para pessoas que não sejam judias, especialmente aos palestinos da cidade israelense de Safed, que estudam na universidade local. “Não precisamos ajudar os árabes a criarem raízes em Israel”, disse o rabino Shlomo Aviner, do assentamento de Bei El (norte de Jerusalém oriental), acrescentando que deve ser dada prioridade aos judeus e que a crescente quantidade de palestinos israelenses está se tornando um aborrecimento.
Os israelenses que alugaram uma casa aos palestinos receberam ameaças e foram envergonhados em público por organizações de direita que divulgaram listas com seus nomes. Dos israelenses laicos ouvidos em uma pesquisa do jornal israelense Y Net, 41% apoiam o pedido dos líderes religiosos de não alugar apartamentos para quem não é judeu, bem como 64% dos que têm costumes mais tradicionais e 88% dos judeus ultraortodoxos.
Haneen Zoabi, legisladora árabe-israelense que esteve a bordo do barco Mavi Marmara, que tentou romper o bloqueio contra o território palestino de Gaza em maio, se mostrou indignada pelo fato de alguns colegas parecerem surpresos com os últimos acontecimentos. “Há três meses, o Knesset aprovou uma lei estabelecendo que as aldeias com menos de 500 moradores poderiam continuar sendo exclusivamente judias para ‘manter sua identidade cultural’. Além disso, foram aprovadas cerca de dez leis no ano passado contra a minoria árabe”, disse Haneen à IPS.
“Israel tem um duplo discurso. Alguns legisladores acusam os rabinos de serem racistas, apesar do juramento de lealdade que eles apoiaram e aprovaram há vários meses no parlamento”, afirmou Haneen. “A lei prevê que a cidadania dos palestinos esteja sujeita a um juramento de lealdade ao sionismo e ao caráter judeu de Israel, apesar de chocar-se com seus direitos enquanto minoria étnica”, ressaltou a legisladora.
“Os rabinos divulgaram a carta apesar de serem funcionários do Estado”, disse Ronit. “Escrevemos ao ministro da Justiça pedindo que revisasse o assunto e obtivemos um mandato judicial. Mas não tivemos resposta nem foi feito algo a respeito”, acrescentou. “O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu não repreendeu os rabinos. O fato de funcionários públicos instigarem desta forma, apesar de não ter havido grandes mudanças na justiça de Israel em seus 62 anos de história, demonstra claramente o atual clima político do país”, acrescentou Ronit à IPS.
O Centro Adalah documenta rigorosamente a discriminação contra os palestinos israelenses. As práticas racistas estão plasmadas em mais de 30 leis relativas ao direito de retorno, só aplicado aos judeus, à facilidade com que os palestinos perdem a cidadania, à pouca representatividade que têm no âmbito da justiça e da política, à falta de fundos para saúde e educação de árabes, às altas taxas de desemprego e ao inadequado acesso à terra e a estratégias de planejamento. Envolverde/IPS

