O ano que vivemos em perigo (2)

Porto Príncipe, Haiti, 11/01/2011 – Quando o diplomata brasileiro Ricardo Seitenfus condenou a comunidade internacional em entrevistas concedidas em dezembro, foi destituído da Organização dos Estados Americanos (OEA), a qual representava no Haiti. Atualmente a OEA controla a recontagem de votos das disputadas eleições de 28 de novembro nesse país do Caribe.

Seitenfus disse que em uma reunião realizada no mesmo dia das eleições, entre países doadores e representantes da Organização das Nações Unidas, falou-se sobre o equivalente a um golpe de Estado contra o presidente René Préval. Mas o diplomata reservou suas piores palavras para a Missão de Estabilização das Nações Unidas no Haiti (Minustah), que o Brasil lidera com três mil soldados.

“Eu esperava que, com a angústia do terremoto de 12 de janeiro do ano passado, o mundo compreendesse que havia tomado o caminho equivocado em relação ao Haiti. Lamentavelmente, foi reforçada a mesma política”, disse ao jornal brasileiro Folha de S. Paulo. “Em lugar de fazer uma avaliação, enviaram mais soldados. Deviam construir estradas, instalar represas, participar da organização do Estado, do sistema judicial. A ONU disse que este não é seu mandato. Seu mandato no Haiti é manter a paz do cemitério”, afirmou.

Ricardo afirmou que, com novos governos no Brasil e no Haiti, deveria ser considerada a retirada da Minustah. Um porta-voz da ONU disse à IPS que a missão de paz negou-se a fazer comentários sobre as declarações do diplomata brasileiro. Em uma entrevista à IPS no mês passado, o embaixador do Brasil no Haiti, Igor Kipman, mostrou-se decidido em sua defesa da liderança de seu país na missão de paz. Disse que suas forças armadas tiveram “grande sucesso” na hora de criar estabilidade e segurança no Haiti.

Já estão em curso debates sobre uma estratégia de saída do Haiti, disse Igor à IPS, mas 2014 é “uma boa estimativa” de quando terá lugar a retirada. “O sucesso de uma missão de paz é inversamente proporcional à sua duração. Se a permanência foi de 20 anos é porque não esteve fazendo um bom trabalho”, afirmou.

A embaixada brasileira negou-se a fazer declarações sobre os telegramas diplomáticos norte-americanos divulgados no site Wikileaks, descrevendo o Brasil em 2009 como um sócio reticente na missão de paz, frustrado pela “falta de uma estratégia de saída”. Outro telegrama descreve um general brasileiro se oferecendo para “ocupar e manter o controle” do crime nas favelas do Rio de Janeiro. Seu argumento era que seus homens estavam “especificamente treinados e preparados” para a tarefa em razão de sua experiência com a Minustah. Este ano, o orçamento da missão atinge um recorde de US$ 2,3 milhões por dia.

Em Cité Soleil, uma enorme favela no extremo norte de Porto Príncipe, as tensões aumentam desde o começo da missão, em 2004. A Minustah foi acusada de bombardear indiscriminadamente moradores do lugar e prejudicar civis em seus primeiros dois anos no país. No dia 6 de dezembro, os efetivos da ONU escoltaram trabalhadores humanitários da Organização Internacional para as Migrações (OIM) para entregar elementos de alívio no acampamento de refugiados Imakile, na periferia de Cité Soleil.

Segundo os moradores do lugar, Luc Ondele, administrador de acampamentos em Cité Solei para a OIM, já havia ameaçado interromper a ajuda humanitária se a população continuasse denunciando essa agência e outras organizações não governamentais no rádio e em protestos. Também ofereceu iniciar um programa de dinheiro-por-trabalho para uma quantidade limitada de pessoas, desde que concordassem em abandonar os acampamentos, afirmaram.

“Temos um grande problema com as organizações não governamentais, que discriminam os moradores de Cité Soleil”, disse à IPS Gerard Delme, membro do comitê de Imakile, em um protesto em outubro. “Não aceitamos em absoluto Luc, o administrador da OIM, que tem políticas destrutivas. Eles oferecem dinheiro-por-trabalho nos acampamentos em um esforço para destruí-los e desmoralizar a população”, acrescentou.

Luc disse à IPS que foi mal interpretado. Afirmou ter dito ao comitê do acampamento que quando seus integrantes gritam “abaixo a OIM” ou “Abaixo a Minustah”, tornam seu trabalho mais difícil e perigoso. Trabalhadores da OIM chegaram, no começo de dezembro, oferecendo pacotes de sabonetes. Parecia um insulto, disseram à IPS os habitantes do acampamento, mas fizeram fila para recebê-los. Soldados brasileiros controlavam a área.

Logo, Dieula Rosemond, moradora no acampamento, teve de ser levada com urgência ao hospital da organização Médicos Sem Fronteiras, sofrendo forte dor nos olhos. Um solado da ONU espirrou em seus olhos gás lacrimogêneo. Seu marido, Joseph, fez fotos da distribuição de sabonetes com seu telefone celular (disponível em http://mediahacker.org). Uma delas mostra um soldado parado junto a uma longa fila. A seguinte é o primeiro plano de um soldado brasileiro, apontando o spray para o rosto de Dieula. Ela está parada diante do tanque de água do acampamento, de braços cruzados, olhando para baixo. Segundo seu marido, esse é o momento anterior ao gás atingir seu rosto. Na foto seguinte ela é vista desmaiada no chão, com os demais moradores do lugar se amontoando à sua volta.

Quando a IPS a visitou no hospital nesse dia, ela murmurou fracamente: “Me atingiram direto nos olhos. Não sei o motivo. Realmente me machucaram”. Assegurou não ter feito nada mais do que levantar sua voz contra a OIM. Os moradores do acampamento disseram não ter jogado pedras nem ter agido violentamente. Um porta-voz da ONU disse que não viu nenhum informe sobre o incidente. Luc disse à IPS que convidaria Joseph Rosemond para uma reunião com os soldados para discutir o ocorrido. “Aqui não há guerra. Eu não ameacei a Minustah”, disse Dieula na semana seguinte. “Isto aconteceu porque sou mulher ou porque estou no Cité Soleil?”, perguntou. Envolverde/IPS

*Ansel Herz tem seu blog em http://mediahacker.org.

Ansel Herz

Ansel Herz is an independent multimedia journalist. A Seattle native and survivor of the January 2010 earthquake in Haiti, he has reported from Haiti for nearly two years for IPS, Reuters AlertNet and Free Speech Radio News and has been interviewed by CNN, the BBC, the Canadian Broadcasting Corporation, Democracy Now! and other outlets. In 2011 he was key writer and researcher in a series of articles, published by the Nation magazine and Haiti Liberte, based on WikiLeaks cables related to Haiti. Ansel is a graduate of the University of Texas at Austin School of Journalism.

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