ALIMENTAÇÃO: Sintomas da nova crise mundial

Nações Unidas, 12/01/2011 – A Organização das Nações Unidas (ONU), que tenta ajudar cerca de um bilhão de pessoas famintas no mundo, antecipa outra crise alimentar neste ano.

Os preços dos alimentos básicos dispararam. - Manipadma Jena/IPS

Os preços dos alimentos básicos dispararam. - Manipadma Jena/IPS

E os sinais da nova tormenta estão à vista há algum tempo. A Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO), com sede em Roma, alertou, na semana passada, que os preços mundiais do arroz, trigo, açúcar, cevada e carne continuarão altos ou registrarão significativos aumentos em 2011, talvez replicando a crise de 2007-2008.

Rob Vos, diretor de políticas de desenvolvimento e análise no Departamento de Economia e Assuntos Sociais da ONU, disse à IPS que o aumento dos preços já afetava vários países em desenvolvimento. Afirmou que nações com Índia e outras da Ásia oriental e do sudeste já sofrem inflação de dois dígitos, devido ao aumento nos preços dos alimentos e da energia. Na Bolívia, o governo foi obrigado a reduzir os subsídios de alguns dos alimentos da cesta básica, já que estavam fazendo disparar o déficit fiscal.

No curto prazo, além de os pobres serem afetados e mais gente poder ser arrastada à pobreza, essa alta também dificultará a recuperação dos países que enfrentam maior inflação e cairá o poder aquisitivo dos consumidores em geral, afirmou Rob, economista-chefe da ONU. Alguns bancos centrais estão endurecendo suas políticas monetárias, e governos se veem obrigados a apertar o cinto fiscal, acrescentou.

Frederic Mousseau, diretor de políticas do Instituto Oakland, com sede na cidade norte-americana de San Francisco, disse à IPS que Moçambique já havia sofrido, em setembro, revoltas populares pelos altos preços do pão, nas quais morreram 13 pessoas. “Manifestações afetaram cerca de 30 países em 2008, e isto poderia se repetir já que a situação não mudou nos últimos três meses”, afirmou Frederic, autor do livro “O desafio dos altos preços dos alimentos: uma revisão das respostas para combater a fome”.

Os países mais vulneráveis são os mais dependentes das importações e os menos capazes de enfrentar o aumento nos preços nos mercados com políticas públicas, acrescentou Frederic. Isto diz respeito a muitas das nações mais pobres, com menos recursos, menos instituições e menos mecanismos públicos para apoiar a produção de alimentos, explicou. No final do ano passado, houve protestos na China pelos altos preços da merenda para estudantes secundários, e na Argélia pelo aumento da farinha, do leite e do açúcar.

Os argelinos voltaram às ruas na semana passada para protestar contra as duras condições econômicas. As manifestações acabaram com três mortos e centenas de feridos, enquanto na vizinha Túnis distúrbios similares causaram pelo menos 20 vítimas fatais. Segundo o índice da FAO divulgado na semana passada, os preços de cereais, sementes oleaginosas, lácteos, carnes e açúcar continuam aumentando por seis meses consecutivos.

“Estamos entrando em terreno perigoso”, disse Abdolreza Abbasian, economista da FAO, a um jornal londrino. Frederic explicou que os preços começaram a aumentar em 2010, depois das más colheitas na Rússia e na Europa oriental, em parte devido aos incêndios durante o verão boreal. Agora, as severas inundações que afetam a Austrália, quarto maior exportador mundial de trigo, provavelmente afetarão a produção desse cultivo e pressionarão ainda mais os preços para cima, previu.

“Qualquer outro acontecimento, como outro desastre climático em algum país exportador, ou nova alta do petróleo, sem dúvida alguma disparará os preços e fará com que a situação seja pior do que em 2008, ameaçando, portanto, o sustento de milhares de milhões de pessoas em todo o mundo”, acrescentou.

Entretanto, Frederic esclareceu que não se trata de um problema de escassez, como ocorreu em 2007-2008. “Não se pode usar a palavra escassez se for considerado que mais de um terço dos cereais produzidos no mundo são usados como alimento para animais, e que uma parte cada vez maior é usada para fazer combustíveis”, afirmou. De fato, no mundo foram produzidas 2,232 bilhões de toneladas de cereais em 2008, uma quantidade sem precedentes, destacou.

O nível de produção para o período 2010-2011 é levemente menor do que em 2008. Ao contrário daquele ano, quando o arroz foi o responsável pelo aumento dos preços, desta vez é o trigo. Em todo caso, deve-se a uma combinação de fatores: má colheita em uma parte do mundo supõe uma pressão sobre o mercado, o qual envia sinais negativos aos especuladores. Estes, então, começam a comprar e os preços disparam. Envolverde/IPS

Thalif Deen

Thalif Deen, IPS United Nations bureau chief and North America regional director, has been covering the U.N. since the late 1970s. A former deputy news editor of the Sri Lanka Daily News, he was also a senior editorial writer for Hong Kong-based The Standard. He has been runner-up and cited twice for “excellence in U.N. reporting” at the annual awards presentation of the U.N. Correspondents’ Association. A former information officer at the U.N. Secretariat, and a one-time member of the Sri Lanka delegation to the U.N. General Assembly sessions, Thalif is currently editor in chief of the IPS U.N. Terra Viva journal. Since the Earth Summit in Rio de Janeiro in 1992, he has covered virtually every single major U.N. conference on population, human rights, environment, social development, globalisation and the Millennium Development Goals. A former Middle East military editor at Jane’s Information Group in the U.S, he is a Fulbright-Hayes scholar with a master’s degree in journalism from Columbia University, New York.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *