EUA: Doentes pedem auxilio no Golfo do México

Nova Orleans, Estados Unidos, 18/01/2011 – Os habitantes do Golfo do México reclamam do governo norte-americanos cuidados médicos e apoio diante das doenças causadas pelo vazamento de combustível da multinacional British Petroleum (BP).

Cherri Foytlin, cofundadora da Gulf Change, em uma manifestação realizada em outubro de 2010 em Baton Rouge, Louisiana. - Erika Blumenfeld

Cherri Foytlin, cofundadora da Gulf Change, em uma manifestação realizada em outubro de 2010 em Baton Rouge, Louisiana. - Erika Blumenfeld

O óleo começou a vazar no dia 20 de abril, quando a plataforma de exploração Deepwater Horizon, que a BP arrendara da firma suíça Transocean, explodiu e dois dias depois afundou. Somente em julho o vazamento foi contido.

Em uma reunião patrocinada pela comissão nacional que investiga o desastre, moradores do lugar e líderes comunitários expressaram suas sérias preocupações pela crise sanitária provocada pelo vazamento. “Hoje vou falar a vocês sobre minha vida”, disse Cherri Foytlin aos dois integrantes da comissão presentes na reunião do dia 12. “Meus níveis de etilbenzeno são 2,5 vezes os do percentil 95, e há muitas possibilidades de não poder conhecer meus netos. O que peço agora é que emendem seu informe, porque, temos de receber cuidados médicos”, acrescentou.

O etilbenzeno é uma forma de benzeno presente no organismo quando começa a se decompor. Também está presente no óleo da BP. “Vi crianças pequenas com lesões por todo o corpo”, contou Cherri, cofundadora da Gulf Change, uma organização comunitária com sede em Grand Isle, no Estado da Louisiana. “Estamos muito, muito doentes. E os mortos estão mortos. Assim, na realidade, não importa se os meios de comunicação voltam, ou se o presidente Barack Obama nos ouve, ou se os trabalhadores do petróleo e os pescadores e os que se dedicam à captura de caranguejo conseguem alimentar seus filhos e talvez tenham um bom Natal no próximo ano”, disse.

Frances Beinecke, integrante da comissão e presidente do Conselho de Defesa dos Recursos Nacionais, disse que transmitiria suas preocupações à Casa Branca. A comissão, designada por Obama, divulgou seu informe final na semana passada, após pesquisar durante seis meses sobre o pior desastre petrolífero na história da nação. O relatório recomenda um enorme ajuste das falidas práticas de segurança da indústria do petróleo no Golfo, bem como a criação de uma nova agência independente para controlar as atividades de perfuração.

Porém, a maioria das 250 pessoas que estiveram presentes na reunião se ativeram à crise sanitária que surgiu depois do desastre, deixando os trabalhadores da BP responsáveis pela limpeza e também os moradores da área do Golfo sofrendo enfermidades que atribuem ao combustível e aos dispersantes tóxicos utilizados para afundá-lo. O médico Rodney Soto, de Santa Rosa Beach, na Flórida, analisa e trata pacientes com altos níveis no sangue de produtos químicos relacionados com o petróleo. Normalmente, estas substâncias são chamadas de “compostos orgânicos voláteis”.

Os antropogênicos derivados do desastre da BP são tóxicos e têm efeitos crônicos negativos sobre a saúde. Rodney fica desconcertado ao encontrar níveis tão altos de produtos tóxicos em cada um dos pacientes que examina. “Regularmente encontro entre cinco e sete compostos orgânicos voláteis em meus pacientes”, disse à IPS. “Entre estes pacientes, há pessoas que não estão diretamente envolvidas na limpeza do petróleo, bem como moradores que não vivem diretamente na costa. Isto está claramente relacionado com o desastre petrolífero”, acrescenta.

No entanto, organismos governamentais como a Agência de Proteção Ambiental, a Administração de Drogas e Alimentos, e o Escritório Nacional de Administração Oceânica e Atmosférica, junto com o próprio presidente Obama, declararam que as águas e praias do Golfo estão abertas ao público, por considerá-las seguras, como os produtos marinhos dali retirados. Os moradores do lugar que estiveram presentes à reunião se asseguraram de que os dois integrantes da comissão ficassem a par da crise sanitária que enfrentam.

Tom Costanza, da Catholic Charities na área de Nova Orleans, disse que a região está em meio a uma crise nos serviços sociais e que enfrenta um processo de reivindicações que está cheio de problemas. “As pessoas me ligam chorando e agonizando. Precisam de cuidados médicos e apoio”, afirmou. Ada McMahon trabalha para o Bridge the Gulf Project, um site de jornalismo da sociedade civil que publica artigos sobre as comunidades da costa do Golfo e abordam temas de justiça e sustentabilidade.

“Os temas de saúde não resolvidos são o maior problema, junto com o fato de os moradores se converterem em ativistas que vão a reuniões da comissão ou ao administrador do fundo para manejo do vazamento da BP, Kenneth Feinberg, para contar seus problemas de saúde”, disse Ada à IPS. “Os que podem, pagam US$ 300 por um exame de sangue, encontram uma alarmante proporção de produtos químicos em seus corpos, e estão fazendo o que podem para expressar suas preocupações. Porém, sentem que não podem esperar que o Congresso ou Obama abordem isto, pois precisam de médico e apoio já”, afirmou.

LaTosha Brown, diretor do Fundo da Costa do Golfo para a Renovação Comunitária e a Saúde Ecológica, que trabalha com 250 organizações locais, também disse que “a principal preocupação expressada pela comunidade em resposta ao informe é a esmagadora necessidade de acesso a serviços de saúde”. Stephen Bradberry, diretor-executivo do não governamental Alliance Institute, se preocupa com o fato de a Gulf Coast Claims Facility, que atende reclamações na área afetada, não aceita as vinculadas com temas de saúde, o que deixa os doentes sem poder trabalhar e sem renda para pagar as despesas médicas.

“Há manchas roxas e lesões na pele. Ontem, soube de cinco pessoas que morreram em Grand Isle e que não tinham problemas de saúde antes. Mas não se fala em controlar essas comunidades”, afirmou Stephen à IPS. “Precisamos de um grupo de trabalho separado que possa centrar-se apenas em examinar, controlar e estudar os problemas de saúde no longo prazo causados pela exposição ao óleo e aos dispersantes. E isso tem de ser agora”, ressaltou. Envolverde/IPS

Dahr Jamail

Dahr Jamail is the IPS lead writer on Iraq. In that capacity he has covered Iraq directly and extensively on the ground, and at other times organised reporting out of Iraq. Several of his breaking news stories could not be covered by any other media organisations. Jamail is author of the eye-opening book ‘Beyond the Green Zone: Dispatches from an Unembedded Journalist in Occupied Iraq’. Besides reporting from within Iraq for eight months, he has been covering the Middle East for five years. A regular correspondent for IPS, Jamail has also contributed to The Independent, The Guardian, the Sunday Herald, and Foreign Policy in Focus, among others. His reporting has been translated into French, Polish, German, Dutch, Spanish, Japanese, Portuguese, Chinese, Arabic and Turkish.

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