EUA fortalecem apoio à sociedade civil cubana

Havana, Cuba, 18/01/2011 – O governo de Cuba considerou positivas, mas de “alcance limitado”, as novas medidas dos Estados Unidos de flexibilização para viagens e envio de remessas de dinheiro ao país, que, segundo pesquisadores consultados, favorecerão o nascente setor privado. Em uma declaração divulgada ontem na imprensa oficial, a chancelaria alerta que as decisões do governo de Barack Obama não mudam a “política de bloqueio e desestabilização” contra este país e serão usadas “para fortalecer os instrumentos de subversão e ingerência nos assuntos internos de Cuba”.

Ainda assim, o comunicado considera que as medidas são resultado do esforço de amplos setores da sociedade norte-americana que há anos reclama o fim do embargo e o fim da proibição das viagens de cidadãos norte-americanos. O pacote, anunciado pela Casa Branca no dia 14, autoriza as visitas a Cuba de cidadãos norte-americanos com fins acadêmicos, educacionais, culturais e religiosos, amplia as possibilidades para enviar remessas e vai facilitar o aumento de voos para a ilha.

“Entrarão recursos, mas pela via da propriedade privada, da sociedade civil”, disse à IPS o pesquisador cubano Esteban Morales, alertando que, embora tragam benefícios, também representam “riscos, porque se combinam com as pressões do bloqueio sobre o governo, que permanece intacto”. No entanto, dos Estados Unidos, o professor universitário cubano residente nessa nação, Arturo López-Levy, disse à IPS que as medidas ajudarão no intercâmbio entre as comunidades acadêmicas dos dois lados do estreito, “na hora estratégica em que as reformas econômicas de Havana ganham impulso”.

Os contatos estudantis e religiosos serão facilitados com a decisão de restituir as políticas sobre Cuba implementadas pelo governo de Bill Clinton (1993-2001), do mesmo Partido Democrata que Obama, que foram revogadas em 2003 por George W. Bush, do opositor Partido Republicano. Segundo a chancelaria, Cuba sempre favoreceu esses intercâmbios. “Todos os obstáculos que entorpecem as visitas dos norte-americanos a Cuba sempre estiveram, e continuam, do lado do governo dos Estados Unidos”, assegurou.

Medidas anteriores ampliaram as possibilidades de cidadãos cubano-norte-americanos enviarem dinheiro para suas famílias. Agora, qualquer norte-americano poderá mandar até US$ 2 mil ao ano para pessoas em Cuba, exceto funcionários do governo ou militantes do Partido Comunista. “Esta liberação pode ser um importante paliativo para cubanos tentando abrir novos negócios, em vista das recentes demissões, e na abertura para a pequena e média propriedade”, afirmou Arturo, professor na Universidade de Denver, que também afirmou que a ampliação das viagens “pode ser substancial”.

Em sua opinião, Washington potencializará, dessa forma, a recente abertura econômica cubana, com voos diretos e mais visitantes norte-americanos a partir de cidades diferentes das autorizadas atualmente, especialmente incluídas San Juan de Porto Rico e alguma cidade do Estado da Flórida. Segundo disposição do presidente Obama, todos os aeroportos internacionais nos Estados Unidos poderão oferecer voos para Cuba, desde que contem com serviços adequados de aduana e imigração e que os aviões sejam operados por empresas autorizadas.

Até o momento, Havana recebe viajantes procedentes de Miami, Nova York e Los Angeles. O comunicado da Casa Branca explica que as medidas aumentarão o contato entre os povos, apoiarão a sociedade civil cubana, melhorarão o livre fluxo de informação para os cubanos, por eles e entre eles, e ajudarão a promover sua independência das autoridades.

Esteban recordou que, como parte das mudanças para encaminhar a economia cubana adotadas pelo governo de Raúl Castro, está previsto terminar com o paternalismo estatal e que uma parte importante da população economicamente ativa seja inserida no trabalho por conta própria. “Já se sabe que nenhum processo político como o que vive Cuba desmorona a partir de fora e, ao que parece, Obama definiu que sua política objetiva ocupar cada vez mais setores da sociedade civil e confrontá-los com o governo, sempre que possível”, disse o estudioso.

Por sua vez, Arturo considera “um fato” que maiores contatos entre os acadêmicos poderiam abrir portas importantes ao debate nacional na ilha e influenciar nos mecanismos de tomada de decisão do governo de Castro. Esta “abertura é potencialmente o início de um degelo na relação bilateral” e sua importância será medida não pelo número de intercâmbios que ocorrerem, “mas pela capacidade dos governos de Cuba e Estados Unidos para manter um processo de comunicação e diálogo que maneje de maneira construtiva estas novas revelações”, afirmou.

“Obama deu um passo difícil ao impedir que os conservadores cubano-americanos, que se opõem à preferência presidencial pelo diálogo e o intercâmbio, ditem a agenda bilateral. O exílio histórico não será perdoado, não importa qual seja a magnitude da abertura”, disse Arturo à IPS, via email. “Este passo também cria melhores condições para a discussão do tema da detenção em Cuba de Alan Gross, subcontratado da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (Usaid), em um ambiente menos contaminado do que o promovido pela direita cubano-americana interessada em convertê-lo em tábua de salvação para qualquer gesto construtivo”, acrescentou.

As medidas sobre Cuba foram divulgadas em Washington apenas 24 horas após Roberta Jacobson, subsecretária-adjunta principal do Departamento de Estado, visitar Alan Gross, detido em Cuba desde dezembro de 2009 sem ter sido formalmente acusado. As autoridades cubanas responsabilizam esse norte-americano de espionagem e de proporcionar “sofisticados” meios de comunicação a opositores. Contudo, Washington admite apenas que viajou à ilha como subcontratado para entregar celulares, computadores e equipamento de comunicação para grupos judeus.

Roberta liderou a delegação de seu país que, no dia 12, manteve com autoridades cubanas conversações sobre o andamento dos acordos migratórios de 1994 e 1995. Esta funcionária aproveitou a ocasião para se reunir com alguns opositores, o que foi considerado uma “provocação” pela chancelaria cubana. Envolverde/IPS

Patricia Grogg

Patricia Grogg es chilena y reside en La Habana. Se desempeña como corresponsal permanente de IPS en Cuba desde 1998. Estudió gramática y literatura española en la Universidad de Chile, y periodismo en la Universidad de La Habana. Trabajó como reportera, jefa de redacción y editora en la agencia cubana Prensa Latina. A mediados de la década de 1990 se incorporó por unos meses como jefa de redacción a la agencia Notimex en Santiago de Chile. Desde Cuba también ha colaborado con medios de prensa mexicanos y chilenos. En su labor cotidiana investiga temas sociales, políticos, energéticos, agrícolas y económicos.

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