Kolkata, Índia, 18/01/2011 – “A Índia se converteu na capital dos suicídios do mundo”, disse Daya Sandhu, professor de aconselhamento psicológico da Universidade de Louisville, nos Estados Unidos.

Voluntários realizam manifestações para criar consciência sobre o problema dos suicídios. - Sujoy Dhar/IPS
“Quando estive na Índia, entre janeiro e junho de 2010, tive problemas para ler todas as manchetes de notícias, quase diariamente, sobre estudantes e agricultores e donas de casa que se enforcavam, pulavam na frente de trens, bebiam veneno ou se imolavam”, disse Daya. Por trás dos muros de uma fábrica abandonada nesta cidade, Arun Bag ainda luta contra as trágicas recordações de seu pai, que se matou depois que sua fazenda foi confiscada para que fosse construída uma fábrica de onde hoje sai “o carro mais barato do mundo”.
“Desde sua infância só conhecia o campo, o arado e as colheitas. Quando sua terra foi tirada pelo governo para dar lugar à construção da companhia automobilística Tata Motors, ficou sem trabalho”, contou Arun, lembrando que seu pai, Haradhan Bag, de Singur, a uma hora de carro de Kolkata, “caiu em depressão. Um dia se matou tomando inseticida”, em março de 2007, quando tinha 76 anos, acrescentou.
Haradhan foi um dos milhares de fazendeiros indianos que se suicidaram diante das dificuldades econômicas, das más colheitas, das dívidas e por ter de mudar de lugar. Entre 1997 e 2005, a cada 32 minutos um agricultor indiano se suicidou, segundo P. Sainath, escritor que se dedica a pesquisar a pobreza neste país. Fez o cálculo baseando-se em dados do Escritório Nacional de Registros Criminais. Os agricultores e os estudantes constituem a população mais vulnerável.
Segundo os últimos dados do Escritório, 127.151 pessoas na Índia se mataram em 2009. Isto representa aumento de 1,7% em relação ao ano anterior. O suicídio é um grave problema social na Índia, terceiro maior país da Ásia e uma das economias de crescimento mais rápido. Prevê-se que o produto interno bruto cresça 8,6% este ano. Agricultores que tiveram de se mudar, como Haradhan, e camponeses endividados da região de Vidarbha, em Maharashtra, mostram tendências suicidas. Membros de famílias de classe média e estudantes de instituições acadêmicas também são tentados a se matar.
Na agitada metrópole de Kolkata, a apenas 40 quilômetros da aldeia de Haradhan, a atenção da mídia se concentra hoje no suicídio de um estudante de 13 anos que pertencia a uma das escolas de elite da cidade. Rouvanjit Rawla, aluno do colégio La Martiniere, enforcou-se em sua casa em fevereiro do ano passado, após apanhar de um professor. “Agora luto por justiça e para que o castigo corporal seja eliminado” das salas de aula, disse Ajay Rawla, pai do garoto e que apresentou queixa contra as autoridades do colégio. A Comissão Nacional para a Proteção dos Direitos da Infância concluiu que Rouvanjit ter apanhado na escola foi o fator determinante de seu suicídio.
Daya disse que, embora a mídia trate do problema, o governo o ignora tanto em nível local quanto regional e nacional. “Não há conscientização sobre a depressão na Índia”, afirmou. Após ouvir um grande número de estudantes na Índia, Daya concluiu que estes enfrentavam uma grande pressão acadêmica, altas expectativas de seus pais e tensões nas relações sociais. “Fiquei assombrado pelo fato de todos os estudantes que entrevistei mencionarem que pelo menos 70% deles tinham ‘prem rog’ (doença do amor) e que viviam sem amor”, relatou. “Não sentiam ter raízes em lugar algum. Parece não haver um genuíno amor paterno, mas apenas condicional. Também são proibidos rigidamente de manter um amor romântico”, acrescentou.
Há pouquíssimos centros de aconselhamento na Índia em relação ao alto número de suicídios, disse Daya. A Lifeline Foundation, em Kolkata, é o único centro de aconselhamento de seu tipo, em uma cidade com 15 milhões de habitantes. Também é o único de Bengala Ocidental, com 80 milhões de pessoas. “A pressão paterna para que se destaquem nos estudos ou nos empregos é um fator de suicídios, que se combina com o abuso de substâncias e problemas de relacionamento e familiares”, explicou a subdiretora da entidade, Jayashree Shome.
O centro oferece uma linha telefônica e apoio pessoal para as pessoas angustiadas ou com tendências suicidas, mas poucos sabem de sua existência. “As pessoas com inclinação suicida não querem respostas nem soluções. Querem um lugar seguro onde expressar seus temores e ansiedade, para serem elas mesmas. Precisamos entender as coisas do ponto de vista delas, não do nosso”, acrescentou Jayashree.
Segundo Daya, a Lei sobre Saúde Mental da Índia, de 1987, está limitada ao tratamento de pessoas que sofrem de doenças específicas, como esquizofrenia, desordens bipolares e obsessões compulsivas. “Essa lei é claramente boa apenas para estabelecer as pautas sobre a criação e manutenção de hospitais psiquiátricos e residências para idosos”, afirmou. Contudo, “está limitada em alcance e serviços, descartando pessoas que sofrem outras inúmeras dificuldades, como tendências suicidas, alcoolismo e abuso de substâncias, problemas familiares, violência, ansiedade e desordens nervosas”, ressaltou o professor. Envolverde/IPS

