A hora da Irmandade Muçulmana

Washington, Estados Unidos, 14/02/2011 – Após a renúncia de Hosni Mubarak no Egito, a participação da Irmandade Muçulmana em uma transição para um governo mais democrático é o maior medo dos Estados Unidos.

Festejos no Cairo depois da renúncia de Mubarak. - Cam McGrath/IPS

Festejos no Cairo depois da renúncia de Mubarak. - Cam McGrath/IPS

Porém, especialistas afirmam que isto seria um importante revés para a rede radical islâmica Al Qaeda. Para vários políticos e analistas ligados ao lobby israelense, o possível acesso ao poder da Irmandade seria um pesadelo para o Oriente Médio que Washington deve impedir.

O fato de a renúncia de Mubarak ter coincidido com o 32º aniversário da Revolução Islâmica de 1979 no Irã serviu para recordar que a derrubada de governantes opressivos nessa região nem sempre serve aos interesses de Washington. Portanto, enquanto pedia “calma e um processo de transição ordenado para a liberdade e a democracia no Egito”, a presidente do influente Comitê de Assuntos Exteriores da Câmara de Representantes dos Estados Unidos, Ileana Ros-Lehtinen, do opositor Partido Republicano, dizia que a Irmandade Muçulmana deveria ser excluída do processo.

“Devemos instar a inequívoca rejeição a qualquer participação da Irmandade Muçulmana e outros extremistas que possam querer explorar e sequestrar estes acontecimentos para ganhar poder, oprimir o povo egípcio e causar um grande dano às relações do Egito com os Estados Unidos, Israel e outras nações livres”, disse em uma declaração.

Ao mesmo tempo, em sua coluna semanal no jornal The Washington Post, Charles Krauthammer, neoconservador de linha dura que cunhou a frase “o momento unipolar” para celebrar a hegemonia norte-americana após o colapso da União Soviética, alertou que o islamismo havia ocupado o lugar do comunismo como rival da Casa Branca na “longa luta pela liberdade”. “Portanto, da mesma maneira que na Guerra Fria os Estados Unidos ajudaram a manter fora do poder os partidos comunistas europeus, Washington deve opor-se à inclusão de partidos totalitários (a Irmandade Muçulmana ou comunistas) em qualquer governo, seja provisório ou eleito, nos dois Estados árabes liberados”, escreveu.

Considerado o grupo melhor organizado e mais disciplinado no cenário político egípcio, a Irmandade Muçulmana – cuja popularidade é atribuída à sua ampla rede de serviços médicos e sociais para os setores mais pobres, bem como à sua longa oposição ao regime de Mubarak – contaria com a lealdade de pelo menos 30% da população do Egito.

Nas eleições parlamentares de 2005, candidatos associados a essa organização (o partido está oficialmente proscrito desde 1954) conseguiram 20% das cadeiras no parlamento. Mas, receberam insignificante apoio nas eleições de novembro do ano passado que, segundo observadores internacionais e locais, foram claramente manipulados a favor do Partido Nacional Democrático, cujo futuro agora é incerto.

A grande questão aqui é como a administração de Barack Obama tratará a Irmandade Muçulmana, pergunta que altos funcionários claramente ainda não responderam. Diplomatas e funcionários de inteligência se reuniram informalmente com líderes desse grupo islâmico de forma esporádica desde os anos 1990, principalmente para avaliar a situação política no Egito. No entanto, desde que começaram as manifestações no dia 25 de janeiro, Washington, que fez contato com líderes políticos seculares e altos chefes militares egípcios, nunca consultou diretamente líderes da Irmandade Muçulmana.

Ao mesmo tempo, a administração de Obama repetidamente insistia que qualquer transição política para um regime mais democrático deveria ser um “processo inclusivo” que incluísse todos os grupos políticos. No começo desta semana, o porta-voz da Casa Branca, Robert Gibbs, disse que a transição deveria incluir também “todos os atores importantes não seculares”, uma ideia que foi particularmente criticada por Krauthammer. “Por que legitimizar gratuitamente os islâmicos?”, perguntou, destacando que “os norte-americanos deveriam urgentemente apoiar os partidos democráticos seculares no Egito e em outros lugares com capacitação, recursos e diplomacia”.

Os temores com relação à Irmandade Muçulmana se baseiam particularmente em sua história de oposição ao sionismo, e em especial à sua posição de que os acordos de Camp David com Israel, de 1979, devem ser esquecidos. Seus estreitos vínculos com o palestino Movimento de Resistência Islâmica (Hamas), que o Departamento de Estado norte-americano considera uma organização “terrorista’, também são grande preocupação em Washington, pois teme-se que a cooperação do Egito para manter o cerco israelense a Gaza chegue ao fim.

O fato de o segundo em comando da rede Al Qaeda, Ayman Zawahiri, ter sido membro da Irmandade Muçulmana, antes desta adotar uma política de não violência, também foi citado repetidamente pelos que pensam que o governo de Obama deveria opor-se a qualquer processo que possa levar os islâmicos ao poder. Para alguns comentaristas como Clifford May, da Fundação para a Defesa das Democracias, a Irmandade Muçulmana é a frente “suave”’ do movimento mundial da jihad, a luta internacional pelo Islã.

Finalmente, o fato de a Irmandade Muçulmana ter apoiado a aplicação da shariá (lei islâmica) no Egito desperta dúvidas em Washington sobre seu compromisso com princípios democráticos básicos, em particular em relação à condição das mulheres. Contudo, a maioria dos especialistas na região disse que os temores que circulam contra esta organização são exagerados ou infundados. De fato, alguns dizem que uma transição democrática de sucesso que inclua a Irmandade Muçulmana seria um importante revés para a Al Qaeda, que critica duramente a agrupação egípcia por ter optado pela não violência e se comprometer com os processos democráticos.

Inclusive alguns neoconservadores, principalmente Robert Kagan, da Brookings Institution, defendem a Irmandade Muçulmana das críticas e acusações, e exortam Washington a aceitar sua necessária participação no processo de transição. “O que vamos fazer?” apoiar ditadores para o resto da eternidade porque não queremos que islâmicos façam parte de algum sistema político no Oriente Médio?”, questionou Kagan. Envolverde/IPS

*O blog de Jim Lobe sobre política externa dos Estados Unidos pode ser visto em http://www.lobelog.com.

Jim Lobe

Jim Lobe joined IPS in 1979 and opened its Washington, D.C. bureau in 1980, serving as bureau chief for most of the years since. He founded his popular blog dedicated to United Stated foreign policy in 2007. Jim is best known for his coverage of U.S. foreign policy for IPS, particularly the neo–conservative influence in the former George W. Bush administration. He has also written for Foreign Policy In Focus, AlterNet, The American Prospect and Tompaine.com, among numerous other outlets; has been featured in on-air interviews for various television news stations around the world, including Al Jazeera English; and was featured in BBC and ABC television documentaries about motivations for the U.S. invasion of Iraq. Jim has also lectured on U.S. foreign policy, neo-conservative ideology, the Bush administration and foreign policy and the U.S. mainstream media at various colleges and universities around the United States and world. A proud native of Seattle, Washington, Jim received a B.A. degree with highest honours in history at Williams College and a J.D. degree from the University of California at Berkeley’s Boalt Hall School of Law.

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