Estocolmo, Suécia, 14/02/2011 – O secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Ban Ki-moon, está novamente sob fogo. Inga-Britt Ahlenius, até há pouco uma das mais altas funcionárias da ONU, explicou à IPS a razão de seus duros ataques à administração do diplomata sul-coreano. “Como este homem pôde ser designado para o posto mais importante do mundo? Definitivamente, ele não está à altura”, disse à IPS Inga-Britt, que até julho do ano passado ocupou o cargo de chefe do Escritório de Acompanhamento Interno da ONU.
Suas críticas à liderança de Ban foram incluídas em um livro publicado recentemente em sueco, intitulado “Mr. Chance”. A respeito, Martin Nesirky, porta-voz das Nações Unidas, disse que “temos conhecimento do livro. Tratamos do tema amplamente no ano passado. Não temos mais comentários a fazer”. Inga-Britt, ex-auditora geral na Suécia, integrou um grupo de especialistas que expôs casos de corrupção na União Europeia em 1999. A sucessão de escândalos precipitou a queda do então presidente da Comissão Europeia, Jacques Santer.
Chamada de “senhora audaz” por seus colegas da ONU, Inga-Britt acusou Ban de estar mais interessado em caminhar sobre tapetes vermelhos e fazer discursos do que em assumir o papel de chefe máximo das Nações Unidas. Nas reuniões com seus assessores ao retornar de suas viagens, Ban, em geral, dedica-se mais a falar dos banquetes para os quais foi convidado, ou da cobertura da imprensa desses encontros, do que em dar atenção aos temas políticos e segui-los, disse Inga-Britt.
“Como chefe da Secretaria é uma catástrofe. Não tem interesse nem está comprometido”, afirmou. Também acusou o secretário-geral de falta de transparência na administração e de querer controlar a supervisão interna. Como exemplo, disse que Ban a impediu de designar um ex-procurador norte-americano como chefe de investigações em seu escritório. Ban argumentou que agiu de acordo com os procedimentos da ONU.
Quando Ban assumiu o cargo, demitiu os principais funcionários que haviam trabalhado com seu antecessor, Kofi Annan. Ela foi a única subsecretária-geral que permaneceu, pois sua nomeação foi feita pela Assembleia Geral. Em seu informe final, ao deixar o posto em julho passado, Inga-Britt acusou Ban de provocar uma divisão na ONU. A IPS foi o primeiro meio de comunicação que teve acesso total ao documento, de 50 páginas, e o divulgou no site TerraViva (http://ipsterraviva.net/uploads/UN/UN/report.Pdf.
“Eu era a única que estava em posição de escrever um relatório como esse, pois não estava sob a autoridade do secretário-geral e tinha um contrato não renovável. Não tive que adular ninguém”, afirmou Inga-Britt. O informe foi escrito durante cinco meses. “Consultei cinco pessoas em postos centrais da Secretaria, que, independentemente uma da outra, revisaram os fatos e o tom dos rascunhos. Todas concordaram que o informe fazia uma justa descrição do estado das coisas”, afirmou.
Em uma entrevista coletiva na sede da ONU, Ban destacou que as críticas de Inga-Britt não tinham base. Seu chefe de gabinete, Vijay Nambiar, também a acusou de distorcer os fatos. “Foi apenas uma forma de evitar a discussão. Não encontrarão nenhuma inexatidão no informe porque não existem”, afirmou Inga-Britt.
No começo, o informe foi publicamente reconhecido por Ban como importante, “mas logo recebi uma agressiva carta de Nambiar. Também recebi telefonemas nos quais era alertada de que os círculos em volta de Ban Ki-moon não poupariam esforços para me acertar e ferir-me, em represália ao relatório”, contou Inga-Britt. “É um sinal da lamentável cultura de tentar matar o mensageiro”, acrescentou. Em dezembro de 2010, Inga-Britt soube que alguns de seus ex-colegas da ONU foram convidados a participar de uma campanha de difamação contra ela.
Inga-Britt não é a única que critica duramente o secretário-geral. A embaixadora norueguesa na ONU, Mona Juul, escreveu um memorando interno em 2009 acusando o secretário-geral de fraco, sem caráter, ineficaz e sem carisma. Mona também mencionou várias crises nas quais, segundo ela, Ban nada conseguiu: Birmânia, Sri Lanka, República Democrática do Congo, Darfur, Somália, Paquistão e Zimbábue. Além disso, afirmou que não o via trabalhando pelos direitos humanos nem pelo desarmamento. Envolverde/IPS

