FÓRUM SOCIAL MUNDIAL: Em busca de maior protagonismo das pessoas

Nova York, Estados Unidos, 14/02/2011 – Numerosas organizações participaram do Fórum Social Mundial (FSM) em Dacar, encerrado no dia 11, com a intenção de conceber outro mundo, com sistemas políticos e econômicos mais centrados nas pessoas.

Sylvia Borren. - Cortesia de GCAP.

Sylvia Borren. - Cortesia de GCAP.

Sylvia Borren, uma das presidentes do Chamado Mundial à Ação contra a Pobreza (GCAP), conversou com a IPS sobre o papel de sua organização no Fórum e sua evolução na última década desde seu início em Porto Alegre, em janeiro de 2001.

IPS: Quais desafios teve o FSM de Dacar?

SYLVIA BORREN: A crise da alimentação, da água e do clima, que afeta grandes áreas da África e que foi causada pelas nações ricas. Nossos governantes não estão solucionando esse problema, nem o G8, o G20 ou a Organização das Nações Unidas. Nós, o povo, teremos que assumir a liderança, especialmente em vista dos movimentos a favor da democracia surgidos no mundo árabe.

IPS: De que se trata o outro mundo promovido pelo FSM?

SB: É claro que a vasta maioria dos cidadãos do mundo deseja um mundo justo, onde educação, saúde, emprego e bem-estar sejam distribuídos de forma justa e onde os bens comuns globais sejam geridos de forma concertada. Entretanto, o poder está nas mãos de minorias ricas, uma elite constituída por bancos, corporações, governos, meios de comunicação corporativos e redes criminosas. A cidadania global tenta se organizar como tal para criar novas formas de processos democráticos inclusivos, nos quais bancos e corporações não sejam resgatados quando surge uma crise financeira global, pois são as pessoas que pagam o preço real de algo que não causaram.

IPS: O FSM poderá ser um órgão genuíno para poder incidir nas políticas nacionais?

SB: O FSM foi concebido como um espaço para que os movimentos sociais se encontrem, elaborem uma estratégia e comecem a se organizar para incidir nos contextos nacionais e globais. Isto funciona muito bem. O Fórum desmoronará e perderá seu papel significativo se quiser se transformar em um instituto ou movimento com seus próprios objetivos específicos.

IPS: Há algum exemplo de uma ideia proposta pelo FSM que foi colocada em prática com sucesso?

SB: O próprio GCAP foi lançado no FSM de 2005, reforçou sua rede nas edições seguintes e conseguiu muitos resultados concretos com a crescente mobilização em torno do dia internacional contra a pobreza, que em 2009 convocou 173 milhões de pessoas. Entre as consequências no âmbito nacional, podem ser mencionados o aumento do gasto em educação, saúde, assistência social, benefícios para a infância, apoio às pessoas deficientes, entre outras. No FSM de 2009, o GCAP preparou, junto com outras organizações, uma estratégia para a Conferência sobre Mudança Climática da ONU e os Tribunais e Audiências sobre Pobreza e Clima em 18 países, motivando trabalhos específicos sobre o assunto em escalas local e global.

IPS: Em que o GCAP se concentrou este ano?

SB: O capítulo do Senegal, junto com a Civicus e agências da ONU, organizou um painel de discussão sobre como a sociedade civil pode verificar se os governos cumprem suas promessas referentes aos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM). Os problemas de água e saneamento são fundamentais para a África, bem como a alta de preços dos alimentos. Na Declaração do Mundo que Queremos, o GCAP coordenou uma visão combinada da sociedade civil para nossa luta contra a pobreza e em defesa de um mundo justo, que implica acabar com a violência contra mulheres e crianças e pôr fim à mortalidade materna e infantil.

IPS: Quais são os desafios atuais doGCAP?

SB: A organização teve uma forte presença na cúpula da ONU sobre os ODM, em setembro de 2010, e organizou sua Assembleia Global, que terminou com um ambicioso plano estratégico. O desafio agora é implementar o vasto plano do Mundo que Queremos, organizar o que deve ser feito em cada país e, por meio de organizações, forjar alianças suficientes para conseguir fundos a fim de atingir tal objetivo, em um contexto de falta de recursos econômicos.

IPS: Acredita que o Imposto sobre Transações Financeiras (ITF), defendido pelo GCAP, consiga reduzir a pobreza no mundo?

SB: Pode ser uma excelente ferramenta para gerar mais fundos a fim de aliviar a pobreza, melhorar a educação e a saúde, e criar empregos. Por si só, o ITF não resolverá nada. Também devem ser detidos o comércio injusto, os produtos agrícolas subsidiados, a violência contra as mulheres, as emissões de dióxido de carbono, entre outros problemas. Também devem ser distribuídas muitas coisas com maior justiça, como terra, água, educação, saúde, energia, empregos, e alcançada uma maior transformação de processos democráticos em muitos países pobres e ricos, e na relação entre o ser humano e o meio ambiente e entre mulheres e homens. Envolverde/IPS

Cléo Fatoorehchi

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