ÁFRICA AUSTRAL: Conseguir água potável para mais nm milhão de pessoas

WINDHOEK, 21/02/2011 – Longos anos de conflito armado causaram entraves ao desenvolvimento em ambos os lados da fronteira de Angola e da Namíbia. Agora, obras no valor de 45 milhões de doláres, visando o melhoramento de infra-estruturas, deverão melhorar o acesso a água potável e a saneamento adequado para um milhão de pessoas. A maior parte das pessoas nesta zona de conflito não tem acesso adequado a água potável e a saneamento. O sistema de abastecimento de água existente – várias centenas de quilómetros de canalização e um canal aberto – foi danificado devido a décadas de guerra civil e à extracção ilegal de água.

“Durante muitos anos, a área em redor da barragem de Calueque em Angola foi palco de guerras entre o governo e diversos movimentos de guerrilha,” afirma o co-presidente do Projecto Transfronteiriço de Abastecimento de Água do Kunene, Dr. Kuiri Tjipangandjara, da Empresa de Abastecimento de Água da Namíbia, a Namwater.

“Construir um projecto destes numa zona pós-conflito é uma situação especial e extremamente exigente. Ainda mais porque este projecto éo único deste tipo na região e, portanto, não temos um modelo de referência.”

O sistema atravessa a barragem de Calueque no sul de Angola até ao centro comercial de Oshakati,no norte da Namíbia, regressando novamente a Angola até àcidade de Ondjiva.

A extracção de água do Rio Cunene em Angola é vital para a zona fronteiriça árida e fornece água para a agricultura e alguma indústria e ainda para consumo doméstico para mais de um milhão de pessoas.

O abastecimento de água no lado angolano ainda retém as cicatrizes de uma guerra civil devastadora e o seu passado colonial.

“Durante a ocupação portuguesa, escavavam-se buracos com 50 por 60 metros para captar as águas das cheias. Estes buracos, denominados chimpacas, continuam a ser a principal fonte de água para a população,” afirma Thomas Kellner, assessor técnico da GIZ (Cooperação Internacional Alemã), que vai ajudar os engenheiros locais na remodelação.

Mas estas lagoas estãolonge de ser seguras.

“O gado bebe água nas chimpacas mas a 25 metros de distância vêem-se pessoas a tomar banho e a lavar roupa nessa água enquanto que, do outro lado, as pessoas extraiem água para beber. A água tem uma cor castanho-avermelhada mas, vários meses depois da época das chuvas, a água fica verde, porque está cheia de algas.”

Esta região de Angola não tem água canalizada nem estações de tratamento de águas residuais ou sistemas de esgotos. Embora os níveis de doenças transmitidas pela água não estejam bem documentados, os especialistas sublinham que a mortalidade infantil é bastante superior à média africana.

Nas poucas cidades da região, a situação não é muito melhor, diz Kellner. “Uma pessoa com um poço pode fazer dinheiro. Vai conduzindo um autotanque e vende a água a 20 doláres por metro cúbico.

Nalgumas áreas, as autoridades locais exploram os campos de poços – um conjunto de poços – de onde bombeiam água para tanques públicos.

Mas muitos dos poços estão velhos e delapidados. Angola iniciou um programa designado ‘Água Para Todos’, cujo objectivo é a reabilitação de 524 poços na província do Cunene e a perfuração de mais de 600 novos poços.

Na Namíbia, a água do Calueque corre por um canal aberto de 150 quilómetros desde a fronteira angolana até Oshakati, onde é tratada e bombeada em rede para todas as principais comunidades entre Oshakati e para o posto fronteiriço de Oshikango. O canal é a única fonte de água potável para mais de 700.000 pessoas e, muitas vezes, é danificado pelas cheias e pela extracção ilegal.

Muitas pessoas ao longo do canal usam a água para fins domésticos ou para irrigar os campos,” explica o especialista de gestão de recursos hídricos, Andreas Shilomboleni, que dirige um projecto financiado pelo Fundo Mundial para o Meio Ambiente Global, que ajuda os agricultores da zona a adaptarem-se às alterações climáticas.

“Mas actualmente o canal está aberto. Isso quer dizer que, quanto mais longe se estiver da nascente, maior será a quantidade dos sólidos dissolvidos totais, o que basicamente significa que a água está mais suja.”

A rota seguida pela vala de dois metros revestida de betão não é ideal.

“Na Namíbia, o canal não é perpendicular ao fluxo da água na época das chuvas. As águas das cheias causam estragos no canal, traduzindo-se em problemas de manutenção,” diz Shilomboleni. O canal rapidamente se enche com sedimentos quando as águas das cheias o atravessam.

Ao longo do canal as pessoas habituaram-se a extrair água ilegalmente para consumo doméstico e irrigação.

Estes são alguns dos muitos desafios que o Projecto Transfronteiriço de Abastecimento de Água do Kunene terá de levar em consideração quando iniciar a renovação completa das infra-estruturas hídricas na zona fronteiriça.

O projecto envolve reparações substanciais das infra-estruturas na barragem e nas condutas, o melhoramento do abastecimento de energia eléctrica para os motores que bombeiam a água para o sul e a remodelação das próprias bombas. Construir-se-ão condutas adicionais para fornecer água potável a Ondjiva e edificar-se-ão novas linhas de transmissão de energia ao longo de muitas centenas de quilómetros para alimentar as novas instalações de bombas.

“Pela primeira vez, cerca de 300.000 pessoas no sul de Angola vão ter acesso a água potável segura,” diz Kellner.

O passo final será a substituição do canal aberto na Namíbia por uma conduta. Um estudo de viabilidade sobre este projecto – que, segundo Kellner, irá custar 100 milhões de doláres –provavelmente terá início ainda este ano.

Servaas van den Bosch

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