WINDHOEK, 21/02/2011 – Uma década depois de fortes inundações terem causado grandes estragos na África Austral, a região está mais bem preparada para monitorizar e responder às cheias sazonais. Esta situação deve-se tanto à força crescente das instituições transfronteiriças como ao aperfeiçoamento técnico. Os níveis das águas durante a época das cheias este ano na África Austral provavelmente irão ultrapassar os das inundações desastrosas de 2000.
Nesse ano, a capital moçambicana, Maputo, foi inundada, as margens do Limpopo transbordaram e cerca de 40.000 pessoas tiverem de ser salvas. As inundações foram agravadas por doenças transmitidas pela água e por um ciclone tropical. As autoridades da região foram criticadas por não terem antecipado que áreas seriam mais afectadas e também pela fraca e lenta resposta à crise, que custou 800 vidas.
Sistema de alerta em todas as bacias hidrográficas
Uma resposta aos desastres de 2000 assentou no fortalecimento dos sistemas de alerta nas numerosas bacias hidrográficas da região.
Desenvolveu-se um sistema de alerta precoce avançado para a região. O Sistema de Observação do Ciclo Hidrológico da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC-HYCOS) teve por objectivo estabelecer 128 estações metereológicas, que transmitem informações atempadas e precisas para um satélite. Um instituto alemão de investigação devia descodificar essas informações e colocá-las num sítio Web – informações essas que deviam aparecer num sítio da responsabilidade do Departamento dos Assuntos Hídricos da África do Sul.
“A ideia do HYCOS era que todas as estações transmitissem em tempo real para a mesma base de dados de forma a poder ser usada para prever as inundações,” disse Guido van Langenhove, o principal hidrólogo da Namíbia. Mas, embora alguns países como a Namibia e a África do Sul, tenham montado eles próprios parte do sistema, o HYCOS parece ter-se tornado num elefante branco molhado.”
De acordo com o Departamento dos Assuntos Hídricos da África do Sul (DWAF), foram instaladas 108 das projectadas 128 estações – custando 10.000 doláres cada uma. Mas só uma em cinco actualmente transmite informações seguras.
“Não há estações operacionais no norte da Namíbia.” disse van Langenhove. Contudo, de acordo com o Departamento dos Assuntos Hídricos da África do Sul, Angola e Zâmbia deviam ter 17 estações de monitorização automatizadas.”
“Foi um desperdício de dinheiro,” declarou Langenhove. “Muito equipamento electrónico foi abandonado, não houve reforço de capacidades nem formação de técnicos. Por vezes as estações funcionavam durante uma semana, outras vezes durante um ano. Quando avariavam não havia ninguém que as arranjasse. Ou então funcionavam mal e davam informações erradas. A Namíbia tinha nove estações mas nenhuma delas funcionava; tivemos de as arranjar nós próprios.”
Ele calcula que o projecto tenha custado 4 milhões de doláres. O seu patrocinador, o governo holândes, abandonou o projecto. O escritório do SADC-HYCOS em Pretória foi desmantelado, estando o projecto actualmente suspenso.
Gestão de água sem fronteiras
“O HYCOS não está a funcionar da melhor forma,” afirmou Phera Ramoeli, engenheiro chefe da Divisão de Recursos Hídricos da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral. “Algumas estações foram afectadas pelas inundações e as informações podem estar erradas. O projecto também se atrasou porque tivemos de mudar os sistemas da base de dados depois de um dos sistemas do Reino Unido se ter tornado obsoleto.”
O futuro do HYCOS é incerto, mas os países parecem estar a monitorizar as inundações em conjunto na região com base na crescente qualidade dos seus recursos humanos.
A montante do Rio Zambezi, funcionários zambianos responsáveis pelos recursos hídricos medem o nível deste poderoso rio e enviam os resultados por via telefónica para a capital, Lusaka. A partir de Lusaka, a informação é enviada por correio electrónico para os departamentos de recursos hídricos de outros países.
“Isto dá-nos duas semanas de aviso,” afirmou van Langenhove. “Começámos a fazê-lo depois de 2008, altura em que vastas regiões no norte da Namábia ficaram inundadas sem qualquer aviso.”
No Rio Kavango, os hidrólogos namibianos fazem o mesmo para os seus colegas Batswana que trabalham no delta do Okavango. Em toda a região, existem sistemas ad hoc semelhantes. “É um pouco informal mas funciona,” disse van Langenhove.
O sistema constitui a prova de que se estabeleceram relações entre colegas e que elas se mantiveram em parte devido às organizações das bacias hidrográficas que foram criadas por toda a região na última década, afirmou Ramoeli.
“A cooperação entre os países está a melhorar. Há dez anos, as organizações das bacias hidrográficas eram uma raridade. Agora temos bacias como a ORASECOM e a OKACOM, onde protocolos sobre a utilização fluvial foram acordados entre diferentes Estados.
Organizações das bacias hidrográficas
A ORASECOM – a Comissão do Rio Orange-Senqu – e a OKACOM – a Comissão Permanente das Águas da Bacia do Okavango – são duas das mais consolidadas organizações das bacias hidrográficas, facilitando a partilha de informação a nível regional, entre outras funções.
“Especialistas de países diferentes efectuam estudos conjuntos que conduzem a um melhor entendimento da bacia como um todo. Mesmo quando não há qualquer organização formal responsável pelas bacias hidrográficas, verificamos que os hidrólogos partilham informações através de correio electrónico. Por isso, tem havido importantes desenvolvimentos neste domínio,” afirmou Ramoeli.
“Nos últimos dez anos, as organizações das bacias hidrográficas ficaram com uma percepção mais profunda sobre o que acontece nas bacias,” disse Peter Pyke, engenheiro chefe do Departamento dos Assuntos Hídricos da África do Sul, que está intimamente ligado à ORASECOM. O Rio Orange, que corre das terras altas do Lesoto até ao Oceano Atlântico na fronteira entre a África do Sul e a Namíbia, é um dos rios que está actualmente inundado.
As inundações estão aqui para ficar, afirmou Pyke. “Neste momento, a informação a montante não é fiável. Se alguma inundação vier por aí abaixo, será difícil controlar a situação. Há um número demasiado reduzido de estações que indicam o nível das águas e pode facilmente desenvolver-se uma cheia na zona intermédia.”
“Não é suficiente saber a quantidade de chuva que caiu a montante. E também não se podem abrir as comportas só por se pensar que vai haver uma cheia. E se não aparecer? Aí não haverá água durante a estação seca.”
Segundo Pyke, a África do Sul desenvolveu modelos de gestão de recursos hídricos que partilha com as outras bacias hidrográficas da região. “Estes modelos ajudam a prever o que é que está a acontecer na bacia.”
Estas previsões podem ajudar as autoridades a planear a sua actuação no caso de haver qualquer iminência de inundações.
“Devido ao nosso ambiente árido, nunca poderemos eliminar completamente as cheias. As autoridades responsáveis pelos recursos hídricos na região terão sempre de encontrar um equilíbrio entre manter as barragens o mais cheias possível durante a estação seca ou permitir o escoamento da água.”
“O controlo efectivo das inundações pode manter as barragens tão vazias quanto possível. Mas isso não é uma opção visto que, no final das inundações, precisamos de ter as barragens cheias. Por isso, temos de gerir o escoamento cuidadosamente, usando as diversas barragens para nivelar as enchentes de água e evitar que elas se transformem em enormes inundações.”

