DESENVOLVIMENTO: O BRIC promete pouco aos países africanos

Windhoek, Namíbia, 04/02/2011 – A África do Sul conseguiu o cobiçado ingresso no bloco BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China) promovendo-se como uma porta de entrada para a África, mas vários analistas duvidam que este passo implique benefícios reais para os países pobres do resto do continente.

Logotipos de empresas sul-africanas em um supermercado de Windhoek, Namíbia. - Servaas van den Bosch/IPS

Logotipos de empresas sul-africanas em um supermercado de Windhoek, Namíbia. - Servaas van den Bosch/IPS

Seja visto como um presente de Natal da China ou como uma vitória diplomática da África do Sul, o convite para integrar o BRIC em abril fez as atenções se voltarem para esta potência emergente. E os analistas questionam, inclusive, se o rótulo – de potência emergente – é justificado.

Com um produto interno bruto nominal de US$ 286 bilhões, a África do Sul se vê ofuscada por Brasil (US$ 2 trilhões), Índia (US$ 2 trilhões), Rússia (US$ 1,6 trilhão) e China (US$ 5,5 trilhões). Além disso, os 50 milhões de habitantes da África do Sul parecem insignificantes ao lado dos 1,3 bilhão da China e 1,2 bilhão da Índia. Em termos de crescimento, a capacidade elétrica da África registrou magros 3% no ano passado, contra 10,5% da China.

Muito se fala a respeito da posição da África do Sul como porta de entrada para a Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC), contando com cerca de 250 milhões de consumidores, e para o mercado africano em sua totalidade, cujas projeções indicam que aumentará para dois bilhões de pessoas nas próximas duas décadas.

No final de janeiro, o ministro de Comércio e Indústria da África do Sul, Rob Davies, defendeu a entrada do país no BRIC segundo estes parâmetros durante o Fórum Econômico Mundial de Davos: “O continente africano é a próxima grande história econômica. Somos bastante pequenos, mas quando olhamos o continente africano em seu conjunto os números começam a somar”.

O ingresso da África do Sul também refletirá uma campanha geopolítica da China para criar um eixo no Sul e aumentar o peso da reforma do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas, do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial para refletir a crescente importância das potências emergentes. Entretanto, o que o BRIC pode levar à região (excetuando a África do Sul), considerando que a maior parte do continente está presa no status de países menos adiantados? Muito pouco, inclusive no melhor dos cenários, disseram à IPS vários críticos em matéria de comércio.

“Nesta etapa parece ser mais uma campanha política do que econômica”, disse o analista comercial independente Wallie Roux, da Namíbia, país que atualmente preside o SADC. “O BRIC é o veículo para a recuperação econômica mundial, e como tal coloca a África do Sul no centro das atenções, mas não espero que isso signifique nada para os demais países africanos no médio ou curto prazo”, acrescentou.

No pior dos casos, o BRIC frustrará ainda mais o problemático acesso da integração regional na SADC e na África, afirmaram os analistas. “Na região há uma obsessão constante em conectar-se com a economia mundial e aderir a uma agenda neoliberal de ‘livre comércio’”, disse a especialista sul-africana Michelle Pressend. “Isto reflete o enfoque linear que a SADC deu à integração regional. A África do Sul pertencer ao BRIC, com sua ênfase no acesso ao mercado regional, é exemplo disto”, acrescentou.

“A maioria dos países da SADC tem economia baseada em um único recurso, com bases industriais muito pequenas. A África do Sul acredita nas normas do comércio liberalizado, como redução das tarifas alfandegárias e flexibilização das regulações sobre o controle de capitais. O próprio BRIC nem sempre se guiou necessariamente por estas regras e procura centrar-se mais em primeiro construir suas próprias economias”, disse Michelle.

Sua conclusão é que o acesso da África do Sul ao BRIC pode impulsionar uma campanha maior rumo ao acesso ao mercado (desta vez dos demais membros do bloco), que não necessariamente seja do interesse de países que ainda têm de construir suas bases industriais. Isto pode fazer com que continuem sendo economias dependentes da exportação de matérias-primas.

Sanusha Naidu, do programa Potências Emergentes na África, da rede de comunicações Fahamu, tem um ponto de vista semelhante. “A maioria das pessoas não se dá conta de que, ao integrar-se ao BRIC, a África do Sul oferece uma associação estratégica para os investidores destes países, que, não necessariamente, possuem o senso comum de fazer negócios no continente, nem querem assumir todos os riscos que isso representa. Conectar-se com a capital sul-africana pode proporcionar a virada que estão buscando”, afirmou.

Por meio deste tipo de aliança, o BRIC facilitará um maior fluxo de capital sul-africano no continente. Segundo Sanusha, “vai ampliar a presença das corporações sul-africanas na região e incluir mais a agenda de comércio e investimentos da capital sul-africana”. Isto pode somar-se às tensões diplomáticas, devido ao polêmico status hegemônico da África do Sul na região, disse o analista sul-africano Dot Keet.

“A África do Sul se posiciona fortemente como uma porta de entrada para a África e um facilitador do comércio. No entanto, a região não necessariamente se identifica com esta posição. Atualmente, os países perseguem uma agenda dupla, que implica beneficiar-se do poder da África e enfrentá-lo, o que frequentemente deriva em políticas comerciais inconsistentes”, acrescentou Dot.

Segundo Siphamandla Zondi, diretor do sul-africano Instituto para o Diálogo Mundial, o BRIC beneficiará a região apenas de uma maneira marginal. “Haverá maior diversidade nos investimento e o BRIC também oferecerá maiores mercados de consumo para a pequena indústria africana. Finalmente, poderá introduzir significativas correntes turísticas de países que não sejam Estados Unidos ou da Europa ocidental. Em termos gerais, os benefícios para o BRIC serão mais amplos do que para os países africanos”, afirmou. Envolverde/IPS

Servaas van den Bosch

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