Greves desafiam os militares no Egito

Cairo, Egito, 18/02/2011 – Uma onda de greves em todo o Egito coloca à prova o governo de transição administrado pelos militares.

Grande parte da fúria popular no Egito nasceu em demandas trabalhistas. - Mohammed Omer/IPS

Grande parte da fúria popular no Egito nasceu em demandas trabalhistas. - Mohammed Omer/IPS

A queda do presidente Hosni Mubarak deu novo impulso ao movimento de trabalhadores, que esteve sob rígido controle das autoridades por quase seis décadas. Insatisfeitos com seus escassos salários, as más condições de trabalho e a corrupção, os trabalhadores foram às ruas em várias cidades.

“Nossa revolução não está completa”, disse o ativista pelos direitos trabalhistas Kareem El-Beheiry. “Ainda estamos sob controle do mesmo Exército e governo de antes, e ainda se negam a reconhecer nossos direitos. Se não podem acertar as coisas agora, então devem nos dizer quando. No entanto, querem nos obrigar a parar com os protestos”, acrescentou.

Dezenas de greves foram registradas no país desde o dia 9, dois dias antes de Mubarak ceder o poder ao Conselho Supremo das Forças Armadas. Dos protestos participaram cerca de 50 mil trabalhadores, incluindo pessoal dos setores bancário, público, petroleiro, médico, têxtil e de transporte. “A instabilidade trabalhista vem sendo gerada há algum tempo, pelo menos desde 2006”, disse Ali El Mahdi, decano da Faculdade de Economia e Ciência Política na Universidade do Cairo. “A Revolução de 25 de Janeiro fez as pessoas se envolverem mais e lhes deu força para exigirem seus direitos”, completou.

Os trabalhadores exigem o pagamento de benefícios pendentes e iguais oportunidades para progredirem, como também o julgamento de funcionários corruptos. No entanto, no centro do conflito, segundo Ali, está a grande disparidade econômica entre os empresários e seus empregados, alguns com salários inferiores a US$ 30 por mês. “Há uma profunda brecha salarial em muitas instituições”, disse Ali à IPS. “As diferenças nos salários são espantosas”, ressaltou.

Após anos de letargia, o Conselho Nacional para os Salários anunciou, em outubro do ano passado, que aumentaria o salário mínimo de US$ 20 para US$ 70 mensais. Este salário está abaixo da linha de pobreza reconhecida pela Organização das Nações Unidas, de US$ 2 diários e muito longe dos US$ 200 mensais exigidos pelos trabalhadores. “Ninguém representou os trabalhadores nessas negociações”, disse Kareem.

A última onda de protestos trabalhistas claramente preocupou o vice-presidente Omar Suleiman, que ameaçou com duras medidas para desestimular a desobediência civil. Contudo, teve que renunciar junto com Mubarak antes que pudesse cumprir suas ameaças. Agora, tudo está nas mãos dos militares. Em sua primeira semana de governo, o Conselho Supremo exortou os trabalhadores a retornarem às suas atividades e apelou ao senso de dever nacional. Mas não proibiu as greves, como muitos esperavam.

“As Forças Armadas chamam os honrados egípcios a reconhecerem que os atuais protestos nesse tempo crítico terão consequências negativas e prejudicarão a economia do país”, afirmaram os militares em um documento lido na televisão estatal. “Os militares enfrentam um dilema”, disse Mohamed Ezzat, de 28 anos, que participou das manifestações na Praça Tahrir, no Cairo, na semana passada. “Se permitem as greves, arriscam-se a uma deterioração maior da economia, mas se as reprimem, expõem-se a outro levante popular”, afirmou.

Muitos egípcios dizem que a administração interina não pode ser responsabilizada pelas políticas e pelos problemas herdados dos 30 anos de governo de Mubarak. Outros afirmam que se trata do gabinete designado por Mubarak pouco antes de renunciar que deve resolver os problemas econômicos, e destacam que as soluções são conhecidas por todos, mas o governo tenta manter o status quo. Até agora, o governo administrado pelos militares respondeu de forma seletiva aos trabalhadores, atendendo as demandas em alguns setores e em outros não.

“A instabilidade trabalhista é um desafio, não só para o Exército, como também para o governo, que tenta enfrentar as greves pouco a pouco”, disse Ali. “É necessária uma estratégia ou uma agenda para reestruturar os salários ou todas as manifestações se propagarão”, alertou. As greves também chegaram à cidade de Mahalla El-Kubra, no delta do Rio Nilo, onde mais de 20 mil trabalhadores têxteis exigem melhores salários e a investigação de supostos atos de corrupção na fábrica.

A greve nessa cidade é significativa. Foi em Mahalla El-Kubra que há três anos trabalhadores têxteis responsabilizaram publicamente o regime de Mubarak por sua situação econômica e ganharam solidariedade do público. Em abril de 2008, protestos nessa cidade foram duramente reprimidos, mas finalmente o governo fez concessões aos trabalhadores. Ali nasceu o Movimento Juvenil 6 de Abril, chave nas revoltas que tiraram Mubarak do poder. Envolverde/IPS

Cam McGrath

Cam McGrath is a Cairo-based correspondent. He joined IPS in 2001 and reports on politics, human rights and environmental issues in Egypt and the Arab world.

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