Washington, Estados Unidos, 18/02/2011 – A revolução no Egito parece ter fortalecido o discurso dos Estados Unidos contra o Irã. Após os protestos que levaram à queda do regime de Hosni Mubarak, o presidente Barack Obama e a secretária de Estado, Hillary Clinton, redobraram suas críticas ao regime de Teerã. Por outro lado, a Voz da América (VOA), o serviço de rádio e televisão internacional norte-americano, contratou um especialista em diplomacia para dirigir suas transmissões destinadas ao território iraniano.
Karim Sadjadpour, especialista em Irã da Fundação Carnegie para a Paz Internacional, disse que Obama não foi mais enérgico em suas declarações de 2009 – quando houve protestos em Teerã pelos resultados das eleições presidenciais – porque “ainda tinha a esperança de um acordo nuclear com o Irã. Creio que hoje a Casa Branca chegou à conclusão de que não pode alcançar uma convivência com o regime”.
Duas rodadas de conversações entre Irã, Estados Unidos e outros membros permanentes do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas, mais a Alemanha, terminaram no mês passado sem progressos. Os protestos populares que eclodiram na Tunísia se propagaram para o Egito, distraindo a atenção mundial, antes mais focada no programa de desenvolvimento nuclear iraniano. Oficialmente, a política de Washington para Teerã não é de uma “mudança de regime”, mas de uma “mudança na política do regime”. Porém, houve uma clara modificação no discurso nos últimos dias.
Em uma série de entrevistas, no dia 14, enquanto manifestantes iranianos voltavam a sair às ruas em protesto, Hillary Clinton chamou de “hipócrita” o regime do Irã por elogiar as revoltas árabes enquanto reprimia as que aconteciam em seu território. “Comparemos o que ocorreu no Egito com o que acontece agora no Irã, onde novamente o governo reprime, usando a violência contra o povo que está expressando os mesmos desejos que ouvimos no Egito”, disse Hillary à rede pan-árabe Al Jazeera.
“Considero muito paradoxal que o Irã esteja tentado a dar lições de democracia a quem quer que seja”, disse ao Al Hurra, um canal árabe via satélite apoiado por Washington. “Os manifestantes tentam fazer ouvir suas vozes e são brutalmente reprimidos pelas forças de segurança. Não creio que alguém no Oriente Médio, ou mesmo no mundo, veja o Irã como um exemplo”, acrescentou.
No dia 15, em um discurso sobre liberdade na Internet, Hillary qualificou de “péssimo” o governo iraniano, e disse que “rotineiramente viola os direitos de seu povo”. Além disso, anunciou que o Departamento de Estado investiria US$ 25 milhões este ano em projetos para incrementar o acesso à Internet no Irã e em outras partes. “É um paradoxo o regime iraniano comemorar o ocorrido no Egito quando, de fato, agiu de forma oposta, disparando e espancando as pessoas que tentavam se expressar pacificamente”, disse Obama em entrevista coletiva no mesmo dia.
Os órgãos de comunicação iranianos, que inicialmente comemoraram os levantes na Tunísia e no Egito, foram mudando de tom quando ficou evidente que as manifestações não eram lideradas por islâmicos, mas por um amplo espectro de grupos, e que poderiam se propagar a outros países, incluindo o Irã. O jornal iraniano Kayhan publicou um editorial no dia 14 dizendo que o Exército egípcio, que assumiu o controle desse país após a renúncia de Mubarak, “montou um preciso cenário cujo dramaturgo era os Estados Unidos. O Exército foi instruído a sequestrar a revolução popular e obstruir a soberania, a liberdade e o islamismo”.
O governo Obama se esforça para encontrar vias para comunicar seu apoio aos manifestantes iranianos sem dar argumentos a Teerã para atribuir os protestos à interferência estrangeira. As transmissões da Rede Persa de Notícias (PNN), o serviço nesse idioma da VOA, são um componente dessa estratégia. No dia 14, Ramin Asgard, diplomata iraniano-norte-americano e ex-assessor do Comando Central das Forças Armadas, assumiu o comando da PNN. Diretores da VOA disseram que é a primeira vez desde a Guerra Fria que um funcionário que não é jornalista assume um posto tão importante nesse meio de comunicação financiado pelo governo.
A administração da VOA teve dificuldades para encontrar a pessoa correta para dirigir o serviço. Membros do Congresso, bem como iranianos dissidentes, se queixaram que a PNN é muito crítica da política externa norte-americana e que se ajusta à postura de Teerã. Ramin Asgard, que até agora dirigia um escritório de acompanhamento do Irã nos Emirados Árabes Unidos, não se candidatou ao cargo, que lhe foi oferecido depois que vários outros o rejeitaram, informou uma fonte próxima ao processo de escolha. Envolverde/IPS

