MULHERES-ITÁLIA: Por trás do escândalo, a discriminação

Roma, Itália, 15/02/2011 – Ativistas italianas estão decididas a colocar no centro da agenda pública a falta de oportunidades que sofrem as mulheres e os verdadeiros problemas que as afetam, aproveitando os últimos escândalos sexuais protagonizados pelo primeiro-ministro, Silvio Berlusconi.

Italianas defendem seus direitos em uma grande manifestação no dia 13 de fevereiro. - Sabina Zaccaro/IPS

Italianas defendem seus direitos em uma grande manifestação no dia 13 de fevereiro. - Sabina Zaccaro/IPS

Cerca de um milhão de mulheres, que protestaram, no dia 13, em 280 cidades italianas e outras 28 no exterior, reclamaram ações contra Berlusconi, após várias semanas de intensos debates sobre acusações contra o chefe de governo pagar várias jovens para manterem relações sexuais com ele, entre elas uma adolescente marroquina de 17 anos sem ter documentos em dia. Na Itália, a idade mínima para manter relações sexuais consensuais é de 14 anos, mas é ilegal a prostituição de menores de 18 anos.

Aparentemente, a adolescente marroquina é uma das jovens prostituas com as quais Berlusconi costuma manter relações. O primeiro-ministro também é acusado de abuso de poder e de ter ordenado à polícia, pessoalmente, que libertasse a jovem, detida por roubo. Berlusconi nega as acusações. Um juiz decidirá esta semana sobre a possibilidade de haver um julgamento nos próximos meses.

“Se uma mulher perde o emprego, é uma perda para todas nós”, disse à IPS a presidente da União Italiana de Mulheres, Pina Nuzzo. “Enquanto os políticos e os meios de comunicação ficam obcecados com as notícias do dia a dia, as trabalhadoras estão sozinhas e vulneráveis às chantagens”, ressaltou. O emprego feminino é considerado um tema menor, lamentou Pina. “O pensamento comum é que, devido à crise econômica, é menos grave demitir uma mulher. Para as jovens que não optam pelo atalho sexual, continua sendo difícil conseguir trabalho porque são mães em potencial, o que desanima os empregadores. Nesse sentido, emprego seguro é igual a esterilidade”, afirmou.

A televisão, especialmente a rede pertencente a Berlusconi, difunde os piores estereótipos femininos e contribui para a representação de mulheres como bens de troca, tanto nesse espaço quanto na política, acrescentou Pina. As manifestantes também denunciaram a “indecente e repetitiva representação das mulheres como objetos de intercâmbio sexual nos jornais, na TV e na publicidade”. Para a eurodeputada Silvia Costa, “a imagem das mulheres nos meios de comunicação alcançou seu ponto mais baixo. A atitude, que chamamos de berlusconismo, pode sobreviver ao próprio Berlusconi se não enfrentarmos o fato de que os verdadeiros problemas das italianas estão fora do debate público”, alertou.

“Agora se discute, no Parlamento Europeu, pensões, condições de emprego para as mulheres, o impacto da crise econômica na força de trabalho feminina, políticas de apoio familiar, etc.”, disse Pina. “Nada disto está na agenda política e nem na dos meios de comunicação italianos. Na Itália, os problemas das mulheres verdadeiras estão censurados”, ressaltou.

A mensagem do último escândalo é que a forma mais fácil de uma mulher ter sucesso na Itália é vender seu corpo para homens ricos e poderosos, destacaram organizações femininas. Uma das moças investigadas, Sara Tommasi, disse em uma entrevista que seus estudos em uma renomada universidade italiana foram uma “perda de tempo. Uma mulher não precisa de diploma para ter sucesso, meu corpo é minha empresa”, afirmou. “Em um país onde uma em cada duas mulheres não trabalha e onde a disparidade econômica com os homens ainda é enorme, o corpo aparece como um atalho viável”, disse à IPS a jornalista Loredana Lipperini.

“Não se trata de moças boas contra moças más. Não censuro esse comportamento, pois lutamos pela liberdade sexual”, insistiu Loredana. “Contudo, a liberdade de escolha é possível quando se pode optar entre várias possibilidades, quando se tem alternativa”, prosseguiu. Berlusconi cruzou muitas vezes a linha entre o espetáculo e a política ao designar figuras femininas da televisão como candidatas ao Parlamento Europeu.

“As manifestantes não são moralistas que condenam o comportamento privado do primeiro-ministro ou das mulheres com quem ele convive”, disse Giulia Bongiorno, advogada e presidente da Comissão de Justiça da Câmara Baixa. “O verdadeiro assunto é que não está certo escolher dirigentes em uma festa”, acrescentou.

E os homens também se uniram aos protestos. Massimo Canino, de 54 anos, disse à IPS que protestava contra “a ideia de que tudo e todo mundo pode ser comprado. Preocupa-me esse tipo de cultura e creio que mais homens deveriam ter a coragem de dizer que não concordam sem se sentirem menos viris por isso. Todos nos sentimos humilhados por essa atitude, mulheres e homens”.

Segundo o Instituto Nacional de Estatística, 46% da população ativa feminina está empregada, bem menos que a média de outros países europeus, de 59%. O Índice da Brecha de Gênero do Fórum Econômico Mundial de 2010 colocou a Itália em 74º lugar entre 134 países, seguida de Hungria, Malta e Chipre, entre os países da União Europeia. Menos de 10% das crianças podem frequentar um jardim de infância e 27% das mulheres deixam o trabalho após terem o primeiro filho por falta de creches, ajuda familiar ou oferta de emprego de meio período. Envolverde/IPS

Sabina Zaccaro

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