Democracia hostil ou autoritários amigos?

Nova York, Estados Unidos, 04/02/2011 – A distinção entre regimes “autoritários” e “amigos” de direita e as ditaduras “totalitárias” e “hostis” de esquerda, que no passado fez Jeanne Kirkpatrick, ex-representante dos Estados Unidos junto à Organização das Nações Unidas (ONU), parece que continua vigente neste país quando se trata de propagar a democracia. Washington critica governantes que, a seu ver, encabeçam regimes autoritários com Robert Mugabe, do Zimbábue; general Than Shwe, da Birmânia; Saddam Hussein, do Iraque; Fidel Castro, de Cuba e, nos últimos tempos, o presidente da Bielorússia, Aleksandr Lukashenko.

No entanto, apoia vários outros governos autoritários, a maioria do Oriente Médio, acusados de manter leis de emergência, deter dissidentes, reprimir a imprensa, torturar presos políticos e fraudar eleições. Os Estados Unidos não têm escrúpulos em apoiar países que são claramente monarquias fortes e regimes autoritários, como Arábia Saudita, Egito, Jordânia, Kuwait, Marrocos, Tunísia e Iêmen, por razões políticas, econômicas ou estratégicas. O vinculo entre Washington e alguns governos do Oriente Médio parece ser principalmente militar.

“Os Estados Unidos estão prontos para pregar a democracia no mundo”, disse um diplomata asiático. “Contudo, quando há protestos pacíficos pedindo democracia, como os do Egito, o gás lacrimogêneo e os caminhões lança-água utilizados contra os manifestantes, invariavelmente, foram fabricados neste país ou em outro do Ocidente”, acrescentou.

Há mais de três décadas, Egito e Israel assinaram, em setembro de 1978, o acordo de paz de Camp David. “Infelizmente, um dos preços a pagar pelo tratado é um acordo pelo qual Washington se compromete a fornecer assistência militar aos dois países”, disse Natalie J. Goldring, do Centro de Estudos para a Segurança e a Paz, da Faculdade de Serviço Estrangeiro Edmund A. Walsh, na Universidade de Georgetown. A instabilidade social e política no Egito destaca a importância de se pensar nas consequências de longo prazo da venda de armas, acrescentou.

“Muitas vezes, os destinatários das armas norte-americanas são regimes autocráticos que não são dignos do compromisso” que elas exigem, disse Natalie à IPS. É desconcertante saber que gases lacrimogêneo norte-americanos são utilizados contra os manifestantes. “Mas, não surpreende”, afirmou.

O governo do Egito deve manter a lei e a ordem e proteger a vida, a liberdade e a segurança da população, disse Navi Pillay, alta comissária dos Direitos Humanos da ONU, ao criticar a repressão às manifestações. “Fui informada desde o início dos protestos de rua que a polícia reprimiu os manifestantes com balas de borracha, gás lacrimogêneo, caminhão lança-água e cassetetes, e que deteve mais de mil pessoas, incluindo integrantes da oposição”, lamentou.

Desde os acordos de Camp David, o Egito recebeu mais de US$ 35 bilhões em assistência dos Estados Unidos, a maior parte em fundos militares, sem obrigação de devolução. Washington comprometeu US$ 1,3 bilhão de fundos militares ao estrangeiro para este ano, US$ 250 mil em apoio econômico e US$ 1,4 milhão para capacitação e educação militar internacional.

Na Justificativa do Orçamento para o Congresso deste ano, o Departamento de Estado disse que “os Estados Unidos se beneficiam prática e politicamente de sua relação estratégica com o Egito e do vasto apoio que lhe proporciona para dissuadir e contrapor-se às ameaças à segurança”. Esse valor inclui o fornecimento de apoio logístico às tarefas militares dos Estados Unidos no Afeganistão e no Iraque. Ironicamente, Washington também se comprometeu a manter os programas de capacitação policial para promover os direitos humanos e as práticas comunitárias como formas de transformar a maneira de exercer a autoridade.

No dia 1º, Navi lamentou o grande número de vítimas no Egito e disse que há denúncias não confirmadas de que cerca de 300 pessoas morreram, mais de três mil ficaram feridas e centenas foram detidas. Também cobrou das autoridades egípcias que assegurem que a polícia e outras forças de segurança não façam uso excessivo da força, e, ainda, que sejam evitadas as detenções arbitrárias de pessoas por expressarem suas opiniões políticas. “O fato de o governo egípcio manter a lei de emergência por 30 anos é um sinal de seu desprezo pelos direitos humanos”, acrescentou Navi, que também criticou a retirada da polícia das ruas no final de semana, o que pode ter favorecido o saque generalizado.

Os protestos populares ocorridos na Tunísia em janeiro se propagaram não apenas para o Egito, mas também para o Iêmen e a Jordânia, disse Goldring à IPS. É muito cedo para dizer que se trata de uma transformação regional, mas, sem dúvida, no Oriente Médio há mais espaço para governos democráticos, ressaltou.

O acordo que os Estados Unidos assinaram há pouco tempo com a Arábia Saudita para vender-lhe US$ 60 bilhões em armas e serviços é apenas o último de uma série de transferências similares a regimes autoritários do Oriente Médio, destacou Natalie. “Se os governos caírem, o controle sobre os arsenais militares provavelmente também desparecerá, com o risco de armas norte-americanas de última geração caírem em mãos de organizações hostis a Washington”, alertou. Envolverde/IPS

Thalif Deen

Thalif Deen, IPS United Nations bureau chief and North America regional director, has been covering the U.N. since the late 1970s. A former deputy news editor of the Sri Lanka Daily News, he was also a senior editorial writer for Hong Kong-based The Standard. He has been runner-up and cited twice for “excellence in U.N. reporting” at the annual awards presentation of the U.N. Correspondents’ Association. A former information officer at the U.N. Secretariat, and a one-time member of the Sri Lanka delegation to the U.N. General Assembly sessions, Thalif is currently editor in chief of the IPS U.N. Terra Viva journal. Since the Earth Summit in Rio de Janeiro in 1992, he has covered virtually every single major U.N. conference on population, human rights, environment, social development, globalisation and the Millennium Development Goals. A former Middle East military editor at Jane’s Information Group in the U.S, he is a Fulbright-Hayes scholar with a master’s degree in journalism from Columbia University, New York.

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