Nações Unidas, 24/02/2011 – “Nenhuma empresa do Pacto Mundial é perfeita”, disse à IPS Georg Kell, diretor-executivo dessa plataforma da Organização das Nações Unidas para que as companhias se comprometam com os direitos humanos, o trabalho e o meio ambiente, e contra a corrupção.
O Pacto facilita a criação de redes e o diálogo entre corporações das áreas de interesses mais importantes da ONU, para atingir o objetivo coletivo de fundar uma economia mundial que seja ambientalmente sã. É integrado por cerca de oito mil organizações de 130 países. A IPS conversou com Georg sobre as principais iniciativas para a abordagem das últimas tendências e os desafios para a próxima década.
IPS: Como o crescimento dos países em desenvolvimento será muito mais rápido do que o das nações industrializadas este ano, os objetivos das empresas do Sul em matéria de responsabilidade corporativa e do uso prudente dos recursos vão mudar? Será o início de uma nova tendência?
GEORG KELL: Muitos avanços recentes em matéria de sustentabilidade corporativa, e boa parte do que são consideradas as melhores práticas em várias áreas, são guiados por empresas das economias emergentes. Isto tem vários motivos. Primeiro, muitas destas companhias operam em áreas muito complexas durante décadas, frequentemente apanhando para aprender o quanto a instabilidade, a pobreza, a corrupção ou a degradação ambiental podem facilmente alterar as economias e ameaçar o crescimento empresarial. Assim, para muitas delas, existe uma luta nos dois extremos. Por um lado, tiveram que aprender muito rapidamente a serem competitivas nos mercados mundiais, e por outro, precisam superar brechas em seus próprios quintais. Como consequência, isto ajudou a criar organizações globais muito fortes e versáteis, que estão bem posicionadas para assumir a liderança em questões de sustentabilidade. Um exemplo ilustrativo deste papel de liderança do Sul é o nosso trabalho nas bolsas de valores mundiais. De Kuala Lumpur a Xangai, Istambul, Johannesburgo ou São Paulo, muitos mercados de valores emergentes estão bem mais avançados em sua integração de questões de sustentabilidade no longo prazo do que seus competidores do Norte, que frequentemente ainda perseguem o volume e o lucro no curto prazo.
IPS: Que papel espera das corporações multinacionais no desenvolvimento econômico mundial em 2011? E neste contexto, onde reside a necessidade da responsabilidade social corporativa?
GK: Comumente as multinacionais se colocam acima das cadeias mundiais de fornecimento de enormes dimensões, com milhões de empregados em todo o planeta. Para o bem ou para o mal, sua decisão pode ter impactos significativos sobre o bem-estar dos mercados e das sociedades. A adoção de práticas trabalhistas responsáveis ou a introdução de tecnologias baixas em carbono em todas estas vastas cadeias de fornecimento pode ter um tremendo efeito dominó. De fato, em algumas áreas, as corporações podem realizar mudanças normalmente mais rapidamente do que os reguladores, devido ao relativo imediatismo em sua tomada de decisões. Por exemplo, as decisões do Wal-Mart em promover o uso de lâmpadas elétricas de baixo consumo, ou de vender mais produtos orgânicos, não tem impacto apenas nos padrões de consumo, como também tem consequências significativas para os produtores.
IPS: Considera que os resultados do último Fórum Econômico Mundial de Davos foram satisfatórios?
GK: O Fórum Econômico Mundial não é um contexto para a tomada de decisões, mas apenas um fórum para debater as tendências políticas e econômicas mundiais em um nível bem alto. E o deste ano confirmou que os mercados emergentes continuam se fortalecendo. Do ponto de vista do Pacto Mundial, nos agradou muito lançar o LEAD, nossa plataforma para levar o desempenho ambiental, social e de governança ao próximo nível, bem como fixar um novo parâmetro para a sustentabilidade corporativa. Mais de 50 empresas uniram-se ao LEAD e se comprometeram a serem verdadeiros líderes da sustentabilidade. Também nos deixou muito felizes estar entre os sócios fundadores da WindMade, o primeiro rótulo mundial que identifica o uso de energia eólica por parte das empresas.
IPS: Várias de suas organizações associadas foram acusadas de violar práticas socialmente responsáveis. Como vê isso?
GK: Nenhuma empresa do Pacto Mundial é perfeita. E desde o começo deixamos muito claro que estamos abertos aos que enfrentam sérios desafios, sempre e quando assumirem um compromisso sincero com a transparência e a responsabilidade.
IPS: Como o escritório do Pacto atua para que seus sócios se responsabilizem pelas violações dos princípios que promovem?
GK: Há poucos anos introduzimos um mecanismo de facilitação do diálogo que busca estimular o debate e produzir soluções colaborativas. Embora não falemos de casos individuais, ajuda a acalmar as tensões e a unir as pessoas e as organizações em um espírito mais construtivo. A quantidade de casos apresentados é surpreendentemente pequena. Embora busquemos comprometer empresas que enfrentam sérios desafios, pedimos a elas que se comprometam com a transparência e a responsabilidade. É por isto que expulsamos mais de duas mil companhias por não comunicarem, reiteradamente, os avanços obtidos na implementação dos princípios do Pacto Mundial. Envolverde/IPS


