Cidade do Cabo, África do Sul, 24/03/2011 – Os três países africanos que integram o Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU), Gabão, Nigéria e África do Sul, votaram a favor da resolução 1973 que impõem uma zona de exclusão aérea na Líbia, mas um coro de críticas regionais acompanha os ataques aéreos que começaram no dia 19.
Contudo,em um comunicado divulgado no domingo passado, um dia após começarem as ações militares internacionais contra as instalações aéreas de Gadafi, o Grupo Ad Hoc de Alto Nível sobre a Líbia da UA disse que se opunha a qualquer intervenção estrangeira nesse país do Norte da África. “Nosso desejo é que sejam respeitadas a unidade e a integridade territorial da Líbia, e que seja rechaçado todo tipo de intervenção militar externa”, afirmou o Grupo após se reunir em Nuakchot, capital da Mauritânia.
O Grupo foi criado na última reunião do Conselho de Paz e Segurança da UA, em Adis Abeba, e é integrado por República do Congo, Mali, Mauritânia, África do Sul e Uganda. “A situação no Norte da África exige ação urgente e pode-se encontrar uma solução africana”, afirmou o presidente da Mauritânia, Ould Abdel Azia.
A Operação Odisseia ao Amanhecer, o ataque militar conduzido por França, Estados Unidos e Grã-Bretanha, despertou críticas da Rússia à Turquia, inclusive por parte da Liga de Estados Árabes, que reclamara a imposição de uma zona de exclusão de voos. O argumento é que os ataques foram além do necessário para aplicação da resolução da ONU.
Martin Nesirky, porta-voz do secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, confirmou que Canadá, Estados Unidos, Dinamarca, França, Grã-Bretanha, Itália e Catar lhe enviaram cartas estabelecendo sua intenção de atacar o local de residência de Gadafi se suas forças continuassem avançando sobre a cidade de Bengasi, reduto dos rebeldes.
As críticas da UA “refletem a confusão e mostram como são adiadas as decisões”, disse Paul-Simon Handy, diretor do Institute for Security Studies, com sede em Pretória. “Às vezes, suas expectativas são muito altas. É um organismo que depende de outros corpos regionais para sustentar suas posições”, afirmou à IPS.
Quando não existe uma voz poderosa de um organismo regional importante, a UA custa a adotar uma posição firme, explicou Paul-Simon. “No caso da Costa do Marfim, o órgão apoiou-se na condução e nas decisões da Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental. E não vemos isso com relação ao Norte da África”, acrescentou.
O analista político e blogueiro queniano Onyango Oloo é menos generoso. “A UA é tão boa como são seus membros e esperar uma resposta avançada dela é ambicioso”, disse à IPS por telefone desde Nairóbi. “A UA não me surpreende, mas me causa pena”, acrescentou. Os ataques aéreos também estão matando gente inocente e a África deveria ser inequívoca em sua condenação, afirmou Onyango. “Esta é uma invasão com fins petroleiros”, acrescentou, referindo-se à principal riqueza líbia.
Em um artigo para o jornal online Modern Ghana, Michael J. Bokor, também criticou abertamente a ação legitimada pela ONU. “A UA se opôs a qualquer ação militar estrangeira. Infelizmente, sua voz não foi ouvida. Agora a Líbia é um triste caso de diplomacia malograda. O fato de os promotores da ação militar não respeitarem a voz nem a posição da UA sobre a crise na Líbia deixa um gosto amargo”, afirmou.
Mas Gabão, Nigéria e África do Sul votaram a favor da Resolução, aprovada por dez dos 15 membros do Conselho de Segurança e com cinco abstenções, entre elas as de China e Rússia, que têm poder de veto. O presidente sul-africano, Jacob Zuma, parece ter dado marcha à ré em declarações posteriores. “A resolução deveria ser executada em sua letra e espírito por todos os membros do Conselho”, afirmou no dia 21. “As operações para impor a zona de exclusão aérea e proteger os civis deveriam limitar-se a isso. Não devem prejudicar nem colocar em perigo os civis que a mesma Resolução 1973 busca proteger”, disse Zuma.
Para Paul-Simon, “a postura sul-africana é confusa. Não pode se queixar da Resolução depois de votar nela. A política externa da África do Sul foi errada em extremo, acrescentou. Bantu Holomisa, líder de um pequeno partido opositor sul-africano, disse que o chamado de Zuma para um cessar-fogo não pode ser levado a sério. “Deveria acertar este enredo convocando uma reunião urgente do Conselho de Segurança para expor suas preocupações e condenar com firmeza a conduta bárbara de seus aliados ocidentais”, disse Bantu.
O presidente de Uganda, Yoweri Museveni, teve palavras duras para os rebeldes da Líbia. “Ficaria envergonhado em ter o apoio de aviões de guerra ocidentais, porque os colaboracionistas dos interesses estrangeiros nunca foram bons para a África”. Onyango, por sua vez, acredita que a sociedade civil africana deveria exigir ações dos governos. “Há marchas de protesto em Nova York, mas não na África. Devemos aderir à voz mundial contra a ação bélica. Estão morrendo civis inocentes, é preciso pressionar os governos”, afirmou.
A Coalizão contra a Guerra, da África do Sul, convocou um protesto urgente ontem na Cidade do Cabo contra “o bombardeio imperialista e a invasão da Líbia”. Por seu lado, Paul-Simon recomendou observar com cuidado a reunião que dirigentes da ONU e da UA manterão amanhã em Adis Abeba. São necessárias respostas: “Como prosseguirão os fatos, e qual é a intenção final da intervenção?”, observou. Envolverde/IPS


