GABORONE, 23/03/2011 – Vêm como peregrinos ao Departameto de Pesquisa Geológica em Lobatse, a 120 quilómetros a sul da capital do Botswana. Nos escritórios escassamente mobilados, examinam mapas, tentando eliminar as dúvidas sobre onde escavar poços. O sucesso significa água fresca e limpa a brotar da terra para sustentar uma exploração agrícola ou aldeia. O insucesso traduz-se em milhares de pula gastos, num negócio arruinado ou em privações contínuas. Johannes Tsimako, do Departamento de Pesquisa Geológica junto do Ministério dos Recursos Hídricos, Minerais e Assuntos Energéticos, recebe agricultores que viajaram distâncias muito longas para terem acesso à informação no seu escritório.
A alternativa é contratar um agrimensor dispendioso sem qualquer garantia de sucesso.
Keinetse Keineetse é um agricultor nas Terras de Phiriyabokwete, a 80 quilómetros de Gaberone. Keineetse, personalidade dos meios de comunicação, já reformado, e que agora cria gado, já pagou muito caro as tentativas falhadas de encontrar água na sua exploração agrícola.
Atribui o insucesso à falta de informação detalhada sobre onde encontrar água na exploração. “Contratei um agrimensor que me cobrou 3.000 pula (450 doláres) e que identificou um local apropriado onde fiz um furo com 100 metros por 260 pula (39 doláres) por metro, mas não consegui nada,” disse.
“Ainda por cima tive de pagar.”
A informação existente em Lobatse serve de guia aos agrimensores mas, infelizmente, está incompleta. Não é fácil encontrar a informação mais importante, muita dela depositada em instituições fora do país, e édispendioso encomendar cópias.
Mas em Janeiro de 2010foi lançado um projecto de partilha de conhecimentos visando preencher as lacunas da imagem hidrogeólogica – o mapa dos recursos hídricos subterrâneos – no Botswana e no resto da África Austral. Apoiado pela GIZ, a Agência Alemã de Cooperação para o Desenvolvimento, pelo menos 2.000 “registos não publicados” serão levantados de diversos lugares e disponibilizados aos agrimensores pela internet até à segunda metade de 2011.
Jude Cobbing, um hidrólogo que trabalha nas Águas Geociência, uma companhia de consultoria, explicou à IPS que um registo não publicado é um relatório ou documento não publicado, ou que foi publicado só em quantidades limitadas, estando agora esgotado em termos de publicação.
“Essencialmente, os registos não publicados são relatórios ou estudos de investigação cuja obtenção é difícil,” explica.
Um enorme conjunto de conhecimentos contendo todo o tipo de informações úteis para África – desde os níveis de água e de precipitação até debates sobre a sustentabilidade dos recursos hídricos subterrâneos – está actualmente classificado como informação não publicada. “Os relatórios não publicados podem proporcionar uma imagem do consumo de água no passado e/ou do clima, que é difícil de obter em qualquer outro sítio,” disse Cobbing.
Cobbing acrescentou que muitos desses relatórios não publicados ou com edições limitadas estão guardados fora de África em instituições como o Centro Geológico Britânico, mas outro tipo de informações encontra-se guardado no continente. “É por isso que gostaríamos de estabelecer parcerias com organizações africanas.”
Logo que a informação for recuperada e organizada, será disponibilizada através de um portal Web, ao qual qualquer pessoa terá acesso.
Keineetse acabou por encontrar água na sua exploração agrícola, depois de ter arranjado outro agrimensor, desta vez alguém com forte reputação de êxito devido ao bom trabalho feito para o Ministério dos Recursos Hídricos.
Ele encontrou água mas custou-lhe 10.000 doláres para fazer um furo, mais 6.000 doláres para montar painéis solares para uma bomba no poço, e ainda 450 doláres para pagar o trabalho do agrimensor.
“Tive que usar os fundos familiares que estavam reservados para os meus filhos,” disse Keineetse. “O portal vai representar um grande alívio porque vai eliminar as dúvidas que os agricultores sentem e reduzir a possibilidade de recursos perdidos porque, caso se tenha chegado a um beco sem saída devido à falta de conhecimentos, continua a ser necessário pagar-se muito dinheiro.”
Os novos recursos não vão ajudar directamente pessoas como Keineetse a localizar a água subterrânea existente. “De modo geral, a informação não publicada vai ajudar a identificar áreas onde podem existir águas subterrâneas devido à geologia existente, mas não pode encontrar água substerrânea de forma consistente ou segura nos quintais ou nas explorações,” afirmou Rex Brown, cientista ambiental que vive na Suazilândia, antes de colocar uma pergunta interessante.
“Se conseguimos encontrar petróleo a milhares de metros abaixo do lençol freático, porque é que não conseguimos encontrar água a dezenas ou centenas de metros debaixo da terra?”
Tsimao, do Departemento de Pesquisa Geológica, afirma que actualmente há programas de assistência para apoiar os agricultores que procuram água, apesar de não serem levados a cabo de forma sistemática ou conveniente. “O portal será importante para os agricultores, visto que vai facilitar o acesso à informação onde quer que eles estejam e sempre que precisarem dela, em vez de terem de viajar longas distâncias para obter essa informação,” disse.
Brown sustenta que as técnicas e equipamento usados para localizar a água subterrânea avançaram muito pouco nos últimos 60 ou 70 anos. “A exploração dos recursos hídricos tem de estar ligada aos avanços alcançados na indústria petrolífera, que usa software especializado e computadores para eliminar erros e leituras erradas.”

