Guariba, Brasil, 28/03/2011 – “Está louca”, afirmaram maridos e familiares da maioria das 34 mulheres que decidiram se converter em operadores de colheitadeiras de cana-de-açúcar no Sudeste do Brasil, em um desafio ao monopólio masculino avivado pela expansão do setor e pela boa remuneração.
A gravidez de sete meses não impediu Rosana do Carmo, de 33 anos e mãe de outros três filhos, de fazer o curso oferecido pela Secretaria de Emprego e Relações do Trabalho (Sert) de Guariba, município de 35 mil habitantes que fica na zona de maior produção de cana do Brasil, a cerca de 300 quilômetros da cidade de São Paulo, capital do Estado. Seu sonho é concluir antes do parto as aulas teóricas, de quatro horas, no horário noturno. A parte prática, com a colheitadeira em pleno canavial, deixará para quando o bebê crescer um pouco. Ela já fez curso para dirigir tratores. “Era a única mulher entre 18 homens”, e suportou brincadeiras como a repetida de “pés muito pequenos para os pedais”. Longe de se intimidar, Rosana está decidida a dirigir uma máquina maior e mais complexa, em busca de “dignidade e prosperidade”.
O curso para operar colheitadeiras é exclusivamente para mulheres. A atividade relacionada à cana emprega poucas mulheres e são elas as que mais sofrem com o desemprego causado pelo processo de mecanização da colheita, explicou à IPS o secretário municipal de emprego, José Roberto de Abreu. Muitas das participantes são divorciadas que criam os filhos sozinhas, em uma região onde a alta oferta de trabalho temporário atrai trabalhadores de todos os cantos do país, causando separações e novos casais, acrescentou.
É o caso de Noêmia Pereira de Melo, de 37 anos e duas filhas, respeitada por suas colegas devido a uma longa experiência como cortadora. “Corto cana desde os 18 anos”, contou. Primeiro, seguiu os passos de seu pai, que se mudava a cada colheita e acabou se estabelecendo com a família em Guariba. Também exerceu outras funções dentro da indústria açucareira, como soldadora, mas seu sonho é operar uma colheitadeira. Já fez um curso, onde “só tinha eu de mulher e 40 homens”, mas não teve aulas práticas e não conseguiu ser contratada. Agora acredita que terá sorte, porque uma usina local vai empregar mais mulheres. “Quero deixar o corte da cana, evoluir”, afirmou. Além disso, as muitas horas diárias com o facão lhe causaram uma bursite, “da qual meu braço nunca se recuperou, apesar dos tratamentos”, lamentou.
São Paulo, Estado que produz 60% do açúcar e do etanol do Brasil, abolirá em 2014 a queima de canaviais que facilita a colheita manual, por acordo entre o governo estadual e a indústria da cana. Isso obriga a substituição dos cortadores por máquinas. No ano passado, eram 140 mil cortadores, segundo estudo da Universidade Estadual Paulista (Unesp). Várias organizações públicas e privadas trabalham para requalificar parte destes trabalhadores em tarefas agrícolas e industriais que exigem mais técnica, o que permitirá que, os que conseguirem, tenham empregos melhor pagos e permanentes, em lugar dos atuais oito meses por ano.
Este primeiro curso, segundo José Roberto, concede bolsa equivalente a cerca de R$ 350 às 34 selecionadas. É uma ideia que tinha desde que assumiu a Sert em 2009, depois de trabalhar anos em usinas de açúcar como técnico agrícola, gerente de mecanização e capacitador. “Prevejo abandonos, mas há outras mulheres na fila”, afirmou.
A Sert também oferece cursos para outras funções dentro do setor canavieiro, como condutor de trator e empilhadeira, e para outras áreas, como construção, confecção têxtil e cozinha industrial, disse José Roberto. Sindicatos, usinas de açúcar e etanol e empresas agroindustriais também se somaram para impulsionar juntos o programa Renovação, destinado a capacitar sete mil trabalhadores da cana em novas funções dentro ou fora do setor.
As mulheres são a prioridade nos cursos organizados pela Sert, que capacitou 1.400 pessoas nos últimos dois anos. O objetivo é que as mulheres de Guariba não sejam forçadas a trabalhar no serviço doméstico em cidades vizinhas mais ricas. Agora, são 620 registradas como empregadas domésticas e cerca de 500 trabalham em Ribeirão Preto, principal cidade da região da cana, que inclui 85 municípios e 50 usinas de açúcar e etanol. Ali ganham cerca de R$ 840 mensais, direitos trabalhistas e finais de semana livres, ao contrário do que ocorre em Guariba. A prefeitura também subsidia 40% do custo da passagem de ônibus entre as duas cidades, distantes 64 quilômetros.
Um benefício que não atinge Cilia Maria Silva, de 57 anos, moradora na vizinha Pradópolis, que deve se locomover durante uma hora por dia para trabalhar como doméstica em Ribeirão Preto. Ela recorda os quatro anos que trabalhou em uma usina de açúcar de seu município, e só se consola com a proximidade de aposentadoria. “Faltam indústrias e fábricas para gerar mais empregos” em Pradópolis e Guariba, afirmou, para explicar à IPS que inveja os oito mil habitantes da vizinha localidade de Dumont, por gozarem de pleno emprego, graças a uma fábrica processadora de amendoim.
“Lavar roupa dos outros, jamais”, descartou terminantemente Rita de Cássia Cardoso, uma das mais jovens entre as 34 candidatas a operadoras de colheitadeira. Com 21 anos, já dirigiu caminhões, produziu artesanato e fez várias tarefas agrícolas em seu Estado natal, Mato Grosso do Sul. Chegou a Guariba com seu marido, operário de uma usina da região, e com o curso disse que caminha para concretizar seu “sonho desde menina, de ser caminhoneira de uma usina”. Contudo, assegura que não ficará nisso, mas que estudará agronomia, “para acompanhar a globalização”.
Sua colega Rita das Neves, de 30 anos e um filho, é exemplo do drama dos cortadores. Começou aos 11 anos, quando “nem aguentava o (obrigatório) protetor de perna” por ser muito grande para ela. Seu marido machucou o joelho durante uma colheita e agora cuida de um bar familiar, enquanto ela busca crescer dentro do setor.
Em cada grupo de 50 cortadores, só são admitidas quatro ou seis mulheres, disse Rita, como exemplo da discriminação no setor. E isso por que “eu cortava mais cana do que eles”, criticou. Ela estudou contabilidade, mas não conseguiu emprego na área “por ser pobre”. Também foi empregada doméstica, mas “preferi cortar cana”, até agora que, grávida de três meses, aprende a manejar grandes máquinas agrícolas. “Nisto está meu futuro e o da minha família, não tenho dúvidas”, assegurou. Envolverde/IPS


