QUITO, Equador, 22/03/2011 – (Tierramérica).- Um fundo alimentado com recursos públicos e privados busca criar em Quito um modelo participativo e transparente para administrar a água.
O Polylepis, nativo da Cordilheira dos Andes e com um tronco de múltiplas camadas finas semelhantes a papel, é o único gênero de árvore fornecedora de madeira que cresce neste lugar a mais de 3.500 metros de altitude. Plantá-la ajuda a restaurar a captação de água de uma bacia vital. Além de plantar, “buscamos conscientizar os funcionários e mostrar aos indígenas da área que verdadeiramente estamos trabalhando juntos, as pessoas da cidade e eles, para preservar as fontes de água”, disse ao Terramérica o diretor do Fonag, Pablo Lloret.
Esses objetivos contribuem para o êxito do Fonag, um fundo fiduciário com contribuições públicas e privadas, que tem entre suas tarefas a gestão participativa do recurso, a sensibilização pública e um modelo matemático para conhecer os fatores que incidem na bacia do Rio Guayallabamba, que desce dos Andes para o Oceano Pacífico. A bacia alta do Guayllabamba, entre mil metros e 5.893 metros de altitude, fornece água a dois milhões de habitantes de Quito e outras 570 mil pessoas na província de Pichincha, além de irrigação para pequenos proprietários e exportadores de flores e hortaliças.
É uma das áreas mais povoadas do Equador e enfrenta o maior problema nacional de competição por usos da água e a grave contaminação hídrica direta ou por efeito da escassez, afirma o site do Fonag. Menos de 1% do esgoto de Quito é tratado antes de ser lançado nos rios Machángara, Monjas e San Pedro, nome do Guayllabamba em seu primeiro trecho. “O coração do Fonag é o programa de gestão da água, e seus dois braços são o político e o técnico”, disse Pablo.
Para isso foi criado o Conselho da Bacia do Guayllabamba, que pretende ser um sistema de governança que inclua todos os usuários. Nos últimos quatro anos, com a cooperação do Instituto de Pesquisa para o Desenvolvimento (IRD), da França, foi criado um modelo matemático da Bacia. “Hoje, pode-se simular o que ocorre no balanço hídrico com a mudança de qualquer componente na oferta ou na demanda”, disse ao Terramérica o representante do IRD, Bernard Francou.
A preocupação pelo impacto da desmatadora urbanização mundial levou as Nações Unidas a dedicar este 22 de março, Dia Mundial da Água, ao tema “Água para as cidades: respondendo ao desafio urbano”, O Fonag foi criado em 2000 com US$ 21 mil e hoje conta com US$ 9,5 milhões. Para suas operações usa apenas o rendimento do fundo fiduciário e os custos administrativos não podem passar de 20% dos projetos que financia.
Seu principal doador é a Empresa Pública Metropolitana de Água Potável e Saneamento (EPMAPS) de Quito, que entrega 1% de sua arrecadação, cerca de US$ 190 mil mensais. Também contribuem a empresa elétrica da capital, a organização conservacionista norte-americana The Nature Conservancy, a engarrafadora equatoriana de água mineral Tesalia Springs e a Cervejaria Nacional, propriedade da corporação britânica SABMiller.
O modelo do Fonag foi replicado em outros nove fundos em várias províncias equatorianas, bem como na Colômbia e no Peru, enquanto iniciativas semelhantes estão sendo criadas na Bolívia e na República Dominicana. Quando foi criado, “não passava de uma conta corrente onde era depositado algum dinheiro”, e quase desaparece, lembrou Juan Neira, gerente-geral da atual EPMAPS entre 2000 e 2009.
Só em 2004, quando se juntaram vários organismos “e a empresa de água potável decidiu doar ao fundo 1% de seu faturamento, o Fonag conseguiu se organizar, contratar pessoal e empreender projetos”, disse Juan ao Terramérica. Em sua função educativa, o Fonag associou-se, no ano passado, ao Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) para executar a “Estratégia de difusão e sensibilização para o cuidado e a proteção dos ecossistemas aquáticos de água doce e marinha – Entre o páramo e o mangue”, que inclui inserções em rádio, cartazes em ônibus e oficinas educativas.
* * O autor é correspondente da IPS.


