DESTAQUES: Cochabamba suporta a sede

LA PAZ, Bolívia, 22/03/2011 – (Tierramérica). – Na cidade boliviana de Cochabamba, que em 2000 protagonizou a “guerra da água”, fracassaram sucessivamente a privatização e a gestão estatal desse recurso.

Água encanada não chega às áreas das casas de barro - Photostock/IPS

Água encanada não chega às áreas das casas de barro - Photostock/IPS

A demanda insatisfeita de água potável na cidade boliviana de Cochabamba não tem saídas à vista, 11 anos depois de ganhar notoriedade internacional por causa de uma rebelião que deteve a privatização do serviço. Apenas 326.504 pessoas, 48% da população local, recebem água encanada, e os mais pobres são obrigados a pagar preços altos.

Enquanto isso, o saneamento cobre 53% dos habitantes, segundo o Serviço Municipal de Água Potável e Esgoto (Semapa). A empresa produz 20,6 milhões de litros diários e garante um serviço que não chega a 16 horas por dia nessa cidade de clima e topografia de vale, a 2.600 metros de altitude. Muitas vezes a água é extraída de maneira irregular do próprio Semapa e depois vendida em caminhões-pipa nos bairros mais distantes, queixou-se ao Terramérica uma moradora que pediu para não ser identificada.

Este estado de coisas na terceira cidade mais importante da Bolívia, com população de 680.597 habitantes, é resultado de uma série de experiências falidas que começaram com um modelo de privatização que, após uma rejeição sem precedentes, acabou no retorno do estatal Semapa. A empresa do município “precisa do apoio dos governos departamental e nacional” porque sua economia, afetada por pesada dívida, não pode assumir o desafio de investir US$ 170 milhões para ampliar o serviço nos próximos cinco anos, disse ao Terramérica o gerente-geral do Semapa, Julio Vargas.

Em 2010, a empresa conseguiu refazer sua situação deficitária, mas “ainda não podemos dizer que é uma economia solvente”, afirmou Julio. Em 2009, o déficit de caixa do Semapa chegou a US$ 3 milhões. Algumas das irregularidades que levaram a esse prejuízo foram roubo de materiais, compras de insumos com sobrepreços e presença na folha de pagamento de uma quantidade de empregados que não iam trabalhar.

Para equilibrar as finanças foi preciso demitir 150 pessoas, contou Julio. Hoje a empresa tem pouco menos de cinco empregados para cada mil ligações domiciliares, acima do parâmetro considerado adequado para a eficiência operacional dos serviços hídricos na América Latina, de três trabalhadores por mil ligações. A Bolívia tem uma das menores coberturas da região: 85% dos habitantes têm água potável e 46% algum serviço de esgoto, segundo dados de 2004 coletados pelas Nações Unidas.

Para este 22 de março, Dia Mundial da Água, a organizações elegeu o tema “Água para as cidades”. A cada mês, cinco milhões de pessoas se somam às populações urbanas nos países em desenvolvimento. Em Cochabamba, a única opção para atender parcialmente a demanda de água é um projeto para represar três rios da bacia do Misicuni, a construção de uma barragem que alimentará o consumo humano e a irrigação, além de uma central para geração de eletricidade.

O projeto está localizado a 20 quilômetros da cidade e é administrado pela Empresa Misicuni, uma entidade “público social” cuja direção é formada por representantes do governo, das prefeituras da região e usuários da água. Porém, não entrará em funcionamento antes de 2013. “No caso boliviano, os modelos privado e estatal falharam”, disse ao Terramérica Carlos Crespo, pesquisador do Centro de Estudos Superiores Universitários, que propõe um sistema de administração descentralizado e dirigido pelos próprios consumidores.

A presença do Estado imprime uma centralização que se soma a uma “forma terrível de corrupção”, que em Cochabamba acabou absorvendo o controle social dos cidadãos, convertendo-os em clientes desta irregular administração, acrescentou Carlos. O pesquisador coordena uma proposta feita por moradores da zona Sul de Cochabamba, que querem estabelecer uma associação, comprar a água do Semapa ou da Misicuni e administrar eles mesmos o recurso, distribuindo aos associados por encanamento.

Trata-se de um modelo mais democrático e cara a cara, algo que pode ser mais eficiente do que os anteriores, explicou Carlos. O Semapa foi criado em julho de 1967 para prestar serviço na província de Cercado, da qual Cochabamba é a capital, com uma administração autônoma e descentralizada.

Em 1999, o governo de Hugo Banzer (1971-1978 e 1997-2001) entregou por licitação o serviço que o Semapa administrava ao consórcio Águas do Tunari, formado por International Water Limited, da Grã-Bretanha, Edison, da Itália, Bechtel, dos Estados Unidos, Abengoa, da Espanha, e duas firmas bolivianas, a Ice Engenheiros e a Soboce. O contrato de privatização previa que o consórcio forneceria água potável e saneamento a toda a população de Cochabamba, duplicando a área de cobertura, e também produziria energia elétrica e irrigação para a região.

Contudo, as autoridades aprovaram o contrato mediante lei que concedia amplas faculdades à empresa para administrar recursos hídricos que nem mesmo o Semapa tinha, como as redes comunitárias de água. Esse fator e um elevado aumento das tarifas de água desataram a rebeldia popular em janeiro de 2000. Os protestos se prolongaram até abril e ganharam repercussão nacional, com manifestações e bloqueio de estradas.

A repressão terminou com um morto e 30 feridos, e ao final os executivos do consórcio deixaram o país e a polêmica lei foi revogada pelo Congresso. O Semapa voltou a renascer, mas seus administradores priorizaram o pagamento de altos salários ao pessoal, não cumpriram o pedido popular de manejo transparente e esqueceram a crescente demanda.

Em Cochabamba, os usuários pagam US$ 0,80 por metro cúbico de água, segundo informou a empresa, com dados do terceiro trimestre de 2010. No entanto, os mais pobres pagam um preço várias vezes superior. No debate que ocorre em diferentes círculos, alguns propõem a criação de uma cooperativa. Para Julio, este caminho é inviável, pela falta de uma entidade que assuma a dívida do Semapa.

* * O autor é correspondente da IPS.

Franz Chávez

Franz Chávez es corresponsal de IPS en Bolivia desde noviembre de 2003. En busca de una cobertura adecuada de la compleja realidad boliviana, en especial para una audiencia internacional, Chávez se focaliza en esos temas en general ignorados por los grandes medios, poniendo esfuerzo en el contexto de uno de los países más pobres de América Latina. Nacido en La Paz, Franz trabajó para Radio Cristal entre 1985 y 1990, y luego formó parte del equipo editorial de los canales de televisión 2, 4, 7 y 11. Fue uno de los fundadores de los diarios La Razón, en el que se desempeñó entre 1990 y 1995, La Prensa (1998-201), y La Prensa-Oruro. Estudió sociología y comunicación en la Universidad Mayor de San Andrés en La Paz.

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