Empresários brasileiros redescobrem caminho das Índias

Rio de Janeiro, Brasil, 14/03/2011 – Com um comércio bilateral que quase triplicou nos últimos três anos, empresários brasileiros e indianos começam a diversificar e complementar seus negócios para fortalecer sua presença econômica no mundo, em uma espécie de novo “caminho das Índias” de mão dupla. “Esta associação está crescendo desde que foi redescoberto o caminho das Índias”, disse à IPS Roberto Paranhos, presidente da Câmara de Comércio Brasil-Índia, ao se referir ao crescente aumento do comércio bilateral, que passou de US$ 3 bilhões para US$ 7,8 bilhões entre 2007 e 2010.

Roberto explicou que a maior fortaleza da relação empresarial ocorre atualmente nos setores agroalimentar, farmacêutico e de informação, e que as expectativas de negócios conjuntos se multiplicam com a prevista exploração petroleira nas reservas brasileiras do pré-sal. Este gigante reservatório é uma formação geológica submarina com hidrocarbono em águas de até sete mil metros de profundidade do Oceano Atlântico, situada abaixo de uma camada de sal de até dois quilômetros de espessura, que pode colocar o Brasil em quinto lugar em reservas mundiais de petróleo.

Além disso, diante da realização no Brasil do Mundial de Futebol, em 2014, e das Olimpíadas, em 2016, há interesse das empresas indianas na área de infraestrutura e logística. “Como sétima economia do mundo, queremos nos fortalecer e não sermos apenas exportadores de commodities (produtos básicos), mas sócios transformadores” em setores como investimentos, empresas de risco, transferência de tecnologia, acordos de comercialização e logística conjunta em outras regiões, afirmou Roberto.

Com vistas a explorar estas novas possibilidades, a Confederação das Indústrias da Índia (CII), a embaixada indiana no Brasil e o Ministério da Indústria e Comércio de Nova Délhi organizaram, em São Paulo, a feira “Índia Show”, aberta no dia 11 e que termina hoje. A CII realiza feiras deste tipo em todas as regiões do mundo para impulsionar o programa de investimento indiano de US$ 1 bilhão nos próximos cinco anos.

“Com enormes complementaridades e situações socioeconômicas similares”, existe grande potencialidade de associações em médio e longo prazos, disse B. S. Prakash, embaixador da Índia no Brasil, sobre o potencial da feira. “Ao desenvolver trabalhos de cooperação, poderemos ser efetivamente jogadores internacionais”, acrescentou. Do Índia Show participam 70 empresas do segundo país mais povoado do mundo, que busca promover a “Marca Índia” e suas indústrias, em mercados emergentes com demanda de produtos e tecnologias do país.

É a primeira vez que a feira acontece na América Latina, e também pretende facilitar transferências de tecnologia, acordos de comercialização e contatos pessoais entre a indústria, instituições financeiras e governos. O interesse dos empresários indianos no Brasil se concentra, segundo foi possível perceber no primeiro dia da feira, em alguns setores, como automotivo, engenharia têxtil, agricultura, mineração, agronegócio, produtos farmacêuticos, informática e petróleo.

Rogério Haman, organizador da feira, disse estar surpreso com o interesse dos empresários brasileiros por um evento que acontece em um fim de semana “após o carnaval”. Pelo menos 510 empresas brasileiras demonstraram interesse em negócios diretos com contrapartes indianas. “São dois países no mesmo parâmetro de desenvolvimento, integram o BRIC (Brasil, Rússia, Índia, China), temos um tipo de interesse comum e um padrão de negociação”, disse Rogério.

A incerteza econômica nos Estados Unidos e na Europa, o alto desemprego, a turbulência financeira, confirmam, segundo Roberto, uma transformação profunda da economia mundial, e com isso a necessidade de buscar novas opções. “Pela primeira vez, os mercados emergentes receberam mais investimentos do que os ricos. O Brasil, por exemplo, chegou a superar a China na taxa de expansão de investimentos diretos do exterior e a Índia deve crescer 10% este ano”, acrescentou.

Segundo Roberto, o interesse na busca por novas associações empresariais com a Índia e outros novos aliados não significa excluir outros mercados tradicionais como Estados Unidos e Europa. O diretor empresarial citou como exemplo a área de combustíveis alternativos, extraídos da cana-de-açúcar, como o etanol. Empresas da Índia já adquiriram usinas brasileiras e graças a isso podem atuar em conjunto para vender em outras regiões, explicou. Na área dos hidrocarbonos, as associações entre empresários dos dois países também são animadoras, ressaltou.

A balança bilateral nesse setor totalizou em 2010, US$ 2,5 bilhões. Entre janeiro e outubro, a Índia vendeu ao Brasil US$ 1,5 bilhão de diesel, 41% do total das importações brasileiras, segundo a câmara de comércio binacional. A Índia, por sua vez, comprou US$ 900 milhões de petróleo do Brasil, 32% das exportações totais para esse país asiático.

Do Índia Show participam três gigantes do setor do petróleo e do gás da Índia: Bharat Petroleum, Hindustan Petroleum e Oil India. “A Índia tem um potencial importante” em matéria energética, porque importa 80% do petróleo que consome, explicou Roberto, ao mesmo tempo em que é muito competitiva na engenharia para esta indústria, acrescentou. Um potencial que pode servir especialmente em operações da Petrobras para a exploração do pré-sal.

“Já temos empresas indianas fornecedoras de equipamentos sofisticados para a Petrobras”, afirmou Roberto, e isto favorece que companhias brasileiras se associem a elas para melhorar sua capacidade e seus conhecimentos na área. Outra oportunidade de negócios está nos setores de aviação e farmacêutica, onde o Brasil já tem investimentos indianos, ou no têxtil, em que por diversos fatores este país “sofre um processo de desindustrialização”. Na balança bilateral de 2010, o intercâmbio têxtil gerou US$ 285 milhões.

Roberto considera que, apesar da melhoria na relação econômica binacional, o Brasil ainda não enxerga adequadamente o potencial da Índia, com 300 milhões de pessoas com alto poder aquisitivo. Em 2003, foi criado o fórum Índia, Brasil África do Sul (IBSA), para estimular acordos políticos, avaliar o diálogo setorial trilateral e a cooperação prestada a terceiros países por parte das três potências emergentes do Sul em desenvolvimento.

No dia 8, os chanceleres do Brasil, Antonio Patriota, e da Índia, Shri SM Krishna, analisaram em Nova Délhi o avanço das relações bilaterais, em um encontro por ocasião de uma reunião de dois dias do IBSA. Nessa reunião, se propuseram como objetivo elevar a balança comercial bilateral a US$ 10 bilhões, depois de sua alta de 25% no período 2009-2010. Envolverde/IPS

Fabiana Frayssinet

Fabiana Frayssinet nació en Buenos Aires, Argentina. Ha colaborado con IPS desde 1996, abordando con reportajes y crónicas la realidad brasileña. Se desempeña como corresponsal extranjera desde 1989, primero desde América Central y luego desde Brasil, donde se instaló en 1996, colaborando con medios internacionales de radio, televisión y prensa: CNN en Español, Univisión, Telefé de Argentina y los servicios latinoamericanos de Radio Suecia y de Radio Nederland.

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