Windhoek, Namíbia, 29/03/2011 – A África austral poderia atender melhor suas aspirações em matéria de cooperação Sul-Sul por meio do Fórum de Diálogo Índia-Brasil-África do Sul (IBAS) do que com a aliança que integra junto com China e Rússia.

Bairro pobre na Namíbia, país da África austral que vê reduzidas suas possibilidades de se beneficiar da cooperação Sul-Sul. - Servaas van den Bosch/IPS
Para resolver este dilema, Pequim propôs realizar, em abril, uma cúpula BRICS-IBAS na província chinesa de Hainan. Até agora, Nova Délhi se fez de surda aos argumentos chineses, já que prefere que exista um fórum no qual não exista influência da China, segundo a imprensa indiana.
Por sua vez, o presidente da África do Sul, Jacob Zuma, disse no parlamento de seu país, no dia 17, que seu governo valoriza a integração das duas alianças. O IBAS “realça nossa associação trilateral com Índia e Brasil”, e é “um importante pilar para fortalecer o músculo do Sul nos assuntos mundiais”, afirmou. “Acreditamos que o IBAS conseguirá melhor equilíbrio e se tornará mais forte com a África do Sul agora como membro (também) do BRICS, sobretudo considerando que os mandatos do BRICS e do IBAS se complementam”, destacou.
Zuma ressaltou ainda que os dois blocos fortalecem a posição da África do Sul como “porta da África”. Os “grupos oferecem um grande mercado lucrativo para nossos bens e serviços, e muitas oportunidades para colocar em prática nosso Plano de Ação de Políticas Industriais, bem como o programa Novo Caminho de Desenvolvimento”, acrescentou.
No entanto, o analista comercial sul-africano Dot Keet afirmou que o IBAS é uma plataforma mais apropriada para a África do Sul e toda a região da África austral do que o BRICS. “Trata-se de uma associação mais substancial com real enfoque em cada um (dos países-membros). A dúvida agora, naturalmente, é se o BRICS entrará em conflito, em contradição ou se complementará como o IBAS”, acrescentou.
Sanusha Naidu, diretora de pesquisas da rede de comunicação sobre justiça social Fahamu, concordou com Dot. “De muitas formas, há incerteza sobre o que os membros podem obter do BRICS e o que significa a aliança no contexto de uma operação mais ampla”, afirmou. “O IBAS, por outro lado, tem uma clara identidade. A aliança trilateral existe por mais tempo e provavelmente pode alcançar mais de suas metas do que o BRICS. O IBAS propõe uma gama maior de princípios que os membros têm em comum”, ressaltou.
“Se olharmos as cúpulas do IBAS, existe um amplo nível de consciência, seja em temas políticos como o conflito da Líbia ou em assuntos de governança mundial”, destacou Sanusha. “Existe um consenso entre muitos assuntos, como no processo de integração nas respectivas regiões, a pirataria no comércio e as reformas na governança das instituições militares. O IBAS também tem uma visão compartilhada da democratização”, acrescentou.
Em uma reunião, no dia 8, na capital indiana, os chanceleres do IBAS mostraram renovado interesse em aprofundar a colaboração. “Nesta ordem mundial rapidamente mutável, os ministros destacaram a crescente importância estratégica do IBAS como fórum de países democráticos em desenvolvimento de três continentes, baseado em valores compartilhados”, diz o documento final do encontro. A declaração acrescenta que esses valores “são fundamentais para maior fortalecimento e impulso da cooperação Sul-Sul, bem como para a salvaguarda e o progresso dos interesses do Sul, particularmente a reforma da governança mundial”.
O IBAS nasceu como resultado direto da postura comum alcançada por países em desenvolvimento durante as negociações da Rodada de Doha da Organização Mundial do Comércio, enquanto o BRICS é uma construção de bancos de investimento ocidentais. “O IBAS tem personalidade própria. Reúne três continentes separados, três democracias. O BRICS é um conceito criado pela Goldman Sachs, ao qual estamos tentando dar vida”, reconheceu o primeiro-ministro indiano, Manmohan Singh, há alguns meses.
É por isto que analistas de comércio dizem que o IBAS pode ser comparado com outras plataformas do Sul nas quais países conseguem colaborar em temas concretos, como a Organização de Cooperação de Xangai que, entre outras coisas, trabalha em assuntos de energia, ou o Fórum de Macau, que promove o comércio entre China e nações de língua portuguesa.
Na reunião ministerial de Nova Délhi foi tratada uma ampla gama de temas. Foi reiterado o compromisso de trabalhar por um “regime comercial internacional aberto, transparente e baseado em regras”. Além disso, chamaram para uma rápida conclusão da Rodada de Doha com um resultado equilibrado que garanta as necessidades de desenvolvimento dos países do Sul, especialmente os menos avançados.
O significado do IBAS para a região da África austral dependerá de sua capacidade para diversificar a agenda comercial da União Europeia, da qual depende fortemente, disseram especialistas. “O IBAS serviu ao seu propósito de criar acordos de comércio entre a região e Brasil e Índia”, afirmou o analista independente namíbio Wallie Roux.
“Prepara-se um acordo de comércio preferencial entre Índia e a União Aduaneira da África Austral, e está em vigor há tempos um tratado com o Mercosul”, acrescentou Wallie. “Porém, estes acordos podem ficar inoperantes já que, essencialmente, não temos capacidade de exportar para Brasil e Índia”, ressaltou, lembrando que a Comunidade para o Desenvolvimento da África austral ainda luta para fazer funcionar seu mercado interno.
Os importadores da África austral também sentem as limitações de suas pequenas economias. “Neste momento, adquiro todas as minhas peças de vestuário da África do Sul”, disse o comerciante têxtil namíbio Navin Morar. “Claro que posso obtê-las diretamente da Índia, mas insistirão para que eu compre um mínimo de vários milhares de metros em, talvez, 12 cores. Como vou vender isso nesta pequena economia?”, perguntou.
“Deveríamos fazer mais pesquisas de mercado sobre quais produtos poderiam ser relevantes em nosso comércio Sul-Sul”, disse Wallie. “No geral, nossa percepção sobre isto está completamente equivocada. Quem quer carne da Namíbia na Índia, que é um país completamente vegetariano? Por outro lado, existe grande potencial em medicamentos genéricos indianos para substituir as caras importações da UE e dos Estados Unidos”, acrescentou. Envolverde/IPS

