ENERGIA-REPÚBLICA DEMOCRÁTICA DO CONGO: O que é pequeno é bonito – E Electrizante

KIKWIT, República Democrática do Congo,, 30/03/2011 – Enquanto o debate sobre a energia hidroeléctrica no Rio Congo é dominado pelo gigantesco projecto do Grand Inga e pelo sonho de proporcionar energia eléctrica a todo o continente, a construção de uma série de barragens mais pequenas que beneficiem as comunidades locais pode produzir resultados tangíveis muito mais rapidamente. O projecto do Grand Inga poderá produzir 39.000 megawatts de electricidade. No início de Fevereiro, um contrato de dois anos no valor de 13.4 milhões de doláres foi adjudicado à Aecom Technology Company e à Electricité de France, responsáveis pelos estudos de viabilidade referentes ao complexo de produção de energia hidroeléctrica e pelas linhas de transmissão que transportam energia a sítios tão longínquos como o Egipto, a Nigéria e a África do Sul.

Demasiado grande para ser bem sucedido?

Mas o projecto do Grand Inga já se deparou com dificuldades e atraíu críticas.

A Westcor, um consórcio composto por companhias de energia estatais de cinco nações da África Austral, tinha proposto um projecto de 10 mil milhões de doláres para produzir 4.000 megawatts num local conhecido como Inga 3 rejeitado pela governo da República Democrática do Congo em Fevereiro de 2010. Em vez disso, as autoridades da RDC aceitaram um projecto mais pequeno no mesmo local, em conjunto com a BHP Billiton, uma gigantesca empresa de mineração, que fornecerá energia a uma nova fundição de alumínio a ser construída pela companhia a 150 quilómetros de distância.

O projecto da Billiton tem sido criticado por grupos ambientais, como a International Rivers. Só seis por cento dos congoleses têm acesso à electricidade, segundo a International Rivers, e o projecto da BHP Billiton prioriza o abastecimento de energia a indústrias de produção intensiva do ponto de vista energético em vez de atender às necessidades da população.

Os ambientalistas também têm dúvidas quanto à promessa representada pelos grandes planos que a Aecom está agora a analisar, sustentando que o continente carece de uma rede de distribuição para transportar energia de um único mega-projecto para a maioria da população que dela precisa. Explicam também que o preço previsto de 80 mil mihões de doláres seria melhor gasto na produção descentralizada de energia, incluindo centrais eólicas e solares e também micro-centrais hidroeléctricas.

Também citam o risco de corrupção e má gestão, um aviso credível depois do desaparecimento de 6.5 milhões de doláres em 2008 destinados à reabilitação de duas velhas centrais já existentes em Inga.

Uma solução mais modesta

Enquanto decorre o debate em volta dos grandes projectos, em Fevereiro iniciou-se o trabalho numa barragem de Kakobola, uma das primeiras das cerca de 351 barragens muito mais pequenas projectadas em várias localidades do país.

A barragem de Kakobola vai proproporcionar electricidade a três áreas povoadas no sudoeste da província de Bandundu, na RDC. V.K. Sharma, director da empresa indiana Angelique International Limited, que vai construir a barragem, afirma que a barragem terá uma capacidade de produção de 9.3 megawatts.

“Estamos a trabalhar neste projecto para o bem-estar da população em Gunfu, Idiofa e Kikwit,” diz Sharma.

“É mais fácil construir uma barragem num rio onde existem quedas como esta,” disse Sharma à IPS durante uma entrevista no local da barragem em Gungu, a cerca de 200 quilómetros de distância de Kikwit, a capital da província.

Servir as necessidades locais

Na região, aguarda-se com expectativa que a barragem fique concluída. “Quero que o abastecimento de energia venha rapidamente. Não é normal que uma cidade com o tamanho de Kikwit (perto de um milhão de habitantes) não tenha electricidade,” queixa-se Mave Kupe, um dos muitos estudantes na cidade que têm de estudar à luz de lanterna.

Prevê-se que o projecto esteja concluído em Janeiro de 2014. Os mais de três milhões de residentes desta zona actualmente dependem de lâmpadas de parafina, velas ou sistemas adaptados que alimentam lâmpadas de lanternas a partir de uma caixa contendo um conjunto de pilhas.

A barragem de Kakobola irá também contribuir para proporcionar acesso regular a água potável, especialmente em Kikwit, onde 800.000 pessoas não têm acesso a água potável.

O Banco de Importação-Exportação da Índia vai emprestar 42 milhões de doláres para construção, sendo o saldo proveniente do orçamento da RDC. Notícias de agências noticiosas indicam que a RDC vai começar a pagar o empréstimo em 2016, a 1.75 por cento de juros durante 20 anos.

Louis Kasende, membro da oposição no parlamento e também Vice-Presidente da Comissão Para Reconstrução e Desenvolvimento na Assembleia Provincial de Bandundu, exige que o governo da RDC indique claramente quando é que os fundos do Banco de Importação-Exportação da Índia serão reembolsados.

Maxime Pakumu, director da zona administrativa de Gungu, afirma que a construção do projecto ajudará a reduzir o desemprego na região e também irá melhorar a qualidade de vida, o poder de compra e até a saúde graças à utilização de electricidade nos estabelecimentos de saúde na zoona.

Embora as pequenas barragens, como a que existe em Kabobola, não dêem resposta à questão do abastecimento de energia a indústrias com elevado consumo energético na RDC e noutras áreas, se a barragem produzir os benefícios esperados na região onde está localizada, poderá criar alternativas à trajectória de desenvolvimento que tanto depende da extracção de recursos.

Badylon K. Bakiman

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