JOANESBURGO, 14/04/2011 – No início da década de 90, um grupo de investigadores partiu para uma pequena aldeia rural no leste da África do Sul. A sua intenção era simples: ensinar a comunidade a reidratar os bebés doentes. Armados com uma garrafa de um litro de água gaseificada, uma simples fórmula de reidratação, passaram semanas a partilhar os seus conhecimentos, fazendo parte de uma iniciativa nacional para reduzir a mortalidade infantil.
Mas, alguns meses mais tarde, não parecia ter havido qualquer mudança na aldeia. Os investigadores enviados para o local para documentar o sucesso da campanha ficaram surprendidos. As instruções estavam correctas e tinham sido distribuídas; a mensagem tinha sido recebida… mas ninguém na comunidade tinha uma garrafa de um litro.
Foi um descuido simples, facilmente rectificado mudando as instruções para um recipiente diferente para fazer a fórmula – todas as cozinhas na aldeia tinham uma chávena.
A Drª. Sue Goldstein, da Soul City, conta esta história para ilustrar como é possível não comunicar conhecimentos cientítificos úteis e simples se não houver uma compreensão adequada do público-alvo.
Adaptar a mensagem
O Instituto da Soul City para a Comunicação a Nível da Saúde e Desenvolvimento, uma organização sem fins lucrativos, iniciou o seu trabalho em 1992, numa tentativa para reduzir a mortalidade infantil causada pela desidratação. “As crianças estavam a morrer desnecessariamente, devido ao facto de as pessoas não saberem o que deviam fazer,” afirma Goldstein.
A informação sobre of processo de reidratação foi amplamente divulgada mas parecia não estar a ter o impacto necessário no público-alvo. Depois de estudar a situação, a Soul City decidiu lançar uma telenovela para captar a atenção do seu público-alvo. Pouco depois, foram lançados um programa radiofónico e uma série nos jornais.
Ao tentar descrever a relação entre a investigação e as campanhas dos meios de comunicação, Goldstein usa a frase “Simplificação por oposição à complexidade.” Numa das extremidades encontra-se o cientista que procura obter conhecimentos detalhados e na outra extremidade encontra-se o indivíduo sem conhecimentos científicos que prefere uma explicação simples.
Melissa Meyer, Coordenadora de Projectos para o VIH/SIDA e também para o Projecto de Comunicação Social, afirma, “A investigação e a diversão não têm que estar em lados opostos. Com um pequeno ajustamento de perspectivas, podem ser usadas muito eficazmente para se complementarem uma à outra.”
Programas como a Soul City reinserem as pessoas reais na investigação. “A boa diversão tem de ser bem investigada,” afirma Meyer.
Sinais de sucesso
A Soul City parece ter encontrado uma fórmula que transmite com êxito mensagens importantes sobre a saúde, conseguindo simultaneamente atrair a atenção da audiência através de um enredo dramático que contém todos os elementos de uma telenovela de qualidade.
Rumbidzai Musiyarira, um fã da telenovela, afirma “A Soul City abre os nossos olhos para que tomems precauções e nos protejamos.”
As questões relacionadas com o VIH e a SIDA têm sido um tema recorrente nesta série.
“A telenovela é muito esclarecedora,” afirma Musiyarira. “Apercebi-me que a propagação do VIH dentro da família ou da comunidade é muito fácil.”
Uma das histórias acompanhou, durante vários episódios, uma mulher que tinha sido infectada com VIH pelo marido sem saber da sua condição. Acreditava que o marido lhe era fiel mas, conforme os acontecimentos demonstraram, ele tinha tido várias parceiras. O cenário, facilmente identificável, egista a investigação que prova que parceiros múltiplos simultâneos têm um papel activo na propagação do VIH na África Austral.
“A minha paixão é divulgar conhecimentos científicos,” afirma Goldstein. Através de um processo intenso com nove passos, a investigação científica é explicada no conteúdo da Soul City por um grupo de agências criativas, investigadores, grupos de análises e outros elementos.
“Não apenas medimos até onde chegamos, mas também medimos o que as pessoas conseguem compreender durante a campanha, e se efectivamente fazem alguma mudança na sua vida depois daquilo que vêem na telenovela,” diz Goldstein.
Questões como a depressão, a tuberculose, a habitação e o abuso de álcool foram evocadas no programa.
Deborah Ndlovu, outra pessoa que acompanha a Soul City, acredita que ver o programa pode ajudar a alterar comportamentos, depois de ter visto mudanças na sua própria vida.
“Ensina-nos a sermos honestos para com o nosso parceiro,” diz. “Temos de ser honestos, devemos saber o nosso estado de saúde e praticar comportamentos seguros.”
Mais do que apenas uma telenovela
A Soul City é uma união entre a educação e a diversão. Um folheto é emitido depois de cada série de treze episódios ter sido transmitida na televisão, para reforçar as mensagens básicas e proporcionar informações científicas suplementares. A Soul City também tem uma página no Facebook e um sítio Web, mas Goldstein reconhece que a organização ainda não começou a aproveitar verdadeiramente o poder da internet. “Penso que ainda estamos na fase de aprendizagem com esse tipo de comunicação de massas.”
O programa chega a cerca de 16 milhões de sul-africanos e atraíu a atenção de numerosas organizações que esperam poder transmitir as suas mensagens através deste meio.
Nem sempre é fácil. “Actualmente, temos um encontro agendado com um grupo de pessoas interessadas nas alterações climáticas – e querem que as provas científicas sejam transmitidas de forma bastante científica,” conta Goldstein. “Não é necessariamente ir falar com as pessoas. Temos de estabelecer contacto com elas, senão não ouvem nada.”
Admitiu que nem todos os temas do programa têm tido êxito. Não se registou nenhuma mudança de atitude depois de um episódio na 6ª série centrado na xenofobia. “Não houve um resultado negativo, mas não houve qualquer tipo de mudança, visto que fizemos a personagem local demasiado compassiva, e isso foi um problema.”
Exames cuidadosos antes do programa ser emitido na televisão têm ajudado a reduzir o número de tentativas falhadas.
Goldstein sublinhou a necessidade da inovação e investigação e de um conhecimento profundo do mercado-alvo para qualquer organização que estiver à procura de criar um programa semelhante. “É preciso identificar quem precisa desta informação e que meio de comunicação usam.”
A televisão, jornais, rádio e revistas estão à disposição das organizações que querem chegar a um vasto público. A rádio-televisão sul-africana é um poderoso parceiro, embora às vezes constitua um problema para o modelo educação-diversão, visto que tenta prescrever o que é que o programa vai transmitir numa altura que não é ideal.
“Os jornalistas estão sempre à procura de material, e se o pudermos proporcionar de forma fácil, ficam muito satisfeitos connosco,” afirma Goldstein.
A investigação, dedicação e uma convicção firme na importância e relevância das suas mensagens têm permitido à Soul City colocar em ampla circulação os resultados da investigação, conhecimentos científicos e mensagens que salvam vidas.

