NAIROBI, 09/05/2011 – Marta Karua não tem receio de nada nem de ninguém, e quando os seus adversários olham para os seus antecedentes na política, de certeza que ficam nervosos. Esta anteriormente fiel apoiante de Mwai Kibaki demitiu-se do cargo de Ministra da Justiça em 2009, e vai desafiar todos os candidatos à presidência como chefe do seu próprio partido no próximo ano.
Esta veterana da política está em actividade desde os melhores dias de Daniel Arap Moi, que governou o Quénia entre 1978 e 2002, e participou activamente na Coligação Nacional de Arco-Íris que obrigou à criação da democracia multipartidária e, em última análise, derrotou a União Nacional Africana do Quénia, que tinha completa e coercivamente dominado a política desde a independência.
Desde muito cedo, Karua trabalhou muito para ultrapassar as suas desvantagens pelo facto de ser rapariga na Província Central do Quénia na década de 60. Obteve boas notas na escola e formou-se como advogada na Universidade de Nairobi, obtendo o seu diploma em 1980 e, depois de um ano de estudos de pós-graduação, trabalhou como advogada no Tribunal Superior do Quénia. Juntou-se ao sistema judicial e trabalhou como magistrada entre 1981 e 1987, quando se demitiu para trabalhar por conta própria.
“Cheguei à conclusão que apenas poderia defender as ideias das mulheres e os ideais democráticos se não estivesse a trabalhar para o governo. Juntei-me a outros políticos na oposição para obrigar Moi a instaurar a democracia multipartidária depois de o Artigo 2A da constituição, que transformou a União Nacional Africana do Quénia (KANU) no único partido político no Quénia, ter sido anulado” disse Karua.
Poucos amigos, muitos inimigos
O seu estilo resoluto na política transformou-se num espinho permanente durante a governação de Moi. Em 1997, Karua saiu do governo de Moi, citando a falta de respeito pelas mulheres quando não foi autorizada a falar durante um comício político.
“Karua é uma firme lutadora a favor da democracia,” declara Koigi wa Wamwere, antigo legislador que foi preso por Moi entre 1990-1993 e também entre 1995-1996. “Não tem medo de ninguém. É a única advogada que defendeu o meu caso durante a repressão dos anos de Moi. Karua levou as nossas mães e outras mulheres para os Jardins Uhuru e ameaçou despir-se se não fossemos libertados.”
John Omulo, do grupo de direitos humanos Grupo para a Libertação dos Presos Políticos, também admira Karua como política. “Quando os homens tinham medo de desafiar os excessos do regime do KANU, Karua estava na primeira linha a lutar pela mudança. Tem sido consistente na busca de uma vida melhor para todos e, se não fosse ela, o Quénia não estaria onde está hoje.”
Franca e dinâmica
Karua ajudou a criar a Coligação Nacional de Arco-Íris (NARC). que ganhou as eleições gerais de 2003, acabando com quase quatro décadas de governação do KANU. Quando entrou no parlamento havia seis deputadas. Agora são 22, de um total de 222 deputados.
Karua apoiou firmemente o actual presidente, Mwai Kibaki, como líder do Partido Democrático (DP) e ainda durante o conflito violento se seguiu às contestadas eleições de 2007, que deu origem ao actual governo de coligação com o Movimento Democrático Laranja (ODM), dirigido pelo Primeiro Ministro Raila Odinga.
“Apoiei o presidente nessa altura porque foi o que disse a comissão eleitoral,” diz Karua. Foi nomeada Ministra da Justiça e Assuntos Constitucionais em Janeiro de 2008.
Mas, frustrada, demitiu-se da sua posição ministerial em meados de 2009.
“Percebi que só queriam a saída de Moi para que aqueles que entraram em funções continuassem com os mesmos vícios que proliferavam na era de Moi. A impunidade e a corrupção continuam na ordem do dia. Por isso abandonei o cargo porque não queria fazer parte de um governo que não ouve os apelos dos governados,” adianta Karua.
Uma mulher, um voto
E uma vez que não tem medo de qualquer desafio, Karia ingressou no partido da Coligação Nacional de Arco-Íris do Quénia, sendo agora a líder do partido.
“Tenho estado na linha da frente da luta pelas questões relacionadas com as mulheres e pel sua participação na governação deste país. As mulheres constituem a maioria dos eleitores e espero que votem em mim, não por ser uma delas mas devido ao que posso fazer enquanto pessoa; devem também examinar o que já fiz no passado.”
Provocou o pânico no sector do poder estabelecido quando dois membros do seu partido conseguiram obter 2 lugares parlamentares nas eleições intercalares ocasionadas pela anulação dos resultados apresentados anteriormente pelo tribunal.
Ambições presidenciais
O Dr Adams Oloo, especialista em ciência política na Universidade de Nairobi, afirma que, devido à acusação do Tribunal Penal Internacional dirigida contra um dos principais candidatos às presidenciais em 2012 – Uhuru Kenyatta foi acusado pelo seu alegado papel na violência política de 2008 – Karua pode receber muitos votos na Província Central.
“Se ela conseguir um número suficiente de deputados, pode até vir a ser a líder da oposição no parlamento,” diz Oloo.
“Actualmente, os quenianos estão mais atentos e vão procurar um líder que esteja preparado para trabalhar para o povo, seja homem ou mulher. A posição de Karua relativamente a muitas questões de interesse nacional conquistou a simpatia da maioria dos quenianos e os outros líderes políticos devem ter isso em consideração.”
Será a terceira mulher a concorrer à presidência no Quénia, e certamente a mais animada.
“Lutei muito pela democracia no Quénia,” diz Karua, “e acredito que posso mudar o Quénia para melhor.”

