CARTUM, 08/07/2011 – Amira Amer* fica bastante incomodada logo que chega à estação de autocarro. Um a um, deixa passar os novos autocarros com ar condicionado. . Está à espera de um autocarro mais barato. Há um número reduzido de autocarros mais baratos na dispendiosa cidade de Cartum e estão sempre apinhados de gente
“Quando os novos autocarros com ar condicionado apareceram, ficámos contentes porque sentimos que o governo finalmente se importava com o nosso comforto mas, infelizmente, eles não são subsídiados. Custam duas libras sudanesas (60 cêntimos) e eu não posso pagar quatro libras por cada viagem de ida e volta,” disse Amer durante uma entrevista com a IPS. O trabalho de Amer obriga-a a gastar bastante tempo e dinheiro a viajar para resolver as necessidades dos seus clientes. Compra produtos importados de empresários e vende-os aos clientes, que esperam que ela entregue esses produtos à porta. “Muitos dos meus clientes não podem pagar na altura da entrega e, por isso, tenho que os visitar várias vezes para receber as prestações semanais ou mensais,” contou à IPS. A situação nem sempre foi tão difícil para Amer. Herdou 60.000 doláres em 2006, quando a casa da família foi vendida. Esta mãe solteira de três filhos conseguiu comprar uma boa casa para a sua pequena família e até poupar algum dinheiro para os filhos. Nessa altura, uma libra sudanesa equivalia a 2.30 doláres e a vida era consideravelmente mais barata. A economia do Sudão estava em expansão devido ao elevado preço do petróleo e ao aumento do investimento estrangeiro. Nos anos que se seguiram à assinatura no Acordo de Paz Global em 2005, foram criados novos postos de trabalho, os cafés estavam cheios de clientes e os jovens profissionais conseguiam comprar carros a prestações e viajar para o Cairo, Dubai ou Kuala Lumpur para passar férias. “Ninguém viaja agora, as pessoas estão a tentar poupar dinheiro para dias piores. Os bilhetes eram muito mais baratos há alguns meses, mas agora os preços subiram 25 por cento,” afirma Maha Ali, funcionário de uma agência de viagens no centro de Cartum. Ali ganhava muito dinheiro em comissões quando trazia clientes para a agência. Agora é difícil tentar convencer as pessoas a viajar, especialmente quando algumas linhas aéreas só aceitam doláres e rejeitam a libra sudanesa, em constante flutuação. A economia mudou em Novembro de 2010. O governo do Norte do Sudão afirmou que o Sudão não tinha divisas e o Ministro das Finanças e Economia Nacional do Sudão, Mahmoud Hassanein, terá dito que os Sudaneses consumiam mais do que o país produzia, o que levava ao aumento dos preços. No início de Janeiro, os Sudaneses do Sul votaram num referendo a favor da secessão do Norte, desencadeando uma crise económica no Sudão. Actualmente, o Norte e o Sul do Sudão partilham igualmente as receitas do petróleo localizado no Sul. Mas isso mudará quando o Sul do Sudão se tornar independente. Mas o Norte do Sudão começou a sentir o impacto da secessão mesmo antes do referendo. Os preços dispararam devido à inflação, embora os salários se mantivessem iguais ou chegassem mesmo a decrescer. “O meu salário baixou. Costumava receber muitos benefícios e comissões durante os projectos, mas foram removidos ou reduzidos a metade. A vida está a ficar mais cara e ganho menos dinheiro,” afirmou um funcionário na Universidade de Cartum. Os preços estão a subir a um ritmo alarmante. O óleo de sésamo, produto consumido regularmente, aumentou de 110 para 126 libras sudanesas, e o preço do pão aumentou 25 por cento. Nos supermercados as pessoas compram aquilo que consideram ser produtos básicos, como açúcar, leite e farinha. Os produtos de luxo estão empilhados ordenadamente a ganhar pó. “Normalmente faço as compras da casa semanalmente; costumava gastar 250 libras sudanesas em artigos de mercearia, fruta, legumes e carne. Agora pago 350 libras sudanesas,” contou um professor da Universidade de Cartum à IPS. Ahmed*, que às vezes trabalha como negociante de moeda no mercado negro, pensa que o problema tem a ver com o valor da libra sudanesa. “Durante muito tempo em 2010, o governo sustentou que o dolár era igual a 2.50 libras sudanesas. Quando o valor da libra sudanesa caíu, apesar dos esforços do governo para parar a actividade do mercado negro, as pessoas sentiram-se defraudadas,” declarou Ahmed. Acrescentou ainda que as restrições sobre a quantidade de doláres que se pode levar quando se viaja para o estrangeiro empurrou muitos para o mercado negro. “Só no aeroporto é que se conseguia trocar o equivalente a 1.000 dolóres. Agora é possível obter-se 1.500 euros mas ainda não é suficiente,” disse à IPS. Najm El Deen Ibrahim, alto funcionário junto do Banco Central do Sudão, o banco responsável pela gestão das contas nacionais e por estipular a taxa de câmbio da libra sudanesa, acredita que a moeda nacional não vai sofrer desvalorizações adicionais. “Injectámos divisas no mercado destinadas a importantes importadores, agências de câmbio e bancos comerciais. O Banco Central assegurará a estabilidade da moeda e agirá imediatamente para impedir qualquer enorme flutuação.” Acrescentou que ainda não existe uma ligação directa entre os preços e as taxas de câmbio. O aumento dos preços deve-se ao aumento das mercadorias básicas em todo o mundo.
*Os nomes foram mudados

