SOMÁLIA: “Crianças prestes a morrer abandonadas para salvar aquelas que ainda têm possibilidade de sobreviver”

MOGADÍSCIO, 17/08/2011 – Dezenas de milhares de somalis esfomeados chegaram à zona de Mogadíscio controlada pelo governo à procura de alimentos mas muitos pais tiveram de tomar a decisão angustiante de abandonar um dos filhos demasiado fracos para efectuarem a deslocação na esperança de salvar os outros. Enquanto muitas pessoas do sul do país abandonam as casas para chegarem à capital em busca de ajuda nas zonas de Mogadíscio controladas pelo governo, continua a ouvir-se muitos relatos sobre pessoas debilitadas e doentes que morrem durante a longa viagem. Há até histórias de crianças que foram abandonadas por estarem demasiado fracas para andar. Estes foram os “sacrifícios” que muitas famílias tiveram de fazer para salvar os outros filhos.

“Contaram-nos que alguns idosos sucumbiram e morreram, enquanto que as crianças que não conseguiam andar por estarem prestes a morrer foram abandonadas para salvar aquelas que tinham possibilidade de sobreviver, disse Mohamed Diriye, funcionário superior num grupo local de apoio às vítimas da seca em Mogadíscio.

Diriye acrescentou que a maior parte dos deslocados tinha chegado a Mogadíscio e aos campos de refugiados no Quénia e Etiópia, países vizinhos da Somália.

Isto acontece quando as Nações Unidas declararam o estado de fome em duas regiões no Sul da Somália, o Bakool do Sul e o Baixo Shabelle. A ONU calcula que quase de 2.8 milhões de pessoas vivem no sul do país e acrescenta que cerca de metade da população da Somália está a enfrentar uma crise humanitária.

A Somália é o epicentro de uma prolongada seca que, no último ano e meio, tem afectado o Corno de África. A seca, que também afecta partes do Djibouti, Etiópia e Quénia, foi descrita pelas organizações humanitárias como a pior em seis décadas. O Alto Comissário das Nações Unidas Para os Refugiados, António Guterres, afirmou durante uma visita ao campo de refugiados de Dadaab, perto da fronteira entre o Quénia e a Somália, que a seca era “a pior crise humanitária do mundo”.

Até agora, tem sido impossível para os membro de organizações humanitárias internacionais trabalharem no sul da Somália, visto que o grupo rebelde islâmico Al-Shabaab, que controla a maior parte do sul do país, proibiu as agências de ajuda humanitária de actuarem em regiões sob o seu controlo em 2009.

Só recentemente o grupo terrorista anunciou que iria levantar a proibição para permitir que a ajuda chegue às comunidades afectadas pela seca. Contudo, muitas pessoas no sul já começaram a fugir da região para os países vizinhos e para as zonas controladas pelo governo na Somália em busca de ajuda.

A ONU congratulou-se com as notícias mas indicou numa declaração que a “incapacidade das agências alimentares de trabalhar na região desde o início de 2010 tem impedido a ONU de chegar aos mais esfomeados, especialmente as crianças, o que contribuiu para a actual crise.”

A Somália não tem um governo central eficaz e tem sido duramente afectada por duas décadas de guerra civil.

O actual governo da Somália é apoiado por cerca de dez mil tropas de manutenção da paz da União Africana e controla apenas um pouco mais de metade da capital do país, Mogadíscio. O Al-Shabaab, ligado à Al-Qaeda, controla as restantes zonas da capital.

Os refugiados continuam a chegar às zonas de Mogadíscio controladas pelo governo depois de fazerem a difícil viagem do sul do país a pé.

Quando chegam à cidade, cujos edifícios desertos estão crivados de balas, nem todos conseguem obter ajuda.

“A minha família perdeu todo o gado, mais de 50 cabeças, devido à falta de água e locais de pastagem. Não choveu durante um ano e meio e por isso a relva morreu. Os poços, rios e lagos secaram,” contou Muse Elmi, pai de dez filhos, à IPS. A família fugiu de uma aldeia na província de Bakool, no sul da Somália, tendo recentemente chegado ao novo campo criado para os deslocados pela seca.

O governo da Somália construíu o campo fora da cidade para os deslocados, afirmando ser mais apropriado uma vez que a ajuda pode ser facilmente distribuída pelas agências de ajuda humanitária, que se prevê venham a dirigir os campos.

Mas não há espaço suficiente nos campos para albergar todos aqueles que procuram ajuda e muitos dos recém-chegados procuram abrigo em prédios arruinados e devolutos em Mogadíscio.

“Não tivemos outra opção senão andar durante 15 dias até chegarmos a Mogadíscio. Esperávamos receber apoio do governo e das agências de ajuda humanitária,mas até agora recebemos muito pouca ajuda.”

Elmi explicou que. desde que a família chegou à capital, só recebeu ajuda alimentar uma vez dada por uma organização não-governamental, a SAACID.

Os números exactos daqueles que chegam a Mogadíscio provenientes de áreas afectadas pela seca no sul da Somália são difíceis de calcular visto que os funcionários governamentais e as organições não-governamentais locais apresentam estimativas diferentes. Alguns afirmam que há 20.000 refugiados provenientes de zonas do sul de Mogadíscio, enquanto outros dizem que são 30.000.

“Na realidade não podemos apresentar números exactos sobre os deslocados pela seca e que chegaram à cidade, embora possamos dizer que são quase sempre milhares, e que continuam a afluir à cidade em busca de alimentos e abrigo,” disse Diriye.

Em absoluto contraste com a seca no sul do país, fortes chuvas têm assolado a capital na última semana. Para os deslocados que vivem em abrigos temporários, a chuva tem dificultado a vida visto que muitos campos ficaram inundados.

“Estamos muito apertados aqui. Eu, a minha mulher e quatro fihos vivemos nesta pequena barraca. A água entra por todo o lado, pelo telhado e pelas paredes,” explicou Abdi Daahir, um refugiado que fugiu da seca.

Cinco pessoas morreram alegadamente desde 15 de Julho em resultado da exposição às forças da natureza, e dezenas ficaram feridas quando as chuvas frias se abateram sobre a cidade durante uma semana.

Os médicos nos principais hospitais de Mogadíscio dizem recear a propagação de doenças transmitidas pela água devido ao colapso dos sistemas de esgotos na cidade e às enormes poças de água da chuva que se formaram nos campos montados apressadamente, onde não existem retretes.

Altos funcionários do governo da Somália, incluindo o Presidente Sheikh Sharif Sheikh Ahmed, fizeram um apelo à ajuda da comunidade internacional.

A Organização da Conferência Islêmica foi a primeira agência humanitária internacional a distribuir ajuda limitada às vítimas da seca em Mogadíscio. Grupos de apoio local também conseguiram galvanizar os residentes de Mogadíscio a ajudar os deslocados com alimentos e cobertores.

Mas esta ajuda não tem sido suficiente. Alguns refugiados começaram a mendigar nas ruas da capital e outros disseram que estavam a considerar a hipótese de se deslocarem para campos de refugiados em países vizinhos onde actua a maior parte das agências de ajuda humanitária.

As agências de ajuda humanitária internacional. incluindo o Fundo das Nações Unidas para a Infância, o Programa Alimentar Mundial e os Médicos Sem Fronteiras, prometeram dar apoio às vítimas da seca.

Logo que se deu o levantamento da proibição da ajuda humanitária imposta pela Al Shabaab no dia seis de Julho, algumas remessas de ajuda chegaram às zonas controladas pelos islamitas.

Abdurrahman Warsameh

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