Alterações climáticas estão a destruir o sustento das mulheres

DURBAN, África do Sul, 10/01/2012 – Ao longo de toda a sua vida, Talata Nsor, uma mulher de 54 anos da comunidade de Bolgatanga,no norte do Gana, tem sido tecelã dos cestos Bolga, que têm o mesmo nome que a sua comunidade. Tem sido um negócio de sucesso para ela, e conseguiu até pagar os estudos dos filhos com o lucro das vendas.

No entanto, está preocupada com o facto de, em breve, a sua comunidade não produzir os cestos famosos em toda a região da África Ocidental e comercializados na Europa e América.

Isto porque a matéria-prima usada para fazer os cestos – habitualmente conhecida como capim elefante ou pelo seu nome científico de veta vera – está a tornar-se extinta devido ao que Nsor refere como alterações climáticas.

“Há 10 anos podia andar em qualquer zona húmida aqui perto que faz parte do norte do Gana e apanhava o capim-elefante sem pagar nada. Mas hoje, tenho de ir para muito longe ou viajar até Kumasi, a 400 quilómetros de distância, para comprar a matéria-prima,” contou Nsor.

O capim-elefante só pode crescer em terras húmidas. De acordo com os especialistas na área, as pessoas estão a converter as terras húmidas em terras agrícolas como forma de lidarem com a falta de chuva e crescente insegurança alimentar.

“As pessoas preferem transformar as terras húmidas em zonas destinadas à horticultura porque a agricultura que depende da chuva está em declínio. Os padrões da pluviosidade deixaram de ser seguros e as pessoas precisam de cultivar em áreas onde têm garantias que haverá água para irrigação,” disse Nafisatu Yussif, Responsável de Programas junto da ABANTU, organização que implementa as políticas a partir de uma perspectiva de género em África.

Ela é uma das muitas mulheres que representam comunidades de todo o mundo que viajaram para testemunhar as negociações contínuas das Nações Unidas em Durban, na África do Sul, para serem ouvidas.

“Estamos a acolher mulheres diferentes com percursos de vida variados,” disse Samantha Hargreaves da ActionAid International, uma das organizadoras da Assembleia das Mulheres Rurais que se realiza ao mesmo tempo que a 17ª Conferência de Partes.

“Mais de 500 mulheres neste fórum partilham experiências de diferentes países, sugerem o caminho a seguir e indicam as suas melhores práticas. O resultado da assembleia será apresentado ao Grupo de Negociadores Africanos como posição comum das mulheres dos países mais pobres,” explicou Hargreaves.

Contudo, de acordo com os participantes na assembleia, as mulheres dos países mais pobres enfrentam problemas que são quase semelhantes.

“No meu país as mulheres trabalham na terra mas, quando chega à altura das colheitas, os homens assumem a responsabilidade de arrecadar o dinheiro. Fui informadao que o mesmo se passa em África e noutros países da Ásia,” afirmou María Estela Jocón González, que representa as mulheres de três zonas rurais da Guatemala.

As regiões ocidentais, meridionais e setentrionais da Guatemala são propensas a cheias, situação que piorou no passado recente, segundo González.

“Quando as cheias chegam, os poços de água ficam cheios de água suja. Porém, de acordo com a nossa cultura, a mulher é exclusivamente responsável por assegurar o acesso da família a água potável para beber e para consumo doméstico,” relatou à IPS.

Ela apelou a que a reunião da comunidade internacional em Durban assegure a implementação de sistemas que controlem as crescentes cheias.

“Quero ouvir falar de compromissos por parte dos países com respeito à emissão de gases que causam o aquecimento global. É bom pensar no desenvolvimento, mas o desenvolvimento sem um meio ambiente saudável é inútil,” disse.

Enquanto há cheias na Guatemala, o sul do Senegal tem falta de pluviosidade. Faty Khody de Kaulak, uma comunidade rural no sul do Senegal, disse à IPS que as chuvas na área tinham diminuído de uma média de 900 milímetros em 2001 para os actuais 300 e 400 milímetros.

“Costumávamos plantar legumes e vendê-los no mercado local. Mas actualmente isso não é possível, a não ser que seja feito através de irrigação,” afirmou Khody, que trabalha como funcionária de promoções da Interpench, uma organização comunitária que reúne mais de 7.700 mulheres das zonas rurais do Senegal.

“Os padrões de chuva mudaram, as secas tornaram-se mais radicais e, quando chove, o resultado são as cheias, que muitas vezes causam sofrimento às pessoas nas zonas rurais, especialmente a mulheres e crianças.”

Com o apoio da organização não governamental Horizon 3000, a Interpench iniciou um projecto intitulado “Uma Mulher Uma Árvore de Fruto” como forma de adaptação às alterações climáticas.

“Dizemos uma árvore porque é o primeiro passo. A semente de uma árvore é entregue gratuitamente, e recebe o nome da pessoa que a planta como recordação. Contudo, deve ser uma motivação para as mulheres participarem não só na plantação de árvores mas também em árvores que produzem fruta,” disse Khody.

“Esperamos que as deliberações da COP 17 apresentem ideias que apoiem as iniciativas relacionadas com a adaptação às alterações climáticas apresentadas por mulheres,” afirmou Hargreaves.

No entanto, insiste que. para esses projectos sejam bem sucedidos, têm de ser construídos com base nos sistemas de conhecimento indígena.

“O Grupo de Negociadores Africanos não pode sucumbir à pressão exercida pelos países desenvolvidos na COP 17,” disse.

Opiniões semelhantes foram exprimidas por Elizabeth Kakukuru, Responsável de Programas junto da Unidade de Género da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral.

“A maioria das negociações decorrerem nos conselhos de administração sem envolver as pessoas no terreno. No entanto, as recomendações apresentadas devem ser alegadamente implementadas pelas mulheres que residem nas zonas rurais. Chegou à altura de as partes se envolverem directamente nessas importantes negociações,” referiu.

Relativamente ao uso da transferência de tecnologia para lidar com a adaptação às alterações climáticas, Kakukuru observou que todos os projectos devem ser apropriados e desenvolvidos mediante de um processo de consultas com as comunidades indígenas.

Isaiah Esipisu

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