JUBA, 10/01/2012 – Reuniões alegres acompanharam o último grupo de cidadãos do Sul do Sudão que regressou do Sudão para o seu país, recentemente independente. Mas os refugiados terão de enfrentar enormes desafios para se integrarem no Sul do Sudão, que se tornou não só na mais nova nação do mundo no dia 9 de Julho, mas também numa das mais pobres.
O governo do Sul do Sudão tem tido dificuldades em receber as mais de 350.000 pessoas que regressaram desde Outubro de 2010 – e com outro milhão de Sudaneses do sul ainda a residir no Norte, essa pressão provavelmente irá aumentar. Os familiares reuniram-se no Porto de Juba no dia 28 de Novembro à espera da chegada de dois batelões com mais de 3.200 retornados. Aplausos, um grande alarido, e gritos de “aleluia” ouviram-se nas margens do Nilo e nos convés dos batelões quando se aproximavam do porto após 12 dias no rio. Quando os retornados desembarcaram foram calorosamente abraçados pelas famílias. “Foi um momento de grande alegria,” afirmou Daniel Simon, depois de ter saudado a mãe que, segundo ele, não via há muitos anos. Tinha abandonado o Sudão há muito tempo até à altura de regressar a Juba. Saloma Majok, a mãe de Simon, afirmou estar “muito, muito satisfeita” por ver o filho novamente. Explicou que tinha vivido em Cartum nos últimos 24 anos, acrescentando que estava muito contente por se encontrar no seu próprio país, apesar de saber que a família teria de enfrentar dificuldades para reconstruir a vida. “Mesmo nesta situação estou muito orgulhosa,” disse. Duer Tut Duer Makuac, Presidente da Comisssão de Ajuda Humanitária e Reabilitação do Sul do Sudão, afirmou que a organização iria coordenar com os governadores e comissários nacionais das zonas de origem dos retornados a organização da distribuição de terras. Contudo, segundo Makuac, muitas vezes o processo não tinha corrido bem e algumas pessoas tinham ficado sem terra. “Há muito tempo que sabíamos que iriam ser levados para o Sul,’ afirmou Makuac. “Devíamo-nos ter organizado há muito tempo, isso não foi feito, mas desta vez terá que ser.” Iklas Monu Ahmed afirmou que tinha acampado perto do porto num abrigo construído com lençóis e plásticos desde o seu regresso há quatro meses, porque não tinha onde ficar. Sentada numa armação de cama debaixo de uma árvore com o filho de três anos com malária ao seu lado, Ahmed disse que não tinha dinheiro para comprar medicamentos. Afirmou ainda que esperava mais da vida no Sul do Sudão. “Há muitas mudanças, mas para fazer parte delas neste novo país tenho primeiro de obter uma parcela de terra e instalar a minha família,” disse, acrescentando que ninguém do governo ou das agências internacionais a tinha visitado desde que chegara. Provavelmente o governo vai enfrentar pressão adicional para resolver as necessidades de pessoas como Ahmed nos próximos meses. Jan De Wilde, director da missão da Organização Internacional para as Migrações (OIM) das Nações Unidas, afirma que há cerca de um milhão de Sudaneses do Sul que enfrentam um futuro incerto no Norte. De Wilde explicou que o governo de Cartum estabeleceu a data de 9 de Abril de 2012 para que estas pessoas clarifiquem o seu estatuto residencial, mas o governo ainda não apresentou quaisquer opções, como residência permanente ou cidadania. “Antes dessa data, têm de legalizar a sua situação ou partirem, e não há disposições para que as pessoas se possam legalizar no Norte,” disse. De Wilde referiu que a OIM tinha ajudado perto de 20.000 retornados até ao momento e que outros 9.000 deviam chegar em batelões nas próximas semanas, provenientes de Kosti, um ponto de paragem no Nilo a norte da fronteira. Embora o último grupo de refugiados tenha sido autorizado a carregar a sua carga em oito batelões adicionais que deviam chegar em poucos dias, De Wilde explicou que o transporte de grandes quantidades de carga estava a atrasar o processo. Disse que a OIM só podia permitir que os futuros retornados trouxessem os seus pertences básicos. Omer Salah Kajam, Director-Geral Adjunto da Companhia Logística Sudanesa, proprietária dos batelões, afirmou que as pessoas que esperam por transporte em Kosti se tinham queixado vigorosamente contra os novos regulamentos. Mas acrescentou que os novos regulamentos iriam permitir aos funcionários transportar mais pessoas rapidamente. Em Outubro, uma organização não governamental, Refugees International, sublinhou a difícil situação daqueles que estavam retidos em Kosti e Renk, cidades vizinhas no lado oposto da fronteira entre o Sul do Sudão e o Sudão. A organização afirmou que não tinham alimentos nem abrigo, e instou o governo e as agências humanitárias a fazerem mais para os trazer para casa. Entre a multidão de retornados e familiares, Makuac explicou que o governo iria trabalhar com as agências internacionais com vista a organizar pontes aéreas para aqueles que permaneciam a meio caminho. “Será menos dispendioso em termos de recursos, de segurança e de tempo,” adiantou. Disse também que o governo iria pedir que cada família de cinco pessoas transportasse apenas 20 quilogramas de bens pessoais. O pedido provavelmente não será bem recebido pelos futuros retornados, especialmente tendo em conta que os que já fizeram a viagem antes deles foram autorizados a transportar todo o tipo de artigos. Kajam explicou que tinha visto pessoas a carregar nos batelões carga volumosa, incluindo burros, caixilhos de portas e sistemas de som. Não culpava, no entanto, as pessoas visto que os Sudaneses do Sul regressam a um dos países mais pobres do mundo. “Estão a mudar-se para o nada,” disse. “Se estivesse no lugar deles levaria tudo comigo porque não sabia qual seria o meu futuro.”

