Israel e Irã compartilham a ambiguidade nuclear

Jerusalém, Israel, 09/02/2012 – Israel atacará o Irã? A pergunta domina a agenda internacional enquanto o grande projeto de um Oriente Médio livre de armas atômicas está relegado ao utópico "dia seguinte" àquele em que for encontrada uma solução para o programa nuclear da república islâmica. Embora pareça estranho, a sociedade israelense não tem uma opinião clara a respeito e depende "dos que sabem mais". E "os que sabem mais", como o ministro da Defesa, Ehud Barak, dizem: "Se as sanções não detiverem o programa nuclear do Irã, será necessário considerar uma ação militar. Quem diz "˜mais tarde"™, pode perceber que é muito tarde", alertou na semana passada.

A preocupação de muitos analistas, inclusive israelenses, é que um ataque de Israel não só desate uma guerra terrível como apenas sirva para atrasar em um par de anos o programa nuclear iraniano. "Sanções severas e uma frente diplomática unida são a melhor forma de arruinar o programa nuclear iraniano", afirmou no dia 3 um editorial do jornal norte-americano The New York Times.

Por outro lado, funcionários israelenses da defesa afirmam que se a questão nuclear do Irã não for abordada frontalmente "“ seja financeira ou economicamente "“ a região afundará em um caos de proliferação atômica que poderia envolver outros Estados. Estes são os parâmetros do debate: ou para um ataque (com ou sem aprovação dos Estados Unidos) ou para sanções. Entretanto, há alternativas: uma zona livre de armas nucleares poderia ser uma estratégia para neutralizar o programa atômico do Irã.

Os governos israelenses condicionam a concretização dessa zona para uma situação de paz com todos os vizinhos do Estado judeu. Isto é praticamente impossível, devido ao caráter atual do regime iraniano. E na frente árabe não há nenhum avanço para a paz. De todo modo, ativistas da sociedade civil depositam esperanças na reunião de acompanhamento que acontecerá este ano na Finlândia, após a Conferência de Avaliação do Tratado sobre Não Proliferação das Armas Nucleares, que aconteceu em 2010.

Nessa reunião será discutido um acordo para transformar o Oriente Médio em uma zona livre de armas nucleares e de qualquer outro armamento de destruição em massa. O país anfitrião foi aceito por todos os governos, inclusive Irã e Israel. "A maioria dos israelenses nem sabe que seu país está disposto a contemplar a ideia de uma zona livre de armas nucleares", disse Hillel Schenker, coeditor do Palestine-Israel Journal, com sede em Jerusalém e dirigido por especialistas dos dois países.

Em outubro, o ex-porta-voz do capítulo israelense da Associação Internacional de Médicos para a Prevenção da Guerra Nuclear coordenou uma reunião entre ativistas israelenses e iranianos. Realizada em Londres sob o patrocínio de uma iniciativa da sociedade civil para criar uma Conferência sobre Segurança e Cooperação no Oriente Médio, a reunião facilitou o desenvolvimento de áreas de mútuo entendimento entre os dois povos.

Contudo, esse encontro foi uma exceção. O debate público está limitado em grande parte pela pressão das autoridades. Quando o ex-chefe do Mosad (serviço secreto israelense), Meir Dagan, questionou o argumento pela solução militar dos dirigentes de seu país, Barak atacou sua franqueza qualificando-a de "conduta grave".

Apesar de os israelenses costumarem ser abertos ao debate, tendem a considerar que a questão nuclear é um tabu, ou tema muito complexo para expressar discrepâncias. A maioria aceita que só os altos chefes políticos e militares exerçam esse direito, e a portas fechadas. A ausência de debate também se deve a que, desde a criação de seu próprio programa nuclear no fim dos anos 1950, Israel mantenha uma política de "ambiguidade": a postura oficial é que "não será o primeiro país a introduzir armas nucleares na região".

Israel nunca assinou o tratado de não proliferação nuclear. O Irã sim. Mas ambos rejeitam e se abstêm de vincular seus respectivos desenvolvimentos nucleares. O manto de segredo que cobre os programas israelenses permite aos seus cidadãos sentir que participam da defesa de seu país sem terem que lidar com a questão nuclear.

"Se refletimos como sociedade sobre o armamento nuclear, o fazemos sobre o iraniano, que, de fato, ainda não existe", destacou a pacifista Sharon Dolev, da campanha pelo desarmamento do Greenpeace no Mediterrâneo. "Como o corcunda que não vê sua própria corcunda, nós não vemos nossas próprias armas", acrescentou.

Essa ambiguidade faz com que a comunidade internacional continue ignorando a Dimona, suposto centro nevrálgico do programa nuclear israelense no sul de seu território, para se preocupar somente com Natanz, no centro-oeste do Irã, considerada sede do desenvolvimento nuclear buscado por Teerã. O Irã também é ambíguo. Embora a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) tenha informado, em novembro, que esse Estado realizava atividades relacionadas ao desenvolvimento de armas nucleares, não há nenhuma prova de que realmente tenha decidido fabricar uma bomba.

Os funcionários israelenses elogiam a "ambiguidade", pois potencializa a segurança do Estado judeu quase tanto como as armas de destruição em massa. Presumindo que tal política é necessária, ativistas pela desmilitarização propõem um debate que respeite os limites de não expor a capacidade nuclear de Israel, e alegam que fortaleceria o caráter democrático de sua sociedade. "É possível, e inclusive obrigatório, debater com seriedade a necessidade das armas nucleares, os perigos que representam para a região e o mundo, e as possibilidades de desarmamento", defendeu Dolev.

Os que buscam abolir a "opacidade nuclear" de Israel acreditam que chamar as coisas por seu nome pode fazer com que a região se abra gradualmente para o controle de armas, se uma zona livre de armamento atômico não for possível. "Porém, se fracassar a prevenção (da capacidade nuclear iraniana), será improvável os israelenses verem o controle de armas como uma solução", previu Avner Cohen, autor do controvertido Israel e a bomba, de 1998. Com mais razão, pois durante a Guerra Fria o cenário dos diálogos sobre controle de armamentos foi a existência declarada de armas nucleares.

Além disso, entre os israelenses há quase consenso de que a ambiguidade é um caso de força maior e o fator de dissuasão mais efetivo para o que se vê como "perigo existencial", constituído pelo Irã. Esta vinculação entre armamento de destruição em massa e hostilidade extrema tem precedência sobre qualquer outra consideração, reconhecem os pacifistas.

Diante da suposição de que o Irã fabrique a bomba, "não sabemos qual Estado nuclear se desarmará primeiro, mas sabemos qual será o último: Israel", advertiu Cohen. Muitos ativistas concluem que provavelmente já seja tarde para que os israelenses convençam seus governantes de que sair do bunker da ambiguidade é a melhor forma de desativar a bomba de tempo iraniana, que já está perigosamente acesa. Envolverde/IPS

Pierre Klochendler

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